A conclusão pode parecer contraditória, mas tem uma explicação. Médicos da Universidade de Seoul descobriram que a atividade física pode acelerar a acumulação de depósitos de cálcio (placa) nas artérias coronárias, cuja quantidade é usada como indicador do risco futuro de ataques cardiovasculares.
A medida de cálcio nas artérias coronárias (designada por CAC score) é usada para avaliar o futuro risco de ataques cardíacos e acidentes cardiovasculares, e assim ajudar a decidir qual é o melhor tratamento para pessoas que se encontrem em situação de risco. Geralmente, tratamentos com estatinas (medicamentos indicados no tratamento da hipercolesterolemia (aumento da concentração de colesterol no sangue) e na prevenção das doenças cardiovasculares associadas a aterosclerose) são recomendados em pacientes com uma CAC score de 100 ou mais.
Apesar dos benefícios reconhecidos da atividade física (redução do risco de obesidade, diabetes, entre outros), as pessoas que são extremamente ativas fisicamente tendem a ter níveis mais altos de depósitos de cálcio nas artérias coronárias, o que pode ser um fator de risco para ataques cardíacos.
Os resultados do estudo
Na análise final do estudo em questão foram incluídos 25.485 adultos saudáveis (22.741 homens e 2644 mulheres), com pelo menos 30 anos. Os participantes submeteram-se a check-ups regulares em dois grandes centros hospitalares em Seul e Suwon, na Coreia do Sul, e tiveram de preencher questionários que incluíam questões sobre o histórico médico e familiar e estilo de vida. Foram também analisados o peso, índice de massa corporal (IMC), pressão arterial e nível de gordura no sangue.
Os participantes foram categorizados numa de três categorias, consoante fossem inativos, moderadamente ativos ou intensamente ativos fisicamente (o equivalente a correr 6.5km por dia). De seguida, foram feitos testes para medir o desenvolvimento (ou progressão) da calcificação das artérias coronárias, que foi classificada através da CAC score durante um período de três anos.
Dessa amostra, 47% (11.920) foram classificados como inativos, 38% (9683) como moderadamente ativos e finalmente 15% (3882) como intensamente ativos. Este último grupo registou efetivamente maiores depósitos de cálcio nas suas artérias coronárias, além de terem valores mais baixos de colesterol e pressão arterial mais alta.
As CAC scores estimadas nos três grupos no início do período de análise foram de 9.45, 10.02 e 12.04 em média, respetivamente – indicando que, logo à partida, o grupo de indivíduos mais ativos registava níveis mais altos de depósitos de cálcio nas artérias coronárias. Os cientistas verificaram ainda que o nível de atividade física estava associado à prevalência e também à progressão da calcificação das artérias coronárias.
De facto, no grupo de participantes mais ativos, registou-se uma progressão mais rápida da CAC score, tanto naqueles que já tinham depósitos de cálcio registados no início do período de análise, como nos que não tinham. O aumento estimado médio da CAC score ao longo de 5 anos nos participantes moderadamente e intensamente ativos foi de 3.20 e 8.16, respetivamente, mesmo depois de considerados outros potenciais fatores, como o índice de massa corporal (IMC), pressão arterial e gorduras no sangue (valor mais alto do que o registado no grupo dos indivíduos inativos).
Os cientistas avançam com a hipótese de a atividade física poder aumentar a CAC score sem aumentar, no entanto, o risco de doença cardiovascular, reiterando também que as descobertas do estudo não anulam os “benefícios inquestionáveis” da atividade física para a saúde. “No entanto, pacientes e médicos devem considerar que a prática de atividade física pode acelerar a progressão do cálcio coronário, possivelmente devido à estabilização e calcificação da placa”, afirmam.
Para os cientistas, este estudo realça a complexidade da interpretação das CAC scores em pacientes que aumentaram o seu nível de atividade física. “Tendo em conta o inegável efeito benéfico que a atividade física tem na proteção contra doenças cardiovasculares, a relação entre a atividade física e a progressão do cálcio nas artérias coronárias deve ser interpretada cuidadosamente, uma vez que a relação complexa entre a atividade física, progressão da CAC score e o subsequente risco de doenças cardiovasculares continua em grande parte desconhecida”, concluem.