Dezoito anos depois da ascensão ao K2, a segunda montanha mais alta do mundo (8 611 metros), só superada pelo Evereste (8 848 m), o mais conhecido alpinista português decidiu transformar a aventura em livro. Aos 58 anos, João Garcia socorreu-se da ajuda na escrita do jornalista Aurélio Faria, que cobriu para a SIC várias das suas escaladas aos 14 picos acima dos 8 000 metros de altitude. Mas foram, sobretudo, as muitas horas de filmagens que lhe reavivaram as memórias, esbatidas por quase duas décadas em que as montanhas falaram mais alto do que as letras. Editado pela Lua de Papel, do grupo Leya, K2 – A Rainha das Montanhas é agora um belo pretexto para, através das palavras, reencontrarmos João Garcia em estado puro, a partilhar medos e superações, erros e justificações, desabafos e inspirações – além de um projeto mais ao nível do mar, na inóspita Antártida, que caiu por terra em tempos de Troika.
Logo no início do livro, conta que, desde as primeiras viagens aos Himalaias, sempre ouviu dizer que o Evereste trazia fama, mas que só um verdadeiro alpinista escalava o K2. Concorda?
Sim, porque o Evereste, já na altura, era uma montanha muito comercializada. Já havia muitas expedições comerciais e de turistas que pagam muito dinheiro para que seja organizada uma maneira de subir, facilitada ou não. Neste momento, o K2 também já é um desses produtos de turismo de luxo e de facilitismo para ir lá acima, mas, no ano em que eu subi, aparentemente não estava ali uma única expedição comercial, portanto, eram só alpinistas, pessoas experientes. Em 2005, no Evereste, vi lá pretendentes a subir a montanha mais alta do mundo que nunca tinham colocado crampons. Andam a brincar com coisas sérias.
Quais as principais diferenças entre escalar o K2 e o Evereste?
Escalei o Evereste pelo lado norte, e geralmente todas as faces norte, por causa da maior pressão dos glaciares ao longo de milhões de anos, acabam por ser mais sombrias, mais inclinadas, mais técnicas, mais difíceis e mais perigosas. São também mais baratas. No caso do Evereste, a parte final tem três ressaltos, enquanto o K2 é uma montanha bem mais empinada. Qualquer que seja a vertente, tem aquela forma de pirâmide, portanto, como tem mais inclinações, existe um risco maior de queda de pedras e de avalanches. Apesar de ser a segunda mais alta, só tem menos 200 metros do que o Evereste, o que não é significativo. Por outro lado, a maior verticalidade não é necessariamente sinónimo de maior perigo. Quando é preciso perder altitude rapidamente, pode ser vantajosa. No Evereste, descer demora mais tempo, e a permanência em altitude extrema implica graves consequências. Em termos de previsão meteorológica, o K2 está numa zona do planeta onde ainda hoje não se consegue ter certezas absolutas sobre o que vamos apanhar, porque tudo pode mudar muito rapidamente. Nem estando lá na montanha conseguimos perceber se vem uma frente ou ventos violentos. Quando damos pelo mau tempo, já estamos no meio dele. No Evereste, há um pouco mais de tranquilidade. Do ponto de vista tecnológico, não se pode comparar, porque, em 1999, quando subi o Evereste, não havia telefones de satélite, estávamos literalmente desconectados do resto do mundo. Mas no K2, em 2007, já tinha comigo essa ferramenta e uma pessoa contratada em Portugal que me transmitia dados meteorológicos.
Os últimos metros na direção dos cumes são mais técnicos e perigosos no K2. Porquê?
Porque tem ali o chamado Bottleneck, um estrangulamento onde há uns anos ocorreu uma tragédia, com uma avalanche a varrer uma corda fixa e a bloquear os alpinistas na descida. Alguns morreram. Em 2007, enquanto subíamos, caiu um sherpa mesmo antes dessa dificuldade acrescida e criou-se ali um momento de grande preocupação e dúvida, sobre se continuávamos ou não. O K2 acaba por ser uma montanha com uma reputação terrível, mas o coeficiente de risco é medido pela triste estatística do número de pessoas que morreram a fazer determinada montanha. E, quanto a isso, nem o Evereste nem o K2 são os campeões. O campeão é o Annapurna.
Precisamente, o último dos 14 cumes que alcançou acima dos 8 000 metros. Por causa dessa má fama?
Literalmente, porque andava a fugir com o rabo à seringa. Confesso que, no plano inicial que apresentei ao patrocinador do projeto, tinha previsto subir o Annapurna em 2008, depois passei-o para 2009 e só o subi em 2010. No caso do Evereste, por cada 100 pessoas que fizeram cume, morreram uns 0,8%. No K2, por cada 100 morreram 20. Já no Annapurna, morreram 40. Se bem que estas estatísticas deveriam ser revistas a partir dos anos 1970. A seguir às Grandes Guerras, as nações continuaram a competir, à procura de ser as primeiras a subir estas montanhas virgens. Os filósofos consideravam-nas talvez a sensação mais próxima do sublime, e os alpinistas tinham um mindset diferente dos dias de hoje. Era normal morrer-se pela pátria e, portanto, iam com uma atitude um bocado kamikaze.
Tem ideia de como ficaria o ranking de fatalidades só a partir da década de 1980?
Continuaria a colocar o Annapurna como número um, seguido do K2 e do Kangchenjunga, ambos mais técnicos e difíceis do que o Evereste, baseando-me nas minhas experiências pessoais.
O que torna o Annapurna tão perigoso?
A via sul é muito empinada e propícia a avalanches, por causa da maior exposição solar. No lado norte, por onde eu subi, existe uma série de glaciares de restos de gelo suspensos que podem cair a qualquer momento. Não tem a ver com ser-se um alpinista forte, rápido ou experiente. Tem a ver com estar no sítio errado à hora errada. No Annapurna, desde o campo-base um até ao cume, quase nunca estamos seguros, por isso, quanto menos tempo se andar ali exposto, menos se arrisca. Tanto que eu inventei e fui do campo-base diretamente para o campo três e meio e, depois, dali para o cume. Como estava sozinho, dormi numa aresta, pensando que se caísse algo por ali abaixo passava por um lado ou por outro. Para ficar à mercê, no acampamento, dentro de uma tenda, sabendo que a qualquer momento podia ser varrido por ali abaixo, preferi ficar naquele canto. Um dia, também há de dar um livro, o Annapurna, que acabou por ser uma operação supercirúrgica. Este tipo de expedições são sempre de 30 ou 40 dias, mas demorei apenas sete entre chegar ao cume e ir-me embora.
Não andou para cima e para baixo a fazer aclimatação?
Já vinha de outra montanha menos perigosa, já estava aclimatado.
Fez parte da estratégia?
Da minha e de mais oito alpinistas, que no fundo andávamos a corresponder-nos no computador, todos com a mesma preocupação, e adotámos a mesma solução para corrermos menos riscos de vida.
Com certeza, também tinha estudado previamente o K2, mas no livro escreve que ficou surpreendido com tantas dificuldades. A maior foi mesmo a zona do Bottleneck?
Na parte técnica, sim, traduz a tal verticalidade. Mas tenho de confessar que não me preparava por aí além, porque eu gostava que o desafio fosse mais puro, mais intenso. De me aproximar um pouco das condições que os pioneiros apanharam. Reconheço que o K2 é mais complexo do que parece. Voam pedras.
Tem algum dos pioneiros como referência?
O Reinhold Messner foi a primeira pessoa, conjuntamente com o Peter Habeler, a subir o Evereste sem recurso a oxigénio artificial e foi o primeiro a completar este projeto, aliás, foi ele quem o inventou, de escalar as 14 montanhas com mais de 8 000 metros. Agora, já consideram mais cinco proeminências acima dessa fasquia. Isto porque se argumentava que tudo o que fossem picos subsidiários de outros não eram considerados.
Mas o Lhotse consta dos 14 originais e está integrado no Evereste…
Exatamente, ia dar esse exemplo. Já no Kangchenjunga, são cinco picos acima de 8 000 metros e só conta o mais alto. Enfim… Mas tenho o Messner como uma referência histórica, devorei um dos seus livros, que fala dessas 14 montanhas. Assim como fui influenciado pelo Andrew Lock, um australiano que também escalou as 14, a primeira das quais o K2. Isto sempre me impressionou e, por outro lado, também me entusiasmou. Escalei com ele e alimentei o raciocínio, talvez errado, de que se ele fez ali a estreia, é porque se calhar o K2 não é tão monstro como toda a gente o pinta.
Porquê a escolha de nunca recorrer a oxigénio artificial nem aos chamados carregadores de altitude, que sobem à frente com o material mais pesado?
Terá a ver com as minhas origens. A primeira montanha que subi acima dos 8 000 metros foi o Cho Oyu e integrei uma expedição polaca. Eles nunca usaram nada disso, só tinham um nepalês no campo-base para lavar a loiça e cozinhar, mais nada. Nos anos 1990, era uma realidade socioeconómica parecida com a nossa e tínhamos de organizar exposições baratinhas.
Além dos custos, não há um princípio por trás dessa opção?
Alguém um dia me disse que uma equipa de alpinistas tinha de partilhar o trabalho do campo-base para cima e tentei sempre aplicar essa regra. Nunca vi isto como uma conquista a qualquer custo, mas sim como o desejo de me superar.
O desafio do K2 surge num momento de dúvidas, por causa da tragédia ocorrida no ano anterior, após a expedição portuguesa ter atingido o cume no Shishapangma. O projeto dos 14 picos tremeu. O que recorda desse período?
O Bruno [Carvalho] tinha falecido em 2006. Nestes desportos de aventura, a este nível, uma queda pode ter consequências muito graves, inclusive a morte, e eu tinha sido prevenido pelo patrocinador que, se morresse outro português, passaria de bestial a besta. Comecei então a pensar em subir com outras nacionalidades. Convidei um amigo sherpa nepalês para ir comigo como alpinista, mas ele foi atropelado dias antes e tive de encontrar uma alternativa à última hora. Lembrei-me de um paquistanês que conheci numa expedição com belgas, o Amin, que aceitou acompanhar-me, também como alpinista, ou seja, partilhando toda a jornada a meu lado, sem carregar materiais por mim montanha acima. Só não fez cume porque, quando o sherpa que já mencionei caiu numa ravina antes do Bottleneck e nos fez hesitar, ele assustou-se e preferiu voltar para baixo. Tudo bem.
Tal como no Evereste, oito anos antes, atingiu o cume já depois da hora de segurança, que seria entre as três e as quatro da tarde. Chegou a temer outra vez o pior ou lá em cima, com o ar rarefeito, não dá para articular raciocínios tão elaborados?
Temos essa perceção da hora, mas eu próprio já esperava. Tinha havido uma série de piratarias ao longo de toda a subida, porque basicamente cinco pessoas, sendo eu uma delas, abriram o caminho, na neve profunda, para outras dez virem mais atrás a aproveitar, até ao campo quatro. Então, no dia do cume, disse ao Amin que iríamos sair atrás. Além disso, com o acidente do sherpa que caiu no escuro, perdeu-se uma hora, a ponderar se continuávamos. Portanto, tinha consciência de que o cume ia ser um pouco mais tardio, mas também sabia que a descida ia ser rápida, devido à inclinação da montanha. Lembro-me de regressar ao acampamento quatro e ainda haver luz do dia.
A descida foi tranquila?
Talvez os dois litros e meio de líquidos que levei para cima não tenham sido suficientes ou talvez não tenha gerido a hidratação da melhor forma. Sei que cheguei sedento, muito desidratado.
O Amin tinha um chá preto quente à sua espera.
Continua a ser o grande combustível. Como os americanos dizem, hydrate or die. Ou bebes na montanha ou não sobrevives. Ao estar muito tempo em altitude, o organismo desenvolve mais mecanismos de compensação e cria-se ali, digamos, uma mistura no sangue, que fica muito mais espesso, mais viscoso e mais propício a haver acidentes vasculares.
Nestes desportos de aventura, uma queda pode ter consequências muito graves, e eu tinha sido prevenido pelo patrocinador que, se morresse outro português, passaria de bestial a besta
O chá preto é a sua bebida preferida nesses momentos?
Na altura, era. Agora, gosto mais de outras infusões.
No regresso ao campo-base, pós-cume, escreve que sentiu uma espécie de reconciliação consigo mesmo, depois das dúvidas que se levantaram sobre o projeto. Fez as pazes consigo?
Não estava em guerra comigo, nem estava dececionado, mas sentia-me numa ratoeira sem saber como sair dela. Sem saber como digerir tudo o que tinha acontecido. Portanto, senti-me mais aliviado com as minhas decisões, como se tivesse passado num exame. Voltei a encontrar a paz.
Como surgiu a ideia de escrever este livro, 18 anos depois de atingir o cume do K2?
Na época, a máquina estava bastante treinada e não quis parar de subir montanhas. Depois, andei a reorganizar a minha vida, a tentar arranjar outros objetivos, e uma maneira foi subir montanhas mais técnicas e não tão altas, sem o ar rarefeito da altitude extrema e por vertentes nunca escaladas, porque continuava com uma capacidade física acima do normal. Tentei não perder muito tempo a escrever livros. Neste momento, também já não escrevo. Com estas mãos, toco numa tecla e aparecem duas letras. É mais fácil falar para o computador e ele escrever. Contactei o Aurélio [Faria], comecei a ver as cassetes das filmagens e fiquei maravilhado com imagens que nunca tinha visto, além de declarações minhas que se tinham apagado da memória. Sobre o K2, deparei-me com 13 horas de filme, que me ajudaram muito mais do que os apontamentos que guardo numa série de livrinhos escritos à mão. Ver a montanha e olhar para a minha cara, magro, aviva a memória. Ao falar com o Aurélio, percebi que podia ser o meu coautor, porque ele presenciou o K2 como jornalista, a partir do campo-base, e teria muito a acrescentar. Este é o primeiro de, pelo menos, mais dois livros que estão já planeados. O próximo, se calhar, será o Kangchenjunga e, depois, o Annapurna, onde ele chega ao campo-base, após sete dias de caminhada, com autorização da SIC para ficar durante 30 dias. Ao fim de sete, já estava despachado. Eu tinha recebido indicações através do telefone satélite, a 7 000 quilómetros de distância, do Vítor Baía, da Guarda, um autodidata da meteorologia em quem eu confiava, sobre uma janela de oportunidade, e decidi avançar. Esta ferramenta veio trazer muita confiança, porque aumenta as possibilidades de sucesso e diminui o risco.
Com o Aurélio Faria também ia sempre comunicando, ao longo dos dias?
Sim, muito. Tenho aqui horas e horas em que ele se filmava e ouve-se, também, a minha voz. Foi graças a estas cassetes, a estas gravações, que consegui reviver tudo. Já não é só a foto Kodak para mais tarde recordar. São as gravações de vídeo para mais tarde recordar, e isso é fantástico. Tenho de dizer que o Aurélio é um jornalista da velha guarda. Muitas pessoas começavam a exigir uma cobertura em tempo real no site da SIC, como as expedições americanas faziam, mas o Aurélio sempre defendeu que isto não era futebol e que, se houvesse uma tragédia, a família tinha de ser avisada primeiro, antes do resto do mundo. Hoje, tudo é transmitido em direto. Como dizem os espanhóis, estamos na era do instantâneo.
Como aprendeu a lidar com os medos?
Costumo dizer que o Monte Branco, nos Alpes, foi a minha primeira grande montanha. Tinha 17 anos e, portanto, aos 58, já lá vão 41 a subir montanhas. À medida que vamos angariando experiências com a altitude, com as vertentes, com as quedas de pedras, não vamos ficando necessariamente mais calejados. Pelo contrário, até ficamos mais sensíveis. Mesmo quando parece só rotina, não é. Quando estou com clientes, costumo ser a pessoa mais atenta, mas não lanço o pânico. Digo, por exemplo, que não podemos parar para tirar fotografias até chegarmos a determinado local, mas nem explico porquê. Só depois. Como se costuma dizer, a ignorância é o primeiro estágio da felicidade, e eu quero que os clientes sejam felizes. Já na minha cabeça, encontro justificação para o risco no facto de não usar oxigénio suplementar, de não fazer batota. Foi esta pureza de espírito que pouco a pouco me habituou a lidar com o medo. Felizmente, nunca o perdi, porque é graças a ele que consigo calibrar o bom senso e tomar as boas decisões. Há aqui um equilíbrio saudável porque entendo que estou a fazer as coisas da forma correta.
Já havia referido essa pureza quando disse preferir não estudar muito as montanhas, mas sim encará-las como um desafio a ultrapassar no momento, inspirado nos pioneiros.
Bem observado. Já me tinha esquecido desse detalhe, de ter dito que propositadamente não estudava de forma exaustiva a aventura que ia ter à frente. Eleva um pouco a dificuldade, e a verdade é que levo tudo isso em consideração. A gente gosta é de luta. Se for tudo fácil, perde o encanto.
O risco fá-lo sentir-se mais vivo?
Não me revejo naquela frase “ah, morreu a fazer o que gostava”. Sou mais pragmático. Se morreu na montanha, cometeu um erro. Quem nunca os cometeu que atire a primeira pedra. Eu cometi muitos, e com consequências graves, mas não é o risco de morte que me atrai no alpinismo. Todos temos um instinto animal de tentar sobreviver, ainda que, voluntariamente, nos tenhamos metido, entre aspas, numa alhada. No alpinismo, por vezes acontecem coisas imprevisíveis, e temos de reagir. Quando nos safamos e regressamos, são experiências transformadoras. Daí, qualquer desportista usar a palavra superação, não é? Neste caso, é superar-me a mim próprio, não só fisicamente mas também tecnicamente. Encontrar maneiras de resolver o problema e conseguir o essencial, que é regressar a casa. Como dizem os americanos, o ir é voluntário, o regressar é obrigatório.
Como lida hoje, 26 anos depois, com a morte do seu amigo Pascal [Debrouwer], em 1999, no Evereste?
Sempre assumi que cometemos erros. Para mim, foi uma grande tristeza perder um amigo e um companheiro. O tempo não cura, porque essas memórias ficam para a vida, mas ajuda. Posso até chamar-lhes lições, só que é muito egoísta. Todas as pessoas que morrem na montanha, para mim, são experiências extremas. Mas, lá está, no nosso instinto, temos de as aproveitar para tentar não repetir os mesmos erros.
Qual foi o maior erro nessa expedição?
Foram várias coisas. Já estávamos há demasiado tempo a grandes altitudes e, por isso, estávamos demasiado fracos. Já não tínhamos gás suficiente para transformar o gelo em água e, portanto, nem devíamos ter iniciado a última tentativa. Foi um tiro no escuro. Não nos apercebemos de que não iríamos conseguir chegar num horário de segurança, porque havia muita vontade de ir lá acima. Além disso, a hipoxia tirou-nos o discernimento. Estive três meses em expedição, não faz sentido. No máximo, um mês e meio. Era desmontar e vir para baixo. A montanha não vai a lado nenhum.
Foi a pureza de espírito que pouco a pouco me habituou a lidar com o medo. Felizmente, nunca o perdi, porque é graças a ele que consigo calibrar o bom senso e tomaras boas decisões
Continua a viver só do alpinismo?
Considero que fui profissional, patrocinado, entre 2006 e 2010. Agora, já não tenho os mesmos rendimentos, mas continuo a sobreviver dando aulas de alpinismo, guiando pessoas em viagens e fazendo palestras motivacionais.
Em 2026, tem viagens já marcadas para caminhadas no Evereste e em Marrocos.
Sim, também irei a Espanha e tenho em mente promover outras viagens, inclusive o trekking até ao campo-base do K2, que é uma coisa ímpar no Paquistão. Este livro acaba por ser uma ação de marketing para esse percurso pedestre de aldeia em aldeia.
Que sonho lhe faltou concretizar?
A dada altura, em 2010, estava a tentar continuar o relacionamento com o patrocinador e apresentei um projeto para ir sozinho ao Polo Sul. Aprendi muito sobre nutrição, porque seria um desafio que me obrigaria a ter uma autonomia de 100 dias de alimentação. Tinha de levar muitas calorias no menor peso possível. E nada fornece mais calorias do que gordura. Então, basicamente, ia comer sabonetes de manteiga desidratada à dentada, todos os dias, mas a crise económica que se seguiu inviabilizou essa aventura. Voltei para as montanhas.
Os seus dois irmãos mais velhos foram músicos. Há uma música marcante na sua vida de alpinista?
Por forte influência deles, sempre gostei muito dos Genesis, do Peter Gabriel. Um dos meus irmãos tocou com os Heróis do Mar, o outro foi para os GNR. A certa altura, aquela vida de artista serviu-me de exemplo. Quer dizer, num país como Portugal, que respira futebol, eu queria tornar-me alpinista profissional e isso era quase impensável. Mas se aqueles dois parvalhões [Risos] conseguiam fazer vida no trim, trim, trim, porque é que eu não havia de acreditar que um dia poderia viver do alpinismo?








