Neste estudo, que implicou o uso de um manequim térmico com uma peruca de cabelo humano num túnel de vento climatizado, os investigadores descobriram que o manequim não absorvia tanto calor como quando estava careca.
De seguida, ao testarem vários tipos de perucas no manequim, incluindo perucas com cabelo liso, com caracóis soltos e com caracóis apertados, concluíram que todas as perucas funcionaram de forma semelhante quando estavam sob as luzes quentes das lâmpadas, mas o cabelo com caracóis apertados foi o melhor para manter o manequim fresco da radiação “solar” acima.
Tina Lasisi, atualmente investigadora de antropologia biológica na Universidade de Pensilvânia, explica que o cérebro é um órgão grande e muito sensível ao calor, que simultaneamente também gera muito calor e por isso, pensaram que “evolutivamente poderia ser importante – especialmente num período de tempo em que vemos o tamanho do cérebro da nossa espécie a aumentar”.
“O aparecimento (ou retenção) de cabelos no couro cabeludo pode ter atingido um equilíbrio ótimo entre a maximização da perda de calor na grande área de superfície do corpo e a minimização do ganho de calor solar na pequena área de superfície do couro cabeludo, diretamente sobre o cérebro”, escrevem os investigadores.
À medida que a ondulação das perucas usadas no estudo aumentavam, os investigadores descobriram que seria necessária uma menor evaporação do suor para dissipar o calor do couro cabeludo, conservando assim água e energia.
“O cabelo do couro cabeludo é um possível mecanismo passivo que nos poupa ao custo fisiológico da transpiração”, explica Lasisi. “A transpiração não é gratuita – perde-se água e electrólitos. E para os nossos antepassados hominídeos isso pode ter sido importante.”
Descobriram que todos os tipos de cabelo ofereciam alguma proteção solar, mas que o cabelo com mais caracóis oferecia a melhor proteção e minimizava a necessidade de suar – uma descoberta significativa, diz Lasisi.
Para tais descobertas serem possíveis, o manequim, aquecido à temperatura corporal média de 35 graus Celsius, foi colocado numa câmara climatizada dentro de um túnel de vento que permitiu aos cientistas estudar a quantidade de calor transferida entre a pele e o ambiente circundante.
Para este manequim foram feitas três perucas de cabelo humano preto – uma lisa, uma moderadamente encaracolada e uma muito encaracolada – para observar como as diferentes texturas de cabelo afectavam o ganho e a perda de calor no couro cabeludo e para calcular a perda de calor a diferentes velocidades do vento, apoós molharem as perucas para simular a transpiração.
O modelo de perda de calor criado pelos investigadores foi estudado nas condições típicas da Àfrica equatorial, onde se pensa que se deu a evolução dos primeiros hominídeos.
De que modo é que o cabelo encaracolado advém da evolução humana?
Lasisi salienta que, se as mutações genéticas para o cabelo encaracolado ocorreram antes de o Homo sapiens ter saído de África, mas antes depois de os nossos antepassados hominídeos o terem feito, este simples facto poderá ter dado aos primeiros humanos modernos uma vantagem evolutiva.
Contudo, Lasisi não acredita que este pormenor seja provável e, em vez disso, o estudo sugere que os genes para o cabelo encaracolado surgiram muito antes na evolução humana – há cerca de dois milhões de anos, quando o Homo erectus era o hominídeo dominante.
O estudo indica que como os cérebros dos hominídeos cresceram, os genes para o cabelo encaracolado que protegiam o couro cabeludo do sol podem ter proporcionado a tal vantagem.
No que diz respeito ao cabelo liso, a investigadora não exclui a possibilidade de a predisposição para o cabelo encaracolado não ser homogéna e acrescenta que numa fase posterior da nossa evolução, o cabelo encaracolado pode ter perdido a sua vantagem evolutiva para o cabelo liso.
“Se calhar, depois de termos esses cérebros maiores, também tivemos todas essas adaptações culturais para evitar o sobreaquecimento, como melhores fontes de água”, diz. “E, nessa altura, talvez não houvesse tanta pressão selectiva para o cabelo encaracolado”.
Quanto às próximas fases da investigação, Lasisi e os seus colegas esperam encontrar provas genéticas para apoiar a sua teoria.
“Primeiro, temos de saber mais sobre os humanos modernos, por exemplo, que genes estão associados à morfologia do cabelo”,explica. “E o segundo passo será colaborar com pessoas que trabalham com ADN antigo, para ver se esses genes se verificam nos humanos arcaicos.”