01 – Falar Português – Há muito que não víamos uma bandeira portuguesa ser erguida, que não fosse a que levamos nas nossas bicicletas. Foi engraçado chegar a Antalya e, no segundo dia, vermos uma pessoa com o vermelho e verde na mão, explicando num português “desenrascado” o que o grupo poderia ver! Ao interpelarmos as pessoas, foi bom ouvirmos falar na nossa língua após tantos meses de viagem! O mais curioso, porém, foi repararmos que algumas pessoas nos conheciam, depois de nos terem visto na televisão ou lido sobre nós!
02 – Para Este! – Depois de toda a dança dos vistos pelas embaixadas em Trabzon e em Ankara, voltámos a pegar nas bicicletas e partimos para o este da Turquia, a parte menos turística e aquela na qual, neste momento, se sente mais tensão política, já que é casa do curdos que lutam há muitos anos pela independência. A Embaixada Portuguesa avisou-nos que era uma zona sensível e outras pessoas tentaram demover-nos da ideia, mas a decisão estava tomada! Para Este!
03 – Foi você que pediu? – Não é raro ouvir-se, quando nos passeamos pelas ruas, mercados e os labirintos que formam os centros das cidades, alguém repetir a palavra “chai”enquanto bate com uns pratos de metal, chamando a atenção. O homem, sempre homem, que passa com uma bandeja cheia de copos de chá, vai entregando à medida que os clientes aparecem e mais tarde passa recolhendo os copos e o dinheiro! É assim que o negócio se faz, é assim a vida na Turquia, pregando bem alto o que se vende e confiando a quem se deixa, porque todos se conhecem e, mesmo que não se conheça, nunca lhes passará pela cabeça que possam ser “roubados”!
04 – Quarto com vista… – O melhor lugar onde montámos a tenda até hoje! O dia correu às mil maravilhas! O sol sempre presente, a simpatia das pessoas a cada esquina, a paisagem lindíssima! No final do dia, apesar de podermos tentar dormir numa casa, decidimos acampar e foi então que esta pequena “cabana” nos surgiu no caminho! Um hotel de 5 estrelas, digamos, com uma vista incrível, num sítio onde poucos carros circulavam! À noite, em vez do fogão, apanhámos madeira seca e fizemos uma fogueira, onde cozinhámos e nos aquecemos! A “cabana” tremia um bocado, é verdade, mas no dia seguinte continuava ali, bem segura!
05 – Pequeno-almoço –Percebemos agora o perigo que nos falaram em relação ao leste da Turquia. Deveriam estar a falar no perigo de encontrarmos pessoas demasiado simpáticas, acolhedoras, hospitaleiras e que nos dariam pequenos-almoços fantásticos, como este, numa pequena aldeia onde parámos para encher as garrafas de água e acabámos sentados com as mulheres a fazer e a comer pão, sempre acompanhado de chá, claro! A conversa prolongou-se por mais de duas horas e no fim, já queriam que dormíssemos ali mesmo e não continuássemos viagem!
06 – Sanliurfa – Sanliurfa, ou Urfa, como é normalmente chamada, é uma cidade acolhedora, bonita e centro de peregrinação para os muçulmanos, por ter sido ali que viveu Abraão. A cidade recebe muito turismo, maioritariamente de países muçulmanos que alimentam sem nunca parar os peixes sagrados das piscinas de Golbasi. As pessoas enchem as esplanadas, os jardins e a cidade enche-se com as cores dos fatos tradicionais das mulheres e dos lenços violeta que os homens usam na cabeça. À noite existem cafés com música ao vivo, animação e muita gente nas ruas. Bem diferente daquilo que, até agora, havíamos passado no leste.
07 – Na rua – Na Turquia, mais do que os museus, os monumentos, ou outra atração, gostamos de estar na rua. É aí que tudo acontece, que se vive, que se aprende, que se conhece, que se veem coisas que nunca antes imaginávamos ver, que nos sentamos e deixamos passar uma ou duas horas e nos apercebemos que tudo é diferente. Neste pequeno largo no bazar central, uma série de máquinas de costura dão vida a novas peças de roupa, a arranjos de última hora ou a autênticas obras de arte. Pelo meio, as pessoas não param, os chás não deixam de passar, os conhecimentos não se deixam de fazer e a vida não deixa de acontecer!
08 – Hospitalidade! – Parámos só para comprar pão e acabámos sentados numa mesa posta especialmente para nós, com uma salada preparada, com uns salgados vegetarianos e muita alegria, fotografias e conversa! Fomos ficando e pelo meio de convites para pernoitar, a laranjada era servida, os bolos iam aparecendo e até os trabalhos de casa para a disciplina de inglês, ajudámos a fazer! No fim, mais uma família, mais uma despedida, mais um lugar onde, se quiséssemos, teríamos ficado 15 dias!
09 – Mulheres – As mulheres, infelizmente, continuam a ser um ser menor para a maior parte das sociedades e é nas zonas rurais que mais notamos. Apesar de todas as desculpas dadas: que é para as protegerem, que se cobre aquilo que mais gostamos, etc., continuamos a ter a certeza que estes países vão demorar muito tempo a mudar. Muito por culpa dos homens, é verdade, mas talvez mais por culpa das mulheres, que se acomodam, que dizem que assim tem de ser e que se veem, realmente, inferiores. A falta de formação é a principal razão de tal atraso. Enquanto continuar assim, por interesse de muitos homens, elas continuarão a ocupar o…lugar da carga.
10 – Iraque – Foi a primeira vez que nos sentimos mesmo próximos de um país que nos fascina, por todas as razões: históricas ou bélicas, há muitos anos. Faltam só 344 quilómetros e parece que ainda estamos tão longe. A ideia de estarmos tão próximos de países destes, que só lemos pelas piores razões e que só conhecemos pela televisão, é que nos faz acreditar que andamos mesmo em viagem e longe, bem longe de casa! A sensação é única e estranha ao mesmo tempo! Um misto entre alegria e adrenalina!
11 – De Boleia – A semana que passámos à espera duma encomenda que chegou de Portugal, atrasou-nos os planos todos de entrada nos próximos países. O vento de frente não ajudava naquele dia que deveria ser tão especial: o aniversário da Tanya! Sabíamos que não chegaríamos a Mardin, o nosso destino, naquele dia e que não poderíamos festejar de alguma maneira com um bolinho, por mais insignificante que fosse. Parámos para ajudar dois rapazes na luta com uma carrinha que não queria andar. Por fim, levou a melhor, não andou mesmo! Continuámos a pedalar e uns quilómetros à frente, os mesmos rapazes passavam por nós em tom de festa e disseram-nos para montarmos, que nos levavam ao nosso destino! Santos! À noite, já em casa da família a quem batemos à porta, a Tanya foi surpreendida com uma fatia de bolo com a palavra “Parabéns”, escrita em português!
12 – Mardin – Mardin é uma cidade histórica, lindíssima e que fica bem lá em cima, no topo da montanha. Com as suas casas em tom pastel que se amontoam umas em cima das outras e com as inúmeras madraças transformadas em associações, esta cidade que junta em paz a comunidade muçulmana e cristã, é de passagem obrigatória para qualquer pessoa que visite o leste da Turquia. Aqui fala-se curso e se se perguntar a alguém de que nacionalidade é, turco não é de certeza: Sou curdo – afirmam prontamente. Com o pôr-do-sol a cidade ganha sempre mais beleza, com as silhuetas dos minaretes que sobem alto, com vista para as planícies da Mesopotâmia.
13 – Cor – Mais do que em qualquer outro sítio ou cidade no país, é no parte curda da Turquia que a cor ganha mais vida. Os tecidos brilhantes que cobrem a cabeça e o corpo das mulheres e os lenços violeta que cobrem a cabeça dos homens estão por todo o lado, em todas as bancas dos mercados e são comprados em quantidades industriais pelas pessoas que passam. Apesar de muito conservadora, esta zona da Turquia é o centro da cor e do brilho!
14 – Roubo – Já tínhamos tido vários atrasos na Turquia e claro que não poderíamos sair do país sem que mais um acontecesse. Chegámos a Cizre, a última cidade antes de entrar no Iraque e horas depois de colocarmos as bicicletas no prédio e de termos tomado o nosso merecido duche, uns quaisquer “mânfios” entraram no prédio e roubaram-nos algumas peças das bicicletas. Se em relação a algumas podemos bem continuar sem elas ou substituí-las sem dificuldade, com outras, como o selim e o espigão do mesmo, é impossível continuar sem. Percorremos várias lojas da “especialidade”, mas não encontrámos nada que nos pudesse desenrascar. Chamámos a polícia, mas nada. Tentámos ver nas câmaras de vigilância e sim, vemos que foram dois rapazes mas, e então? Agora, estamos aqui, na última cidade, à espera que a Specialized, a empresa que nos apoia, nos envie material novo! Têm sido incansáveis! Obrigado!