A União Europeia tem uma das mais altas taxas de resíduos elétricos e eletrónicos do mundo, e menos de metade é encaminhada para reciclagem. Estima-se que, todos os anos, os europeus se desfaçam de 11 mil toneladas de cabos e carregadores – o mesmo peso de 40 Airbus A380.
Pelo menos parte do problema dos cabos está em vias de ser resolvido. Ao fim de quase uma década de debate público e político, a Comissão Europeia apresentou hoje a proposta de revisão da Diretiva Equipamento de Rádio, que determina que todos os telemóveis, tablets, câmaras, auscultadores, colunas de som e consolas portáteis passem a usar a mesma entrada para carregamento: USB-C.

A Comissão já tinha conseguido, através de acordos voluntários com os fabricantes, reduzir os tipos de carregador de 30 para três: USB micro-B, USB-C e Lightning. Em 2019, segundo um estudo da própria CE, 50% dos equipamentos usava USB micro-B, 29% tinha uma entrada USB-C e 21% usava Lightning, o carregador da Apple. Entretanto, nos últimos dois anos, o USB-C foi ganhando terreno.
A Apple já se insurgiu contra a aprovação desta medida. “Uma regulamentação rígida que exige apenas um tipo de conector reprime a inovação, em vez de a encorajar, o que, por sua vez, prejudicará os consumidores na Europa e em todo o mundo”, disse à BBC um porta-voz da empresa americana. Apesar da contestação, os últimos iPads e MacBooks já vêm equipados com entradas para USB-C. Agora, quer queira, quer não, a Apple terá de estender a mudança aos iPhones, para poder continuar a comercializá-los na União Europeia.
“Chega de frustrações”
A Comissão Europeia considera que a proposta é uma conquista para os consumidores e para o Ambiente. E, pelas palavras da vice-presidente executiva de “Uma Europa Preparada para a Era Digital”, é também uma espécie de bomba atómica, por não se ter chegado a acordo com todos os fabricantes. “Já chega de frustrações para os consumidores europeus devido aos carregadores incompatíveis que se acumulam nas suas gavetas. Demos muito tempo ao setor para encontrar as suas próprias soluções, chegou o momento de tomar medidas legislativas para um carregador comum. É uma importante vitória para os nossos consumidores e o nosso ambiente, e está em consonância com as nossas ambições ecológicas e digitais”, disse Margrethe Vestager.
Além da padronização dos carregadores, foi proposto que os carregadores e os cabos sejam vendidos à parte dos dispositivos eletrónicos. Os produtores terão ainda de informar se o carregador em causa permite uma carga rápida, o que não acontece hoje.
A Comissão estima que a redução da produção e da eliminação de carregadores, decorrente da medida, reduza a quantidade de resíduos eletrónicos em quase mil toneladas por ano (o equivalente a praticamente quatro aviões A380). A poupança para os consumidores europeus foi calculada em €250 milhões por ano.
Em 2020, venderam-se 420 milhões de telemóveis e outros equipamentos eletrónicos portáteis. Segundo a Comissão Europeia, cada pessoa tem, em média, três carregadores de telemóvel, e um deles não é utilizado regularmente.
A proposta segue agora para processo legislativo no Parlamento Europeu, onde não se espera que haja entraves. Mas deverão surgir emendas à proposta, que volta à Comissão e depois será novamente apreciada pelo Parlamento, pelo que só em 2022 deverá entrar em letra de lei. Os Estados-Membros têm, então, um máximo de dois anos para transpor as medidas para a legislação nacional e, finalmente, os fabricantes têm outros dois anos para completarem a transição.