Helsínquia é o local mais lógico, e acessível, para se iniciar a descoberta da Finlândia.
País longo, de mil lagos, de florestas sem fim que cobrem 70 por cento dos seus 338.145 km 2, uma área semelhante à Alemanha mas com outra disposição geográfica, a caminho do Ártico.
Antigo casario de madeira fundado em meados do século XVI, Helsínquia destronou Turku como capital no início do século XIX (1812), três anos após o fim do prolongado domínio sueco e o início da determinante presença da Rússia czarista, até à independência do país em Dezembro de 1917. Foi a partir de então que a cidade cresceu à sombra dos seus grandes edifícios de granito, planeada ao estilo de um império que reflectia o poder da Rússia, e do czar. Porque Helsínquia, como a Finlândia, está profundamente marcada pela longa presença estrangeira. As línguas oficiais são o finlandês, de origem fino-úgrica, e o sueco. Todas as indicações estão nos dois idiomas, existem teatros só em sueco, ou universidades em sueco. Seis por cento da população ainda fala este idioma. E se 98 por cento professa a religião luterana, dois por cento declaram-se ortodoxos.
Uma herança que também incutiu a este povo um particular sentido de pragmatismo e uma natural disciplina.
A memória do “estrangeiro” é porém impositiva. As praças desta aprazível cidade, com uma costa recortada e povoada por 300 ilhas, recordam São Petersburgo… A começar pela Praça Senaatintori, a Praça do Senado, amplo local onde se ergue a grande Catedral luterana e, no centro, emerge a estátua do czar russo Alexandre II, tributo à época em que a Finlândia assumiu o estatuto de Grão-Ducado autónomo do império czarista. Para além da Catedral, os três restantes grandes edifícios – Palácio do Governo, o principal edifício da Universidade de Helsínquia e a Livraria da Finlândia – foram desenhados pelo arquitecto alemão Carl Ludwig Engel, entre 1822 e 1852. É o principal local de encontro da população, que depois calcorreia a Aleksanterinkatu, uma das principais ruas comerciais da cidade.
Povoam-na 500 mil habitantes, um milhão na área metropolitana. E a mentalidade nórdica está bem presente. Os hábitos são ancestrais: cinco milhões de habitantes e dois milhões de saunas, o lazer mais apetecido dos finlandeses. Quase todos possuem uma casa de campo, de preferência isolada, de preferência junto a um lago, para o mergulho retemperador depois dos vapores da sauna que purifica o corpo e a mente.
Helsínquia é uma cidade aberta, plana, feita à dimensão humana, com velhos barcos de madeira feitos bar e restaurante, e belos exemplos de arquitectura moderna. Aqui, podem ser apreciadas duas obras de referência do famoso arquitecto e designer finlandês Alvar Aalto (1898-1976), o Auditório Finlândia e o campus da Universidade de Tecnologia de Helsínquia.
Nas principais cidades cada bairro possui uma biblioteca pública, com acesso à internet.
O ensino é gratuito e cerca de 38 mil estudantes frequentam a universidade de Helsínquia, seis mil de origem estrangeira.
E pode-se optar-se pelo ensino em finlandês, em sueco ou em inglês. O salário médio ronda os 2 500 euros (moeda oficial), os impostos são elevados e jantar fora pode sair caro, no mínimo 20 a 25 euros, até somas mais exorbitantes. E como os finlandeses também gostam de conviver, o consumo de bebidas alcoólicas é estritamente controlado pelo Estado. A famosa vodka Koskenkorva não é fácil de descobrir… Ainda no centro histórico, junto aos barcos que navegam até às ilhas mais próximas ou zarpam para Tallinn ou Estocolmo, frente ao edifício azul da Câmara Municipal, fica a Praça do Mercado, que funciona desde manhã cedo até às 17h30. Para além dos diversos produtos alimentares, sobressaem as peças de artesanato, as recordações, e em tendas próprias degusta-se a típica gastronomia local, incluindo a deliciosa sopa de salmão.
O posto de turismo fica nas imediações, com muitas sugestões: por exemplo, a descoberta dos mais importantes edifícios de Arte Nova, porque Helsínquia também é uma cidade modernista. A estação de caminhos-de-ferro, com a sua torre do relógio, é um dos símbolos da cidade… Obrigatória a passagem pelo Esplanadi Park, o “coração verde de Helsínquia”, com os seus restaurantes decorados com ferro e vidro e onde desponta a estátua de J. L. Runeberg, poeta nacional finlandês mas de origem sueca. É dos locais mais frequentados pelo crescente número de turistas. Nos longos dias de Verão, e de Sol, a população sai à rua, ocupa as esplanadas, os parques, ou zarpa nos seus barcos particulares. Milhares de iates para vários gostos e condições estão ancorados nos meses mais quentes nas inúmeras marinas encostadas à cidade. Durante o longo e duro Inverno, são recolhidos para terra, porque a água do mar ainda congela por estas latitudes.
OS TRÊS S
Há três palavras-chave que definem a Finlândia, o seu povo. Sibelius, Sauna e Sisu, uma espécie de força de carácter e também de alguma inflexibilidade que caracteriza este povo. Os três S, que podem ser facilmente detectados pela cidade. No belo Parque Sibelius, o grande compositor do país (1865-1957), nas saunas disponíveis em muitos locais públicos, no Sisu, uma espécie de determinação em enfrentar um quotidiano e uma memória muitas vezes agrestes. Ou a força de vontade patente no Estádio Olímpico, construído em 1938, que à entrada recorda os grandes nomes do atletismo finlandês, Paavo Nurmi ou Lasse Viren… A perda do território da Carélia do Sul para a actual Rússia após a Segunda Guerra Mundial, e o êxodo populacional que se seguiu, são feridas ainda abertas na memória colectiva. Mas a Finlândia é dos países que melhor conhece, e analisa, o seu grande vizinho, e as relações têm sido cordiais. E não apenas pelo facto de 100 por cento do gás natural consumido no país ser proveniente da Rússia.
Helsínquia é um pequeno encanto. Não é sumptuosa, mas particularmente acolhedora. E de seguida, resta partir em busca da magia da “Finlândia profunda” e, porque não, dos países que a rodeiam e que vincaram decisivamente o seu destino.
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