Nos últimos tempos, a Academia de Cinema de Hollywood tem mantido o hábito de incluir um outsider nas nomeações para o Oscar de Melhor Filme. Mas a escolha deste ano é particularmente surpreendente: Drive My Car é um filme de três horas, falado em japonês, que adapta um conto do escritor Haruki Murakami. Não tem os ingredientes de filme de culto proporcionado por Os Parasitas, nem qualquer tipo de aproximação ao universo anime ou às artes marciais. Drive My Car é um filme profundo, introspetivo, reflexivo e filosófico, que nos confronta intimamente com a própria condição humana. Apesar do contexto nipónico, é verdadeiramente universal na sua essência – como acontece, aliás, com os grandes mestres do cinema japonês. Claro que, aqui, a arquitetura é outra. Não estamos na Tóquio de Ozu ou Mizoguchi. As personagens já não se sentam no chão e a câmara não se obriga a enquadramentos condizentes com esse hábito. Contudo, não deixa de haver uma determinada lógica formal, que não deve somente ao grande cinema ocidental.
A narrativa, essa, é pujante em toda a sua amplitude. Sendo um filme sobre o luto e a culpa, inaugura-se num longo prelúdio – basta pensar que o genérico do filme surge apenas ao minuto 30. Até lá, há uma contextualização. Tal como as obras de Murakami, o filme não deixa pontas soltas nem imagens por explicar.
O carro torna-se, ele próprio, uma personagem. Não como o Kitt de O Justiceiro, mas como um companheiro, um local de refúgio, um fiel amigo. É um carro-casulo, onde Yūsuke Kafuku se isola do mundo e se fecha na sua tristeza. Na segunda parte, percebe que esse casulo pode ser partilhado, iniciando-se assim um inesperado processo de transformação. A própria adaptação de O Tio Vânia, de Tchékhov, que Kafuku está a encenar, com atores que falam línguas diferentes, é um experimental apelo ao universalismo. Sabemos que o Japão contemporâneo é assim mesmo: um país com uma forte identidade cultural, mas sempre com uma grande abertura à cultura de outros povos.
O filme enquadra tanta informação que permitiria ser pretexto para um ensaio. E esta longa obra de Hamaguchi que Hollywood descobriu não se afasta do que tem sido o seu percurso, com longuíssimas metragens, como Happy Family ou Asako I & II, desenhadas como ecos da própria vida.
Drive My Car é a adaptação de um conto de Haruki Murakami publicado, em Portugal, na coletânea Homens Sem Mulheres. O filme estreou-se no Festival de Cannes, onde recebeu, entre outros, o prémio para Melhor Argumento.
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Drive My Car > De Ryusuke Hamaguchi, com Hidetoshi Nishijima, Tôko Miura, Misaki Watari > 179 min