Entrou, agora, na fase final o ensaio clínico PrEPVacc, com início em 2018 e até 2024, que está a testar, em conjunto, duas vacinas contra o VIH com duas formas de profilaxia pré-exposição (PrEP). O objetivo é, por um lado, testar a eficácia da vacina e, por outro, garantir proteção que permita evitar a propagação do VIH.
Segundo os coordenadores do ensaio, avaliar a combinação de uma vacina experimental contra o VIH e a PrEP é uma novidade.
A PrEP, que existe atualmente sob a forma de comprimidos, deve ser utilizada por pessoas seronegativas para o VIH, ou seja, não infetadas, de forma a impedir que se infetem. Segundo o Serviço Nacional de Saúde (SNS), este método está, atualmente, disponível em alguns países enquanto instrumento de prevenção da infeção e demonstrou um “impacto muito importante” na redução da incidência de VIH.
De acordo com o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), a PrEP é capaz de reduzir o risco de contrair o VIH através de relações sexuais em cerca de 99 por cento.
O PrEPVacc utiliza duas formas de comprimidos PrEP, Truvada ou Descovy, esta mais recente, testando agora se a Descovy apresenta a mesma ou melhor eficácia entre os participantes do estudo.
As inscrições para a participação no ensaio clínico abriram em dezembro de 2020 e decorreram até março deste ano, somando 1513 voluntários no total, com idades entre os 18 e os 40 anos e residentes na África do Sul, Uganda ou Tanzânia, três países onde as taxas de VIH/SIDA em adultos são elevadas.
Além disso, existe nos três “experiência em estudos de prevenção do VIH, não apenas ensaios de vacinas”, além de haver “muito boas ligações com as comunidades” e “as infra-estruturas necessárias”, explica, citado pela CNN, Eugene Ruzagira, diretor do ensaio PrEPVacc.
“Este estudo precisava genuinamente de ser um estudo africano liderado por africanos e coordenado em África, onde os dados são analisados em África e o trabalho laboratorial é feito em África”, disse, por seu lado, Jonathan Weber, coordenador da PrEPVacc e diretor do Imperial College Academic Health Science Centre, em Londres, Reino Unido.
Para que um dos objetivos do ensaio, que acontece precisamente a partir de Entebbe, no Uganda, e tem apoio internacional, seja cumprido, é necessário que as vacinas atinjam uma eficácia de pelo menos 70 por cento.
Este estudo pode ser mesmo um ponto de viragem no desenvolvimento de uma vacina eficaz contra o HIV, já que, mais de três décadas após o início dos ensaios e investigações relativos ao vírus, ainda não foi estabelecida uma vacina funcional totalmente segura e eficaz, tendo sido interrompidas várias investigações ao longo do tempo, por não serem consideradas satisfatórias: o ensaio HVTN 702, conhecido por Uhambo, foi interrompido em fevereiro de 2020, o HVTN 705, ou Imbokod, em 2021, e o HVTN 706, Mosaico, este ano.
O ensaio
Ao longo de 48 semanas, os participantes do estudo PrEPVacc, financiado pela Parceria entre a Europa e os Países em Desenvolvimento para a Realização de Ensaios Clínicos (EDCTP), patrocinada pela União Europeia, recebem quatro injeções da vacina A ou da B ou um placebo salino, juntamente com um ciclo de PrEP tomado todos os dias até à semana 26, quinze dias após a terceira injeção, quando, supostamente, a resposta imunitária atingirá o seu pico, de acordo com os investigadores.
Em todos os locais do ensaio, os participantes, que serão monitorizados até outubro do próximo ano, são testados e recebem aconselhamento a cada quatro a oito semanas.
Vacinas e PrEP
Uma das vacinas testadas neste ensaio combina pedaços de ADN sintético do VIH com uma base proteica; já a outra combina ADN, MVA, – um vírus da varíola enfraquecido -, e uma base proteica, como a utilizada no RV144, um ensaio clínico tailandês lançado em outubro de 2003, sendo que Weber afirma que o novo ensaio se trata “de uma evolução do RV144, não de uma revolução”.
Relativamente à PrEP, o cientista explica que existem, em África, “problemas enormes de acesso e aceitação da PrEP como uma intervenção razoável” de prevenção do HIV, também devido ao estigma social, uma vez que no Uganda, por exemplo, a PrEP é distribuída por clínicas de VIH, o que pode levar as pessoas a sentirem-se desconfortáveis em recorrer a esses espaços.
Depois das 26 semanas de utilização da PrEp no ensaio, os participantes do ensaio têm a opção de aceder à PrEP em instalações de saúde pública, mas os coordenadores do ensaio afirmam que não estão todos a fazer a transição para a utilização do tratamento a longo prazo, também por falta de stock em alguns locais de saúde, não só no Uganda.
O SNS alerta de que Importa a PrEP apenas protege as pessoas de contraírem a infeção por VIH e não confere proteção em relação a outras infeções de transmissão sexual, pelo que o uso consistente do preservativo feminino ou masculino continua a ser uma medida robusta de prevenção e, como tal, não pode ser descurada. “Esta, como todas as outras medidas de prevenção, deve ser sempre encarada como fazendo parte de uma estratégia combinada de prevenção da infeção por VIH e nunca como uma medida isolada”, lê-se no site oficial do SNS.
A divulgação dos resultados do estudo está prevista para os últimos meses de 2024, sendo que a equipa não terá conhecimento dos dados, processados por um Comité Independente de Monitorização de Dados.
Caso as vacinas se revelem eficazes, mais ensaios serão serão precisos. Contudo, se não demonstrarem resultados satisfatórios, toda uma geração de vacinas pode perder-se. “A minha previsão é que não haverá outro estudo de eficácia de uma vacina contra o VIH até à década de 2030”, afirma Weber.