Paz e amor podia ser o refrão que se escutava nas ruas bem-comportadas de Londres desde os anos 1960, mas no número 430 da Kings Road, em Chelsea, gritavam-se outras palavras de ordem: um par de renegados, fascinados pela rebeldia, tinham aí aberto, em 1971, uma pequena loja de roupa que desalinhava a compostura britânica.
Vivienne Westwood e Malcolm McLaren batizaram-na de Let it Rock, mas a boutique iconoclasta conheceu outros nomes panfletários: Too Fast to Live, Too Young to Die (em homenagem ao ator James Dean); Sex (acrescentado do divertido slogan “roupa de borracha para o escritório”); Seditionaries – Clothes for Heroes (cruzando a estética sadomasoquista com o lema Do It Yourself); e Nostalgia of Mud, mais tarde transformado em World’s End – um último batismo profético, surgido do desencantamento de Vivienne com a canibalização do punk pelo mainstream, e que resiste até hoje.

Lá dentro, existiram primeiro roupas para teddy boys influenciadas pela distorção da alfaiataria britânica. Depois surgiram t-shirts rasgadas, cabedais, fechos-éclaires em sítios inusitados, o símbolo “Joly Roger” com a caveira e ossos cruzados que sinalizava a cultura pirata, a borracha da cultura sadomasoquista – e um rato vivo numa gaiola. A boutique transfigurou-se num epicentro da subcultura londrina. “O país era um pântano de bege e nylon e a loja deles era um oásis. Era preciso liberalismo e bravura para usar aquelas peças na rua. Mas se se comprava roupa lá, não se ia a nenhum outro lugar”, descreveu Marco Pirroni, músico da banda Adam and the Ants, cujo cantor adotou um look de pirata desconstruído – a estética do primeiro desfile de moda de Vivienne em 1981-82.
Subverter o statu quo
Aos 31 anos, Vivienne Isabel Westwood, figura de olhos incendiários e cabelo loiro espetado-à-choque-elétrico, começou nesse espaço-palco a criar roupa, sem formação técnica, mas com uma tesoura nas mãos e sob a influência de McLaren, o segundo marido, manager de bandas punk rock como os New York Dolls e os incontroláveis Sex Pistols – o guitarrista Steve Jones e cantor Johnny Rotten eram clientes assíduos.
“Ela lembrava-se de uma rusga da polícia em que todas as t-shirts impressas com palavras fortes foram removidas da loja, enquanto as outras t-shirts que mostravam como fazer uma bomba ficaram sossegadas nas prateleiras”, recordou o filho de Vivienne e Malcolm, Joseph Corré.
Fundador da marca Agent Provocateur e ativista climático, também ele fez capas por ter queimado a coleção de memorabilia dos Sex Pistols, avaliada em seis milhões de libras, durante os festejos dos 40 anos do single Anarchy in the UK… para denunciar a cultura de consumo. Ao seu lado, pronta para atear mais um fósforo, estava a mãe.
As t-shirts de Vivienne Westwood nunca foram “apenas” t-shirts: formalmente desconstruídas com rasgões, alfinetes de ama, ossos de galinha, símbolos gráficos e purpurinas, eram também conceptualmente provocatórias e politicamente empenhadas. Ostentavam palavras confrontacionais como “perv” (perverso, pervertido), “rock”… Ou efígies da rainha Isabel II com a bandeira Union Jack em fundo, manchadas com as palavras “destroy” ou com a citação-canção dos Sex Pistols, God Save the Queen. Ou dispunham a suástica sobre uma imagem invertida do Cristo crucificado para a Anarchy Shirt (1977). Criações destinadas, dizia, a ser uma ferramenta para “desafiar a geração mais velha”, para dizer: “Nós não aceitamos os vossos valores ou tabus, vocês são todos fascistas.” Vivienne e McLaren chegaram a ser processados pelas autoridades britânicas, ao abrigo da lei de 1959 dedicada às publicações obscenas… O que só os levou a produzir ainda mais t-shirts provocatórias.
Três dessas t-shirts, datadas de 1976 e 1977, e que a curadora Anabela Becho acredita terem sido cosidas pela mão da própria designer, estão presentes na exposição Vivienne Westwood – O Salto da Tigresa: atrás da porta gradeada da entrada na sala dos cofres, e na penumbra, evocam uma matilha tensa.
Em frente, flutua outra peça simbólica: um espartilho, peça polémica associada à contrição do corpo feminino, odiada pelas feministas. “Vivienne fá-la subversiva, uma afirmação de tomada de controlo do próprio corpo pelas mulheres”, sublinha a curadora.

Com Westwood, o corpo feminino ganha novas geometrias, plongés, voluptuosidades: sobem os seios, exageram-se as ancas, as saias encurtam-se ao limite ou abalonam-se até ao excesso, (re)criam-se padrões tartã, traz-se à luz a lingerie, explora-se o drapeamento dos tecidos, ama-se roupa de piratas…
A provocadora Vivienne tem um amor pela História em geral, pela história da cultura e pela história da moda e do traje
anabela becho, curadora da exposição
À VISÃO, Anabela Becho recorda: “A provocadora Vivienne tem um amor pela História em geral, pela história da cultura e pela história da moda e do traje.” E dá exemplos: “Ao trabalhar uma modelagem que envolve o corpo de forma mais intuitiva e natural, ela vai recuperar a roupa interior do século XVIII. E faz referências à pintura de Boucher, à sociedade francesa e aos símbolos britânicos, ao rococó, à costura dos anos 1950, ao vegetalismo da natureza numa fase mais tardia… Westwood olhava para o passado, tinha um fascínio pela literatura, pela pintura, que via como uma forma de progredir e viver o presente.”
Lutas e tesouros
O Salto da Tigresa faz referência direta ao “salto do tigre” enunciado pelo ensaísta Walter Benjamin (1892-1940), à sua consciência de que a moda é um fenómeno representativo da modernidade: torna-se uma comodidade, suscita a ânsia pela novidade. Os poetas Baudelaire e Mallarmé também prestam atenção a este objeto de desejo e poder.
A exposição, intimista, organiza as peças em composições: Piratas modernos e crinolinas, Punks e espartilhos, Vive la cocotte, Bustiês e pérolas, Showroom, Tartãs e anquinhas, Anglomania, Cortes inconvencionais, Natureza. Um léxico acompanhado por peças de época vindas do Museu do Traje; por criações de designers que trabalharam a subversão das formas, como Elsa Schiaparelli ou Rei Kawakubo da Comme des Garçons, que sublinham a ambição e a escala da sempre punk Westwood. Há também preciosidades como uns sapatos de brocado com dedos desenhados da autoria da britânica, ou os dois livros, antiquíssimos, belíssimos, pertencentes à coleção particular de Calouste Gulbenkian.
Vivienne Westwood era um dos núcleos fortes das 19 coleções abrigadas no MUDE, este baseado na coleção Francisco Capelo: aqui, arrumam-se 23 coordenados e 20 acessórios, incluindo um par dos célebres Super Elevated Ghillie, sapatos plataforma com 30 centímetros de altura, que em 1993 derrubaram o perfeito gingar de Naomi Campbell na passerelle.

Esta exposição enquadra-se bem naquilo que Bárbara Coutinho, diretora do MUDE, diz ter sido uma das ideias-chave da programação no pós-reabertura do museu: “A discussão da identidade como conceito aberto em constante construção e redefinição. Vivienne Westwood é alguém que tomou a moda como uma ferramenta, um discurso ativista, político, ambiental, social, e que foi subvertendo uma série de cânones e estereótipos sociais e inclusive morais. As questões de género, a identidade sexual, o Brexit, o armamento, a falta de poder político sobre domínios financeiros, as catástrofes ambientais, a ausência de reconhecimento de direitos humanos… Ela atuou sobre tudo isto, subvertendo o sistema, mas fazendo parte deste.”
Vivienne resistiu ao sistema vigente, mas, ao mesmo tempo, mercantilizou a moda de rua: ela traz esses códigos mais revolucionários do punk e absorve-os completamente no sistema mercantilista
anabela becho
Também Anabela Becho aponta esta revolução feita por dentro: “Vivienne resistiu ao sistema vigente, mas, ao mesmo tempo, mercantilizou a moda de rua: ela traz esses códigos mais revolucionários do punk e absorve-os completamente no sistema mercantilista. E, por isso, até no final da sua carreira, há uns posicionamentos da criadora panfletários e até discutíveis: o ‘buy less, choose well, make it last’. Tudo bem, mas há um sistema da moda que se autoalimenta, e ela quer muito estar nesse sistema.”
“Estamos a enfrentar a ameaça de uma extinção em massa. E isso é-nos escondido porque os nossos governantes continuam a perseguir os seus interesses, foram treinados para pensar que as pessoas não compreendem o que é benéfico para elas”, declarou ainda a criadora nos seus últimos anos. E anunciou um downsize do seu império de moda em nome da sustentabilidade: qualidade em vez de quantidade.
Questionada sobre o que aconteceria aos que não podiam comprar roupa de designers, a três vezes distinguida Designer Britânica do Ano respondeu assim: “É algo difícil para as pessoas. Mas acho que não é bom elas irem simplesmente a um supermercado e regressarem com sacos e sacos de t-shirts baratas. Todo este consumo não é uma escolha real.” Andreas Kronthaler, o terceiro marido cuja juventude fez alguns levantarem as sobrancelhas, e que ela defendia como sendo “um talento” na moda e no jardim da casa comum, gere agora o seu império, mas a polémica instalou-se quando a neta de Vivienne, Cora Corré, o acusou em 2024 de intimidação e desrespeito pela estilista.
A história de Vivienne era a de todos os inadaptados: nasceu numa aldeia do bucólico Cheshire durante a II Guerra Mundial, filha de uma bordadeira e de um operário. Adolescente, já dessacralizava o uniforme da escola, subvertendo as saias de pregas. Abandonou um curso de joalharia na Universidade de Westminster. “Eu não sabia como é que uma rapariga da classe trabalhadora poderia alguma vez fazer uma carreira no mundo da arte.” Tentou o conformismo: trabalhou numa fábrica, foi professora de escola primária, consolou-se a vender bijutaria na feira de Portobello Road, fez o seu vestido de noiva quando se casou com o piloto de aviação Derek Westwood, e deu à luz um filho, Ben Westwood (fotógrafo erótico e criador de moda alternativa).
O punk revirou-lhe os planos e, muitos desfiles depois, quando Vivienne foi sagrada “Dame” por Isabel II de Inglaterra, rodopiou para as fotografias: não tinha roupa interior. “Acho que a rainha achou graça”, disse a subversiva.
Vivienne Westwood – O Salto da Tigresa > MUDE > R. Augusta, 24, Lisboa > T. 218 171 892 > até 12 out, ter-qui 10h-19h, sex-sáb 10h-21h, dom 10h-19h > €11 a €15, grátis para residentes no concelho de Lisboa sex a partir das 17h e dom 10h-14h

