Talvez um dia já não seja preciso morrer para aspirar à vida eterna. É esse o trabalho de Salvador Macip: dar mais um passo na direção da imortalidade. O cientista catalão, doutorado em Genética Molecular, é investigador em cancro e envelhecimento. Fundamentalmente, o seu trabalho é estudar formas de travar o nosso relógio interno – adiar a morte. Mas será que algum dia conseguiremos cumprir o mais velho sonho da Humanidade?

No início do século XIX, a esperança média de vida era de 40 anos. Hoje, é mais de 70, e em vários países ultrapassa os 80. Boa parte desta evolução deve-se à Ciência. Essa mesma Ciência pode vir a dar-nos a imortalidade? Ou o corpo humano tem um limite?
O grande salto foi quando passámos a controlar infeções que matavam muita gente, sobretudo na infância. Quando inventámos as vacinas, houve um enorme crescimento na esperança média de vida. Depois disso, a evolução tem sido feita aos poucos. Continuamos a progredir, mas há um limite a partir do qual não conseguimos fazer muito mais – exceto se começarmos a lidar com terapias antienvelhecimento. Agora o desafio é travar ou reverter o processo de envelhecimento. Mas estamos a trabalhar nisso e há várias opções a serem investigadas. Já percebemos por que razão envelhecemos e podemos tentar criar medicamentos para parar esse processo. Em teoria, a imortalidade é possível. Agora, se algum dia conseguiremos alcançar a imortalidade… Não tenho a certeza. Penso que o caminho não será tanto esticar a vida até valores loucos, mas dar o máximo de tempo de boa saúde às pessoas. Em vez de ser o quanto tempo vivemos, é o quanto tempo vivemos saudáveis. E é isto que a investigação em envelhecimento está a fazer agora: a tentar aumentar os anos que passamos com saúde.
O foco é a qualidade de vida, não o prolongamento da vida.
Exato. Podemos continuar a viver até aos 80 ou 90, mas vamos ser muito mais saudáveis até muito mais tarde.
Parece-lhe que o corpo tem um limite físico, a partir do qual não será possível estender a vida?
Há duas teorias. Uma diz que sim, que há um limite físico à volta dos 130 anos que nunca conseguiremos ultrapassar. E há uma teoria que diz que não: a partir do momento em que compreendemos o envelhecimento, podemos desligá-lo e viver para sempre. Na verdade, há organismos imortais. Algumas alforrecas e as hidras, se não lhes fizermos nada, vivem para sempre. Portanto, a imortalidade não é impossível do ponto de vista da biologia. Mas obviamente nós somos organismos muito mais complexos do que as hidras ou as alforrecas.
Qual é o caminho mais promissor? Engenharia genética? Nanotecnologia? Uma mistura das duas?
No meu laboratório, por exemplo, trabalhamos com nanotecnologia – criamos nanopartículas que matam células selecionadas. Ainda é um trabalho muito inicial. Não sabemos o que acontecerá quando o aplicarmos a humanos. E há vários químicos que matam células velhas. No final, será uma combinação de diferentes coisas. É pouco provável que tenhamos apenas uma estratégia para parar completamente o envelhecimento. O processo biológico é muito complexo. Há vários fatores distintos que desempenham um papel: mudanças de ADN, proteínas, alterações epigenéticas, metabolismo. Tudo isto contribui para o envelhecimento. Teremos provavelmente de parar todos. Travar apenas um não será suficiente. No futuro, veremos alguns medicamentos com uma ação nalgum destes fatores, o que irá desacelerar um pouco o envelhecimento. E será já uma grande melhoria se conseguirmos assegurar que a pessoa é saudável durante mais dez ou 15 anos, alterando apenas um desses agentes do envelhecimento. Agora, se o conseguirmos fazer em dois ou três níveis diferentes, quem sabe? Podemos levar as coisas muito além.
Já erradicámos ou controlámos várias doenças que há não muito tempo matavam centenas de milhares de pessoas por ano. Quais serão as próximas? Alzheimer? Cancro?
Ao conseguirmos aumentar a esperança de vida, criámos um problema: quanto mais vivemos, mais sofremos destas doenças que, antes, quase não tínhamos. Quando vivíamos até aos 40 anos, cancro era coisa que não se via. Não estava presente nas nossas vidas. Ao olharmos para os animais selvagens, que vivem na Natureza, o cancro é extraordinariamente raro, porque eles morrem antes de terem cancro. Portanto, fomos capazes de estender a vida para lá de um certo limite, mas ao fazê-lo abrimos os portões a doenças que não teríamos em condições naturais e de que estamos protegidos quando somos novos. Agora, temos de perceber a razão pela qual, com o passar do tempo, perdemos a proteção contra o Alzheimer ou outras doenças degenerativas. Provavelmente, a doença em que estamos a fazer progressos mais promissores é o cancro. É a que conhecemos melhor, aquela em que já tem havido muitos desenvolvimentos. Hoje, a taxa de sobrevivência para o cancro está acima dos 50%, em geral, e em alguns cancros ronda os 90%, como nos casos dos da próstata e da mama. No dos testículos, é praticamente 100 por cento. Por outro lado, o cancro do pulmão e o do pâncreas continuam com números muito baixos. Ou seja, em média, já atingimos uma boa percentagem. Na prática, alguns cancros estão já curados. Nesse sentido, veremos mais e mais cancros a chegarem a este ponto, em que 90% a 99% das pessoas sobrevivem. Essa será a próxima grande descoberta.
Parece-lhe que a mensagem desses progressos está a passar? As pessoas ainda encaram o cancro como uma sentença de morte.
É verdade. Temos estado a tentar passar a ideia de que, hoje, o cancro não significa morte. Sim, o cancro é mais frequente, porque vivemos até mais tarde e também porque vivemos em ambientes com ar contaminado, ou porque as nossas vidas são mais sedentárias, com menos exercício, mais comida “de plástico”… Tudo isto contribuiu para o cancro. Mas o facto de haver mais cancro não quer dizer que estejamos a morrer mais de cancro. Cada vez mais doentes são curados, mas essa mensagem não está a chegar ao público. E é compreensível. O cancro é uma doença assustadora, continua a ser um risco e temos efetivamente uma probabilidade de morrer desta doença. As pessoas têm razões para ter medo. Mas têm igualmente de perceber que, se descobrirem o cancro cedo e se tomarem medidas de prevenção, como evitar fumar ou outros comportamentos que sabemos que provocam a doença, as hipóteses de sobreviverem ao cancro ou de passarem a vida sem ter cancro são muito, muito mais, altas. E quanto mais cancros se tornarem tratáveis e curáveis, mais as pessoas se aperceberão de que não é uma sentença de morte. Na verdade, se hoje conhecemos mais gente com cancro, também conhecemos mais pessoas que sobreviveram ao cancro do que as que morreram de cancro. E é essa a mensagem que temos de passar – há mais gente a sobreviver do que a morrer de cancro.
A partir do momento em que compreendemos o envelhecimento, podemos desligá-lo e viver para sempre
De qualquer forma, os progressos são lentos. O que torna o cancro uma doença tão complexa?
Do ponto de vista da biologia, é dos puzzles mais extraordinários. O cancro é a seleção natural em potência máxima. As mesmas coisas que dão à seleção natural, à evolução, os mecanismos para criarem algo tão complexo como um ser humano são as mesmas do cancro, mas tudo acontece muito mais rapidamente. É uma célula que passa por várias alterações no seu ADN. O que acontece é que temos muitas hipóteses de passar por mudanças de ADN que não são boas, quando temos uma célula cancerígena que se multiplica muito depressa e não conseguimos controlá-la. Podemos matar 90% dessas células, mas nesse caso 10% vão sobreviver ao tratamento. E, ao fazermos isso, estamos a selecionar as células mais agressivas, pelo que, ao fim de algum tempo, o cancro regressa. Ou seja, as células cancerígenas encontram um modo de sobreviver ao tratamento, de escapar aos obstáculos que pomos à frente delas. Essa é a razão por que é tão difícil dizer “OK, matámos completamente o cancro, todas as células cancerígenas”, porque basta uma delas resistir para poder voltar uns anos depois.
A busca da imortalidade é talvez o mais antigo sonho humano, e a criação das religiões faz parte dessa busca quase desesperada. Vê implicações religiosas na eventual descoberta da imortalidade? De certa forma, a religião, a crença numa vida depois da morte, torna-se uma redundância?
Já atingimos esse ponto. A Medicina está num nível tal que vai contra a religião, contra os seus ensinamentos. Fomos capazes de alargar os limites que a biologia nos deu. Uma pessoa religiosa, que acredite num ser superior, que a nossa biologia nos foi dada por esse ser superior… Bom, nós já estamos a fazer a nossa própria “coisa”. A nossa vida expectável era de 40 anos e nós dissemos: “Não, agora passa a ser de 80.” Estamos então a ir contra o que pode ser descrito como Deus, a perverter o plano inicial. E as ciências avançam cada vez mais. Estamos aqui a falar de imortalidade, mas sermos capazes de voar até às estrelas, ir à Lua, a Marte, tudo vai contra os livros religiosos. Não era suposto estarmos a fazer nada disto. É nesse sentido que adoro a Ciência – porque mostra que não temos limites, que não aceitamos as fronteiras que nos foram impostas. A religião é algo importante do ponto de vista sociológico. Emergiu nas culturas humanas por todo o lado. Sempre precisámos da religião para nos sentirmos melhor. Mas agora temos a Ciência a dizer-nos que esses limites ditados pela religião não existem, que podemos ir para lá deles. Tudo isto é entusiasmante, sobretudo quando nos apercebemos de que ainda só começámos a arranhar a superfície, de que há muito mais que podemos fazer. Será que vamos inventar as viagens interestelares? Vamos poder adormecer e acordar 200 anos mais tarde noutro ponto do Universo? Ainda é ficção científica, mas, com o conhecimento que temos hoje, não podemos dizer que será impossível.
Quanto mais cancros se tornarem tratáveis e curáveis, mais as pessoas se aperceberão de que não é uma sentença de morte. E é essa a mensagem que temos de passar – há mais gente a sobreviver do que a morrer de cancro
Há outras implicações mais terrenas provocadas pelo prolongamento da vida. Nomeadamente questões sociais e de sustentabilidade dos Estados. Devemos, por exemplo, emparelhar a idade da reforma com a esperança média de vida, para atenuar esses problemas?
Mais importante do que debater as consequências religiosas é falarmos dos efeitos sociais. Os cientistas não costumam passar muito tempo a pensar nesses efeitos, e às vezes a sociedade precisa de algum tempo para alcançar o desenvolvimento científico. Tudo isto que estamos a fazer é muito excitante e pode dar-nos coisas muito boas, mas tem um preço. Já vivemos num planeta superlotado. O que vai acontecer quando, em vez de 80, vivermos até aos 120 anos? Há muitos riscos de coisas más acontecerem devido a algo bom como a extensão da vida. Por exemplo, as pessoas ricas poderem vir a comprar medicamentos antienvelhecimento, enquanto as pobres não conseguem. Vamos então ter um fosso ainda maior a separar os países ricos dos pobres? Aqui vivemos até aos 120 e em África as pessoas continuam a morrer de malária aos 40? E mesmo as nossas sociedades serão sustentáveis com uma população com tantos idosos? É importante falarmos da idade da reforma. Sim, tem de ser proporcional: se vamos viver 100 anos, não podemos reformar-nos aos 60, porque isso significa que o Estado terá de nos suportar durante 40 anos, e provavelmente não haverá dinheiro para isso. Por outro lado, se as pessoas se mantiverem ativas e a trabalhar até aos 80 ou 90, vamos criar um bloqueio no mercado de trabalho, em que os mais novos não terão acesso a empregos. Não há soluções fáceis, pelo que devíamos estar a discuti-las antes de isto se tornar um problema real. Tivemos um exemplo do que acontece quando a Ciência anda à frente destes debates: aquele tipo na China que manipulou geneticamente os embriões.
O que lhe passou pela cabeça ao saber disso?
Eu e muitos outros pensámos que era um grande erro. A técnica em si, manipulação genética de humanos, pode ser muito interessante. Mas temos de ter a certeza do que estamos a fazer, de que não há efeitos colaterais, e de que devíamos aplicá-la em algo útil. A experiência em causa não teve nada de importante do ponto de vista da saúde humana. Foi uma coisa feita mais pela fama e pelo dinheiro do que para beneficiar a Humanidade, e isso está errado. Agora, vamos discutir o problema – devíamos ou não manipular humanos – depois de já termos esse problema. Devíamos tê-lo feito há dez anos. Com o antienvelhecimento é a mesma coisa: imaginemos que vamos ter um comprimido daqui a dez anos; e depois, devemos usá-lo? Em que circunstâncias? E toda a gente deve ter acesso ao comprimido? Mas não, vai acontecer a mesma coisa: vamos ter o comprimido antes de a sociedade ter tido tempo para discutir o assunto.
Corremos o risco de criar duas espécies diferentes. De um lado, os pós-humanos, modificados geneticamente, mais fortes, imunes ao cancro e que podem viver até aos 120 anos. Do outro, os humanos normais, pobres, que não têm acesso a esta tecnologia
Falou do aumento do fosso entre ricos e pobres devido a estes saltos científicos. O advento da Medicina personalizada, baseada na investigação genética, é mais um dos fatores que alargam esse fosso?
A Medicina personalizada vai mudar a forma como lidamos com a doença. Estamos a ver a questão do ponto de vista do mundo ocidental e, sim, para nós vai ser fantástico. Mas há muitos países em que conseguir que as crianças sejam vacinadas é ainda uma luta. Vacinas, antibióticos, água potável… Há muitas regiões do mundo que ainda não têm estas coisas. E quanto mais avançarmos com a Ciência antes de ter resolvido estas necessidades básicas, maior será a separação entre os países desenvolvidos e os não desenvolvidos. Corremos o risco de criar duas espécies diferentes. De um lado, teremos os pós-humanos – humanos que foram modificados geneticamente, mais fortes, imunes ao cancro e que podem viver até aos 120 anos. Do outro, os humanos normais, pobres, que não têm acesso a esta tecnologia. Ou seja, a separação atual entre países ricos e pobres pode transformar-se na separação entre duas espécies, como aconteceu com os humanos e os neandertais. Algumas pessoas serão mais avançadas do que as outras. Isso pode criar problemas e tornar-se um pesadelo nos próximos 50 anos, se não tivermos cuidado.
Num momento em que a Ciência tem cada vez menos limites, caberá às sociedades impor limites artificiais à Ciência, por motivos morais e éticos?
A Ciência não pode existir fora da sociedade. Os cientistas trabalham para ela, para a melhorar. Mas temos de ter cuidado para não impor à Ciência limites não racionais. Vimos isso acontecer na Idade Média, quando houve um bloqueio ao progresso da Humanidade. A Ciência tem de ter liberdade para ir onde quiser, mas ao mesmo tempo tem de prestar contas, de dizer à sociedade: “Estamos a fazer isto. É bom? É mau? Vamos discuti-lo?” Para isso acontecer, no entanto, a sociedade tem de conhecer bem a Ciência. Se formos à rua perguntar às pessoas “É a favor ou contra a manipulação genética de embriões”, a maioria não sabe o que isto significa. Podem achar que é um pesadelo saído da ficção científica. Agora, se lhes dissermos que é possível acrescentar um gene que tornará a pessoa imune ao cancro… A informação é essencial. Temos de ter discussões informadas. Por exemplo, o envelhecimento: não estamos a falar, pelo menos para já, de viver até aos 200 anos, mas de viver o mesmo número de anos com melhor qualidade de vida. É bom? Sim? E quando for para viver até aos 300 anos?