1. Atlas
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges cegou completamente aos 58 anos. Uma cegueira anunciada, que ele sabia que ia chegar por via de uma doença hereditária. Pode parecer estranho, até absurdo, que o último livro publicado em vida (em 1984) pelo escritor argentino seja um relato de viagens, a que chamou Atlas. Com ajuda da mulher María Kodama (autora das fotografias que acompanham estas páginas), Borges ia registando essas experiências partilhadas “com alegria e espanto”, como escreveu no prólogo, de “sons, de idiomas, de crepúsculos, de cidades, de jardins e de pessoas, sempre diferentes e únicas”. Não é de estranhar que a palavra “sombra” surja muitas vezes nestes brevíssimos relatos com o inconfundível estilo de Borges – escritos, ou ditados, numa fase da vida em que se acentuava o seu enciclopédico e criativo conhecimento de História e literatura, que percorre todo o volume. Também os “fantasmas”, essa entidade que mesmo um cego pode ver, andam por aqui. Como neste excerto de um texto dedicado à sua passagem por Istambul: “Ouvi um idioma agradável que me soa a um alemão mais suave. Por aqui andarão os fantasmas de muitas e diversas nações.” A tradução deste incomparável Atlas é do poeta Fernando Pinto do Amaral. Quetzal, 120 págs. €14,40
2. Novela de Xadrez
Stefan Zweig

Não é preciso ser conhecedor e apreciador das artes do xadrez para ler com prazer esta breve novela (mas dá mais sabor à experiência). Stefan Zweig coloca-nos dentro de um navio que parte de Nova Iorque em direção a Buenos Aires. A bordo, segue o campeão mundial de xadrez Mirko Czentovic, que, relutantemente, aceita participar numa partida simultânea com vários xadrezistas amadores que também viajam no grande vapor. As vitórias são rápidas e inevitáveis. Até que um discreto desconhecido, Dr. B, se interessa pelo desafio e consegue, com aparente facilidade, vencer o campeão. Quem é ele? Como é possível? Zweig dá-nos a resposta a esse mistério nesta novela escrita em 1941, no Rio de Janeiro, meses antes de aí se ter suicidado. Assírio & Alvim, 104 págs., €13,30
3. Micromegas
Voltaire

Voltaire (1694-1778) leva-nos, desde a primeira linha destes sete breves capítulos, para um universo fantasioso: o gigante sr. Micromegas (com “oito léguas de altura”), vindo de um planeta que orbita Sirius, chega ao sistema solar e aterra em Saturno, onde conhece o secretário da academia local. Juntos, acabarão por fazer uma expedição à Terra, aonde “chegam a 5 de julho de 1737, novo calendário”, junto ao mar Báltico. Apesar de nos colocar numa espécie de fantástica e louca fábula planetária, Voltaire não deixa de falar do seu tempo (aproveitando até para uns ajustes de contas) e da filosofia dos homens. Como no seu célebre Cândido, ou o Otimismo, há humor, ironia e pensamento nos breves diálogos. “Um livro sobre tudo”, escreve Rui Tavares no posfácio. Tinta-da-China, 75 págs. €13

4. O Estranho Caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde e outros contos
Robert Louis Stevenson
Todos somos dr. Jekyll e sr. Hyde. Cada um à sua maneira, claro. E em doses variáveis de normalidade e excentricidade. Esse sempre foi o fascínio desta novela, que, entre outros escritos, celebrizou o escritor inglês Robert Louis Stevenson. Publicada em 1886, ressurge agora em nova tradução portuguesa, na coleção Penguin Clássicos, associada a outros dois contos: O Ladrão de Cadáveres e Markheim. A história do médico que inventa uma fórmula para isolar o mal e assim acaba por duplicar a sua personalidade – uma diurna, outra noturna – é aqui apresentada, em prefácio, por Alberto Manguel, confesso admirador de Stevenson e dos seus mistérios. L.R.D. Penguin Clássicos, 168 págs., €12,15