01 – Big Brother – Ayatollah Khomeini nasceu em 1900 na cidade de Khomein. Estudou Teologia, Psicologia e Direito na cidade sagrada de Qom. A sua primeira aparição pública como Ayatollah foi em 1962, quando este se opôs ao Rei que queria diminuir o poder da classe religiosa no país e aumentar os direitos das mulheres. Exilou-se na Turquia em 1964 e posteriormente no Iraque, de onde foi expulso por Saddam Hussein, tendo-se exilado em Paris. Aquando da revolução no país, regressou e transformou o país na primeira república islâmica do mundo. Com uma eficiência brutal e cruel, torturou, matou ou fez desaparecer pessoas e partidos que tinham ideias opostas. Diminuiu o poder das mulheres, baixou-lhes a idade de poder casar para 9 anos. O Irão é o único país do mundo onde as mulheres são obrigadas a cobrir o cabelo, os braços e usar camisolas que as cubra quse até aos joelhos. Os homens não podem usar calções. A polícia secreta está por todo o lado. O Irão, até aí um país pro-europeu e americano, transformou-se num dos países mais repressivos do mundo. Como o próprio uma vez disse: “Depois da Revolução, chega a Revolução”.
02 – Esperança – A uma das imagens captadas nas ruas de Teerão, juntamos as conversas que temos tido com as pessoas com quem ficamos e com aquelas que na rua encontramos e temos a certeza que o Irão será um dos próximos países a viver uma revolução…outra. Foi o país até agora que nos surpreendeu mais, não em termos de hospitalidade, pois isso já sabíamos o que iríamos encontrar, mas em termos de postura. Apesar da repressão com que vivem, da polícia por todo o lado, de escutas, o assunto preferido é a política e a religião. Apesar de ser uma república islâmica, é o país com menos praticantes e mais críticos à religião que vimos. O país onde as pessoas nos dizem: “O nosso presidente é maluco, é um terrorista”. Onde gozam à passagem de pessoas com alto estatuto na religião. Onde as mulheres reclamam com os véus, onde se dizem presas. Onde as pessoas são cultas, obcecadas pela educação e emigram, cada vez mais, para o Canadá, a Austrália, onde vão exercer cargos ao seu nível em grandes instituições. O país onde, mais cedo ou mais tarde, algo explodirá. O país do amanhã!
03 – Shiraz – Foi uma das mais importantes cidades da doutrina islâmica, a capital da Pérsia durante a dinastia Zand, conhecida como Dar-ol-Elm ou Casa do Conhecimento, esta é uma cidade de história, de jardins imensos, de poetas, de cultura, a cidade com o melhor gelado que já provámos nesta viagem e isto só é mesmo importante, pelo calor que sentimos quando aqui estivemos! Com amigos que fizemos na Síria, percorremos as ruas da cidade ao fim da tarde, fizemos piqueniques (ou não estivéssemos no Irão) e parámos vezes sem fim para mais um, só mais um gelado, ora acompanhado de sumo de cenoura, ora numcone, ora com uma espécie de esparguete, que ainda não conseguimos perceber o que era, mas o qual nos viciámos! 04 – Poetas – Os iranianos costumam dizer: “Numa casa existe sempre o Corão e depois Hafez”, apesar de muitos, hoje em dia, inverterem a ordem! Aramga-E-Hafez foi uma dos mais importantes poetas persas, ispirador de muitos famosos escritores ocidentais. O seu túmulo encontra-se em Shiraz e foi construído por Kharim Khan em 1773, fazendo deste lugar um local de culto e peregrinação de qualquer iraniano. Não é raro ver-se pessoas ajoelharem-se perante o túmulo inscrito com um longo verso do escritor, alguns mesmo chorando ou outros abrindo um livro do poeta para que este lhes dite o futuro na página aberta ao acaso. Como todos os sítios de peregrinação no país, as fotografias são disparadas ininterruptamente, as pessoas encostam-se em todos os cantos do jardim observando os outros que chegam e aquele sítio que, antes de entrarmos, julgaríamos silencioso, enche-se de vida, pois só assim este povo sabe viver!
05 – Esfahan – Um amigo disse-nos: “Esfahan é uma cidade à qual nunca me canso de voltar” e agora nós entendemos a razão! A cidade é a pérola do Irão, uma obra de arquitectura imensa, bela como nenhuma outra, rara, com um dos maiores bazares pelo qual já caminhámos, com a segunda maior praça do mundo, com palácios, mesquitas, madrassas, jardins, pontes belíssimas! Esfahan é turístico? Sim, é! No entanto, o turismo aqui é tão mínimo, que conseguímos caminhar um dia inteiro e talvez só vejamos turistas quando voltarmos à casa onde ficamos, ou ao hotel. Património Mundial da Humanidade, Esfahan é uma cidade que, se escrevermos sobre ela, vamos com certeza esquecermo-nos de quase tudo, de tão bonita que é. Como alguém escreveu no século XVI: “Esfahan é metade do mundo!” 06 – Descanso – Onde é possível, ou seja, onde uma sombra existir, mesmo que o vento que corra seja quente, que ali o chão esteja a escaldar e que a temperatura não baixe. Naquele dia, pedalávamos para fora do Irão, tínhamos os dias contados pela nossa entrada no próximo país, o Turquemenistão, o vento de frente não no deixou pedalar mais de 50 quilómetros, em 7 horas…uma média terrível. Sofremos, mas foi enquanto descansávamos, que apareceu um homem e nos deu água e nos disse que “ali ao fundo, naquela cidade que vemos” podíamos dormir do lado esquerdo, algures, não percebemos onde. Arrastámo-nos até lá e parámos ao lado duma mesquita. Um homem saiu dum supermercado e disse-nos: “Querem dormir aqui? Gratuito, sem problemas!” – quase chorávamos! Tivemos ainda direito a um banho, bem gelado, que nos tirou a sujidade toda do corpo! 07 – 7000kms – Numa longa reta, atingimos os 7000kms! A temperatura era de 40º. Dum lado, deserto e uma elevações, do outro, deserto e umas elevações.Uns quilómetros à frente, parávamos para nos protegermos do calor numas ruínas. Não tínhamos água e os dois litros que havia, estavam a ferver. Montamos uma sombra com parte da tenda, mas não conseguimos ficar por debaixo dela, tamanho era o calor. Horas depois, eu metia-me à estrada, a pé, pedindo boleia para a aldeia onde havíamos passado, 15kms atrás. Precisávamos de água, muita e gelada. Já na pequena aldeia, pedi água ao Crescente Vermelho e abasteci-me do resto no supermercado! Voltei com 6 garrafas de litro e meio em gelo! Ao mostrar o que trazia, como um tesouro, quase chorámos de alegria! 08 – Primeiro adeus! – Há sempre um primeiro adeus em cada país onde entramos, que não tem de ser obrigatoriamente aquele da primeira pessoa com quem falamos, mas da primeira pessoa com quem criamos alguma empatia, alguma ligação, por muito efémera que seja. Esta família, uns trinta quilómetros depois de termos cruzado a fronteira, deixou-nos almoçar no alpendre de sua casa, ofereceu-nos pão, água bem fresca e boa companhia durante o pouco tempo que ali estivemos. Enquanto explicávamos o nosso trajecto, a senhora, preocupada, pedia a Deus que nos acompanhasse, numa série de dizeres que apesar de incompreensíveis no idioma, eram de todo entendíveis nas suas preces! À saída, um dos “adeuzes” mais sentidos! 09 – Higiene – Parece parte de uma nave espacial caída em terra depois de um combate lá bem em cima, mas não, é uma casa-de-banho! Feita com peças ao acaso, são assim as casas-de-banho no Turquemenistão e é rara aquela que encontramos que tenha paredes verdadeiras, uma porta que feche e, importantíssimo, pelo menos uma placa de cimento no chão com um buraco. A sua principal característica são as tábuas no chão – muitas vezes só duas, com um espaço para cada pé – que nos deixam perceber os problemas intestinais das pessoas que antes ali estiveram. Água, nem vê-la! Papel higiénico só em hoteis de 5 estrelas e este não é o caso! As moscas, são às dezenas. A higene sofre! 10 – Doidos? Quem? Nós? – Numa longa reta, passamos por um jipe e, à frente deste, dois asiáticos corriam. Lançámos um Bom Dia e continuámos. Mais à frente, uma chinesa saltava-nos para a frente com um inglês perfeito. Dispara umas quantas fotografias e interpela uma conversa! Na parte inferior do vidro da frente, conseguimos perceber um autocolante que diz – “Running the Silk Road” – e pasmamos! Esperamos pelos dois asiáticos e a conversa continua ali, ao sol, com mais dois ou três membros da equipa. Percebemos que correm a Rota da Seda, durante 5 meses. Um chinês, outro de Taiwan! Os contactos são trocados, logo arranjamos estadia em Hong-Kong se lá quisermos ir ficamos a pensar nas pessoas que nos chamaram doidos, quandos começámos esta viagem!
11 – “Hotéis!” – Longas retas, deserto, falta de sombra, falta de água, falta de comida, pouco descanso. É assim que descrevemos a nossa passagem pelo Turquemenistão. A estrada não desvia nem um pouco em 80 quilómetros. Dum lado, areia, do outro, areia. Por cima, um sol que queima com temperaturas acima dos 40º. Lá em baixo, dois portugueses que pedalam, como alucinados quase em delírio, para ver cumpridos em 5 dias, os 500 quilómetros de estrada. Não vemos nada, só deserto. Por vezes, no entanto, uma casa aparece. Serve de café, supermercado, abastecimento de água, casa-de-banho, local de conversa para as nossas queixas e hotel, pois claro! Lá fora, por cima das tea-beds, pousamos os colchões e adormecemos. O despertador voltará a tocar às 4 da manhã… 12 – Delícia – O último rio antes do próximo país! Na estrada, vemos umas crianças que mergulham, nus, nas águas barrentas dum rio. Pousamos as bicicletas e saltamos nós também, para dentro de água. As crianças fogem, cobrindo-se da nudez mas, pouco tempo depois, voltam para a água! A água, apesar de não muito limpa, é fresca e sabemos que será a última água a correr que veremos nos próximos 200 quilómetros. Neste momento, não ligamos a nada e só queremos baixar a temperatura daquela meia centena de graus que nos derrete a pele. Momentos depois, olhamos para trás e somos surpreendidos por uma manada de vacas que descem em desespero, também elas, um morro. Entram na água e refrescam-se, bebem e ficamos ali: as crianças, nós e as vacas!
13 – Deserto – No nosso quarto dia de viagem no Turquemenistão, parámos num café e deixámos que a altura mais quente do dia passasse. Já era quase noite quando voltámos à estrada. Com as luzes ligadas, reflectores colocados, pedalámos deserto dentro em busca da “saída” do país. Nessa noite, sabíamos, teríamos de acampar algures, na areia ainda quente. Quando o nosso corpo começou a pedir descanso, montámos a tenda e adormecemos com as estrelas por cima, com a estrada ali a uns 20 metros de nós. Estávamos contentes por sabermos que seria a nossa última noite no país e que no dia seguinte, já poderíamos descansar bem mais, comer bem melhor e arranjar água bem gelada! 14 – Antes do Amanhecer – O despertador voltou a tocar bem cedo e nós partimos para o último dia. O sol preguiçoso, levantou-se bem mais tarde. O que nos fica destes 5 dias, custa-nos contar. Não voltaremos a este país com estas condições, pois nada vimos, nada gozámos, nada temos para contar a não ser um dia-a-dia repetitivo, desesperante e fatigante. Para piorar ainda as coisas, ficámos doentes e o nosso sistema ainda anda completamente alterado. Os dias no país mais quente da Ásia Central seriam para esquecer mas, como tudo de mau, é aquele que ficará para sempre dentro de nós. 15 – Pé-descalço – Esta foto poderia ter como comentário – NO COMMENTS – mas achei por bem deixar uma última nota. Como o nosso amigo Alexandre “das” Rosas nos disse um dia: “Vocês são uns pé-descalços”- referindo-se ao tipo de vida e viagens que fazemos, nada melhor que esta fotografia tirada enquanto a Tanya, no chão da fronteira entre o Turquemenistão e o Uzbequistão, descansava, para descrever na perfeição aquilo que foram os últimos 500 quilómetros em termos de higiene. Sim, somos “turistas” pé-descalços, mas só assim as viagens nos dão um gozo enorme!