01 – URSS – Há muito que a URSS desapareceu do mapa, há muito que novos países (re)nasceram, há muito que as pessoas começaram a aderir a novas formas de estar, de viver, de pensar mas, nem por isso, os políticos deixaram de pensar em grande, em monstruosidades, em anormalidades. É o caso do Turquemenistão com toda uma capital com imensos edifícios, mas todos eles vazios, mas também o caso de todos os outros países ex-URSS que insistem em continuar com a construção destes “portões” enormes, sem nenhum sentido e esteticamente inestéticos, à entrada de cada cidade. Kitsh. 02 – Athina – É a época alta para os ciclo turistas cruzarem a Ásia Central. O clima permite, as vistas para paisagens são incríveis e, claro está, mesmo que não seja por longo tempo, num mês de férias consegue-se atravessar e ver muito por aqui. No caminho cruzámo-nos com a Athina, residente na Nova Zelândia mas há ano e meio de bicicleta, sozinha, tendo partido de Pequim! Se não é raro encontrar homens a viajar sozinhos, já mulheres… Ela era uma força da natureza! Doente, sozinha, quase sem forças, mas com um sorriso enorme quando lhe dissemos que não se preocupasse, que a partir dali seria sempre a descer até à capital, onde poderia descansar o tempo que quisesse! Não sabia ainda quando regressaria: “Quando o dinheiro se acabar” – disse-nos! Nós, partimos em direção contrária e a sua força, só nos deu ainda mais força nós!
03 – Quem não tem cão… – …desloca-se com o que existir! Muitos são aqueles que atravessam estas estradas de jipe. Muitos camiões também. Já viaturas privadas, são menos. Motas, ainda menos. Bicicletas, começam a ver-se um pouco mais agora, mas o burro ganha! De aldeia em aldeia, muitas delas nem as conseguimos ver da estrada, lá vão as pessoas “viajando” ao ritmo do seu animal doméstico, que os leva longe, que os ajuda a carregar a comida, a água e tudo o mais. Como uma normal viatura, circula onde estas circulam também, habituados ao barulho dos motores e aos pedais das bicicletas. Pacatos, bem dispostos e sem nunca “discutirem” a ordem dos seus proprietários, estes pequenos animais vivem como reis nas montanhas, pois quem os tem, sabe bem da sua importância nas suas vidas. 04 – O começo – De Dushanbe a Khorog, onde verdadeiramente começa a Pamir Highway que nos leva até Osh, no Quirguistão, são pouco mais de 500 quilómetros. Normal até aqui, habituados que estamos a percorrer centenas todas as semanas. No entanto, destes 500, apenas 50, 70, estão alcatroados! O resto do caminho é um misto de alcatrão de há 40 anos, terra batida, gravilha, pedras de todas as formas, buracos, crateras, rios que se atravessam à nossa passagem e um sem número de outros obstáculos que nos atrasam a progressão. A paisagem, porém, é de nos tirar a respiração e de nos fazer dizer, a cada 200 metros “UAU!”
05 – A Tulipa – Estávamos cansados. A Tanya estava doente. Não nos apetecia fazer nem mais um metro de estrada e foi mesmo ali, em frente aquela que, soubemos mais tarde, é intitulada de A Tulipa, que acampámos nessa noite, mesmo que a nossa tenda não estivesse assim tão fora da visão dos poucos que na estrada passavam. O clima perfeito a 1700 metros de altura, a paisagem perfeita, o terreno quase perfeito e uma refeição horrível, com um macarrão que com toda a certeza, já tinha passado da validade uns anos atrás. Só isso estragou a nossa noite perfeita. Em tudo o resto, foi o melhor sítio escolhido!
06 – Tarefas diárias – O anormal dos dias, o normal das tarefas! Comemos, dormimos e precisamos de ter a “casa” composta! Isso obriga-nos a uma certa ginástica. Levar água para o sítio onde acampamos nem sempre é possível. Dormir ao lado dum rio, idem idem, aspas aspas. A loiça utilizada fica para o dia seguinte, à passagem por uma nascente. Aí, tratamos das tarefas diárias: lavar tudo, por vezes a roupa também, mesmo sabendo que ao secar fora da bicicleta, ficará cheia de pó, depilação, lavar dentes, tomar banho e claro, encher as garrafas com água bem fresca, para o caminho! O normal das tarefas, no anormal dos dias!
07 – Viver – Parece o paraíso! Realmente é, para quem lá passa, somente. Viver nestas paragens, longe de tudo, de todas as comodidades a que estamos habituados, não seria fácil para nós. A montanha a espreitar lá atrás, o verde dos campos, a casinha com telhado de zinco, as crianças que dizem adeus à nossa passagem, “adeuses” que já nos fartam, mas que compreendemos, tal o isolamento a que este povo se vê obrigado. Parar, trocar umas palavras, entrar num supermercado e ver as prateleiras com a mesma coisa, a mínima das coisas para comprar, faz-nos querer sair dali e continuar e para trás deixar apenas um goodbye, e um último olhar sobre este paraíso na terra, onde não gostaríamos de viver.
08 – Trajetos – A estrada que nos liga de Dushanbe a Khorog é chamada a estrada de Verão. Outra, uns 200 quilómetros mais longos, é a única aberta todo o ano. Percebe-se porquê: o rio que corre montanha abaixo, corre por cima da estrada a maior parte do ano. Dizem os locais que este ano o rio tem menos água, que não há tanta neve na montanha, que a chuva cai cada vez menos. No nosso trajeto, no entanto, passámos mesmo ao lado da água uma série de vezes e, desta vez, por cima dela. Podíamo-nos ter dado ao trabalho de um equilibrismo na lateral do pequeno lago, é verdade, mas o tempo estava quente e convidava a um molhar de pés! 09 – Paisagens – Subir uma montanha, numa estrada à qual não queremos voltar tão cedo, é difícil. Suamos, discutimos, imploramos para que aquela curva, aquela que conseguimos avistar a umas centenas de metros de distância, seja a última…e não, não é. Tem que se continuar com o esforço, o calor tem que continuar a derreter-nos aos poucos, tem que continuar a queimar-nos a pele, ou então não vale a pena. Chegados ao topo, 5 horas e meia e 30 quilómetros depois, a vista que se tem faz-nos esquecer tudo pelo qual passámos. Magnífico!
10 – 3252 metros – Foi a nossa maior passagem até agora: 3252 metros de altura! Na viagem anterior tínhamos feito Katara Pass na Grécia e os 1700 metros já nos pareciam enormes! Nesta viagem, no Irão, passámos perto dos 2800. Agora, foi a maior! Não temos qualquer objetivo de passar pelas mais altas, estar o mais acima possível, conquistar alguma coisa, atravessamo-las porque estão no nosso caminho, somente por isso. Nos próximos 2 meses, pedalaremos bem acima e passaremos por algumas bem mais altas, ao nosso lado, felizmente! Contudo, gostamos sempre de marcar estas pequenas vitórias com grandes saltos!
11 – Abismo – Se têm condições para serem circuláveis? Não! Se a questão da segurança foi alguma vez pensada? Não! Se já houve algum acidente mortal? Sim, quase todas as semanas. E então? É a única maneira de chegar onde queremos, é uma das maneiras de nos sentirmos a viajar de bicicleta e uma das únicas que nos dá uma adrenalina que não sentimos em qualquer ciclovia na Europa! São abismos, mesmo ali ao nosso lado, sítios que, se cairmos, só paramos uns 300 ou 400 metros abaixo. São paredes ao nosso lado com mais de 1000, 2000 metros que nos fazem sentir pequenos, ridículos face ao tamanho da natureza. Que nos mostram derrocadas, pedaços de montanha que se soltam e que fizeram os seus estragos. São estes os caminhos que fazem a nossa viagem no Tajiquistão! 12 – Comida – “É a pior do mundo” – afirmam todos os viajantes que encontrámos e nós confirmamos. Nunca viajámos por todo o mundo e nunca o iremos fazer, mas uma coisa podemos afirmar com toda a certeza: “A Ásia Central tem a gastronomia mais pobre”- o que é para admirar, pois têm todos os produtos necessários: frutos secos, carne de excelente qualidade, fruta, todo o tipo de vegetais. À sua volta, a Índia, o Irão, a China, a Turquia, todos com uma gastronomia riquíssima. Mas não, preferem comer sempre os mesmos 3 ou 4 pratos e quando cozinhamos algo diferente, ficam ao nosso lado de boca aberta como que dizendo: “Ui, também se pode cozinhar isso assim???”. Passámos fome, muita fome. Uma dieta rigorosa contra a nossa vontade. Daí não ser de admirar que, quando alguém nos coloca à frente um prato de vegetais guisados, tirar uma fotografia seja quase obrigatório!
13 – Afeganistão – Nunca estivemos tão perto daquele que é considerado o país mais perigoso do mundo, mas ao fazer estes 500 quilómetros de estrada que nos ligam ao início da Pamir Highway, este país perigosíssimo está sempre ao nosso lado direito. Deste lado, um pouco de desenvolvimento: há eletricidade, casas, alguma água corrente, viaturas que se deslocam. Do outro lado, nada, apenas casas, todas feitas em argila ou terra, uma cascata que corre por entre o verde das casas e pouco mais. Pessoas que se deslocam a pé, sempre a pé, porque os caminhos de terra e o dinheiro não permitem mais nada. A vida continuará assim durante anos, enquanto a política o quiser.
14 – Problemas e mais problemas – Após 10 meses de viagem e 9000 quilómetros todo o material se estragou: as bicicletas, a bagagem, as grelhas que carregam a bagagem, algumas peças de vestuário, sandálias…tudo. Estamos parados em Khorog porque não conseguimos encontrar nada nem ninguém que nos resolva os problemas. Não há mecânicos, não há peças para as bicicletas, peças para nós, não há quem nos possa ajudar ou resolva os problemas. Viemos para ficar 4 dias e agora estamos aqui por tempo indeterminado. O visto do Tajiquistão acaba dia 10 de Agosto…vamos ver até quando vamos cá ficar…