Pois é: acabemos com as escolas. Liberte-se, ó Estado, dessa despesa colossal com edifícios decadentes, quadros apagados, professores envelhecidos e adolescentes que preferem o TikTok a Os Lusíadas . Afinal, já temos Inteligência Artificial: ela corrige textos, responde a perguntas e até imita o estilo de Camões — por que manter um sistema tão anacrónico, tão humano, tão ineficiente?
A lógica é impecável. Se a educação é um custo e não um investimento, se o saber pode ser instantaneamente descarregado como um ficheiro e se aprender é apenas acumular dados, então sim: fechemos as portas das escolas, desliguemos os projetores, despejemos os livros nos contentores e deixemos os algoritmos cuidar da formação das novas gerações. Afinal, quem precisa de um professor quando se tem um chatbot com respostas “neutras”, “objetivas” e “imparciais”?
Mas há um senão — pequeno, quase imperceptível — que alguns filósofos teimam em lembrar. Alain, por exemplo, insistia que ensinar não é transmitir respostas, mas suscitar perguntas. E Montaigne, na sua Apologia de Raymond Sebond, já zombava daqueles que confundem a memória com o entendimento: “sabemos dizer: ‘Cícero disse isto’, mas não sabemos o que Cícero pensou”. A escola, quando é verdadeiramente escola, não é um depósito de conteúdos, mas um lugar de encontro — entre ideias, entre gerações, entre corpos e espíritos. É ali que se aprende, não apenas o que se sabe, mas como se duvida, como se argumenta, como se resiste. A frustração, sabem, também nos ensina.
E é aqui que a ironia desaba sobre os seus autores. Porque a Inteligência Artificial, por mais avançada que seja, não pode ensinar aquilo que não tem: desejo, perplexidade, fragilidade, o silêncio que precede uma pergunta verdadeira. Pode imitar a empatia, mas não sente o peso de um olhar perdido no fundo da sala. Pode organizar um plano de aula, mas não sabe o que é esperar, durante semanas, que um aluno finalmente se abra. Pode citar Espinosa com perfeição sintática, mas ignora o que é viver a ética como luta quotidiana contra a tristeza.
Na Web Summit, o ministro Gonçalo Matias anunciou, com entusiasmo tecnocrático, que o Governo quer “dar a cada aluno um tutor de IA que ouve, orienta e inspira a sua aprendizagem”. Uma promessa luminosa, quase angelical — como se, finalmente, tivéssemos encontrado o substituto perfeito para o professor: barato, incansável, escalável. Mas ninguém pergunta: ouve o quê? Orienta para onde? Inspira com base em quê? Afinal, como escreveu o filósofo Hans-Georg Gadamer, “compreender não é aplicar regras, é entrar numa conversa”. E uma IA, por definição, não conversa: replica padrões.
Porque a escola nunca foi apenas um lugar de transmissão de saberes, mas um espaço de construção de laços. É ali que uma criança aprende a partilhar o lanche, a esperar a sua vez, a desenhar um mundo comum num caderno rasgado a meio. É ali que um adolescente, perdido entre hormonas e dúvidas, encontra um professor que, com um simples “hoje estás calado… estás bem?”, lhe devolve a sensação de existir. Nenhum tutor de IA, por mais “inspirador” que se queira, pode substituir o calor de um olhar que reconhece, de uma voz que escuta sem julgar, de um silêncio que acolhe sem pressa.
Os relatos multiplicam-se: jovens que chegam às aulas com fones nos ouvidos não por rebeldia, mas por medo do encontro; que evitam os recreios como se fossem campos minados de insegurança; que confundem likes com afeto e ecrãs com presença. Vivem uma crise de sociabilidade, não de competências digitais. E a resposta do Governo é entregar-lhes mais uma interface — mais um espelho onde se verão sozinhos, mesmo que lhes diga “estou aqui para ti”. Quando o que precisam, urgentemente, é de um outro real: um colega com quem rir sem filtros, um adulto que os desafie com paciência, um grupo onde possam experimentar, falhar e recomeçar — juntos.
As políticas que se anunciam na Web Summit soam a fachada, a hipocrisia tecnológica sobre um abismo pedagógico. Falam de “tutores que inspiram”, mas calam-se sobre turmas sobrelotadas, sobre professores sem tempo para respirar, sobre bibliotecas vazias e salas sem janelas. Reduzem a educação a um problema de eficiência e esquecem que ela é, antes de tudo, um ato de confiança recíproca, de presença atenta, de afeto não instrumentalizado. Não se inspira com algoritmos. Inspira-se com exemplos. Com gestos. Com a coragem de ser imperfeito à frente de outros imperfeitos — e, ainda assim, seguir em frente.
Acabar com as escolas, portanto, seria abdicar da própria condição educativa: a de formar seres humanos, não repositórios de informação. Seria entregar o futuro a uma lógica de eficiência que despreza a lentidão necessária ao pensamento, o erro como caminho, a conversa como método. Seria confundir instrução com educação — erro antigo, mas agora disfarçado de inovação.
Então sim — vamos acabar com as escolas. Substituamo-las por plataformas. Demitamos os professores. Apaguemos os debates, os silêncios cúmplices, os erros partilhados. Apaguemos as luzes! E que cada criança receba, de brinde com o seu tablet, um anjo digital que tudo sabe… menos o que é ser criança, ser humano, ser livre.
O resto é apenas nostalgia. Ou sabedoria. Depende do algoritmo que estiver a ler.
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