Será possível resolver a crise climática?

Até à formação do Beryl, no final de junho, nunca havia surgido um furacão de categoria 5 tão cedo Foto: Joe Raedle/Getty Images

Será possível resolver a crise climática?

Tenho uma enorme curiosidade, impossível de ser satisfeita. Gostaria de ler um livro, ou algo sucedâneo, sobre a história da crise climática escrito daqui a 200 anos. Claro que a sociedade humana nessa época será muito diferente da atual. Num primeiro cenário, poderá ser fragmentada, regredida, belicista ou, num segundo cenário, profundamente dividida entre uma vanguarda meio transumana exuberante, hedonista, triunfalmente consumista, e as “pessoas do abismo” de Jack London e George Wells. Num terceiro cenário, poderá ainda ser uma improvável continuação analítica do mundo atual centrado na luta pela ascensão do Sul Global sobre um Norte Global defensor incondicional da hegemonia criada após a II Guerra Mundial. O quarto cenário é o inverno nuclear, inimaginável de sofrimento humano, causado por uma guerra nuclear mundial. Nos primeiros três cenários, todos flutuantes no oceano turbulento da “inteligência” digital, o passado pode ter-se tornado irrelevante e até incómodo. Mas poderá ter restado em alguém algum interesse em analisar a evolução passada daquilo a que, desde o início do século XXI, se chamou crise climática. A narrativa da Ciência garante-nos que as alterações climáticas vieram para durar muito tempo. Pela simples razão de que quando se emite dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera, grande parte das moléculas permanece aí durante séculos, sem ser capturada pelas plantas, pelo oceano ou por processos geoquímicos.

Resta-me imaginar o que diria o tal livro escrito em 2224. Confrontada com o problema das alterações climáticas, a Humanidade recorreu às Nações Unidas e em 1994 decidiu, por meio da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (CQNUAC), “estabilizar a concentração de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera em níveis tais que evitem a interferência perigosa com o sistema climático”. Porém, a concentração atmosférica de GEE, o indicador que determina a intensidade das alterações climáticas, aumentou ano após ano, em lugar de estabilizar e começar a diminuir. A concentração atmosférica de CO2 aumentou de 280 ppmv (partes por milhão em volume) antes da Revolução Industrial para 358,96 ppmv em 1994 e para 426,57 ppmv em abril de 2024. Entretanto, a taxa anual de aumento da concentração de CO2 tem crescido: passou de um valor médio de 0,8% na década de 1960 para 2,4% na década de 2010. Tanto ao nível dos indicadores de emissões globais de GEE como da sua concentração atmosférica, não houve qualquer sinal de melhoria depois da entrada em vigor da CQNUAC. O problema, de acordo com o nosso cronista do século XXIII, é a elevada dependência mundial dos combustíveis fósseis, responsáveis por 75% das emissões de GEE, que foi de aproximadamente 80% nos últimos 50 anos, e de 82%, 81,8% e 81,5% nos anos de 2021, 2022 e 2023.

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