Claro que a tradução de Rapa Nui do polinésio para a nossa língua não é “Ilha da Páscoa”, mas sim qualquer coisa como “O Umbigo do Mundo”. Parece que os habitantes da ilha de Rapa Nui, não conhecendo nada mais que a própria ilha, consideravam-na o centro desse mundo desconhecido. O nome atual foi batizado pelo capitão holandês que “pescou” a ilha do poço da Pré-História onde se encontrava, precisamente no Dia de Páscoa de 1722. Os três navios de Jacob Roggeveen apareceram mesmo a tempo: poucos anos restavam aos habitantes de Rapa Nui para que esgotassem todos os recursos naturais da ilha e se extinguissem eles próprios no processo.
Os Incas também consideravam Cusco, a Roma do seu efémero império, o centro do mundo. Rodeados de vários desertos de vida humana o Atacama a sul, a Amazónia a leste e o Pacífico a oeste, era-lhes fácil acreditar que os Andes representavam o mais feliz dos ecossistemas para a existência humana, e Cusco celebrava essa felicidade.
Filipe II estaria sinceramente convencido que o centro do mundo esse mundo que por fim se tinha provado ser redondo, logo sem um centro geográfico objetivo seria qualquer lugar onde ele colocasse o seu trono.
Foi Madrid esse lugar, centro geográfico da Península e provavelmente durante algumas décadas centro político, religioso, cultural e linguístico do mundo (e ainda hoje Madrid é ponto de referência para os 500 milhões de seres humanos que têm no castelhano a sua língua-mãe).
Mais curiosa é a lógica que escolheu Chicago como centro dos Estados Unidos e, para todos os efeitos, a cidade ao centro do centro do mundo. Essa lógica tem um nome: “economias de escala”. Se olharmos para o mapa dos EUA, Chicago não parece nada no centro de coisa nenhuma. Mas os barões das ferrovias do século XIX souberam ver mais longe nesse mapa.
Ao contrário da perceção europeia de serviço ferroviário, que é um monopólio estatal de transporte de passageiros e por isso com funções sociais; a ferrovia na América sempre foi uma empresa capitalista. Com custos fixos extremamente elevados e uma compe tição feroz entre linhas onde os westerns e a BD beberam inspiração para inúmeros guiões, o seu principal serviço sempre foi o de transportar mercadorias.
Chicago, a mais capitalista de todas as megalópolis do século XX, nasceu por um acidente natural: dois rios que se tocavam, tendo cada um deles uma afiliação oposta.
O rio Des Plaines desaguava no Mississípi, que por sua vez desaguava no Golfo do México; o rio Chicago desaguava no Lago Michigan, que por sua vez desaguava no Atlântico Norte. Um corredor aquático extraordinário ligava ali o Norte ao Sul.
Faltava ligar o Leste ao Oeste: as linhas ferroviárias trataram disso. Não há nada mais central do que o ponto de encontro dos pontos cardeais.
Chicago começou por ser um encontro de meios de transporte. Mas na lógica capitalista, para vencer os enormes custos fixos desse encontro (construção de linhas de comboio, cargueiros, pontes, canais, manutenção de equipamentos, combustível, salários etc…), a cidade não podia ser apenas um ponto de passagem de mercadorias, tinha que ser um pólo de transformação dessas mercadorias.
Na lógica capitalista, os custos fixos vencem-se com economias de escala.
Assim, Chicago tornou-se o centro de processamento de milho, carne, madeira, trigo, açúcar de um território que se estendia do Canadá às Caraíbas, de Los Angeles a Nova Iorque. Nesta cidade que o capitalismo criou, iria nascer a linha de montagem, o arranha-céus, o mercado dos futuros, a multinacional McDonald’s e, mais recentemente, as famigeradas teorias económicas da Escola de Chicago, tristemente célebres pelos custos sociais das suas intervenções.
Basta ver o que vivemos hoje em Portugal, fruto dessas teorias neoliberais, se por acaso ainda restassem dúvidas no leitor sobre as atuais coordenadas geográficas do centro do mundo.