Machistas, misóginos e adeptos do patriarcalismo retorcem-se ao ver pela primeira vez na história uma mulher como Arcebispa de Cantuária – Sarah Mullally de 64 anos – a quem compete pastorear toda a comunidade anglicana mundial. Note-se que a ordenação de mulheres como pastoras nesta igreja começou em meados do século passado.
Diz-nos a investigadora Lidice Meyer: “A primeira mulher ordenada foi Florence Li Tim-Oi em Hong Kong, em 1944, em plena Segunda Guerra. Hong Kong e Macau foram as primeiras províncias a permitir oficialmente a ordenação de mulheres ao sacerdócio. Na década de 70, outras províncias começaram gradualmente a aprovar a ordenação feminina até que em 12 de março de 1994 a Igreja da Inglaterra ordenou as suas primeiras 32 pastoras na Catedral de Bristol. (…) Atualmente, a maioria das províncias da Comunhão Anglicana ordena mulheres, sendo que em 2019, pela primeira vez na Igreja da Inglaterra, foram ordenadas mais mulheres do que homens ao sacerdócio.”
Fundada em 1534, por iniciativa do rei Henrique VIII, a Igreja Anglicana tornou-se pioneira entre os movimentos da Reforma Protestante, e Meyer destaca a ação da rainha Elizabeth I, que a consolidou e estimulou “a restituição do valor da mulher em igualdade ao do homem na condução do culto a Deus.”
Na Igreja de Inglaterra sempre coexistiram dois ramos, um deles mais próximo do protestantismo, de estilo mais evangélico, denominado “Low Church”, progressista no estilo mas mais conservador na teologia. O outro é chamado “High Church”, de estilo anglo-católico, que se divide entre progressistas e conservadores. Os sucessivos arcebispos de Cantuária sempre tiveram de lidar com esta tensão interna para manter a unidade da igreja.
Setores católicos mostram-se inconformados quando, fazendo tábua rasa do movimento sinodal, enterraram a ordenação de mulheres ao sacerdócio, mantendo a ideia de que uma mulher vale menos do que um homem, e a teoria de que Jesus Cristo não chamou mulheres para o grupo dos doze do colégio apostólico que o acompanhou ao longo dos três anos e meio do seu ministério público. Mas tal argumento é profundamente falacioso já que era impossível aos costumes daquele tempo, cultura e geografia um grupo de homens e mulheres andarem de terra em terra misturados. Por essa ordem de ideias o papa não poderia viajar de avião porque Jesus nunca o fez…
Por outro lado, não existe um batismo para homens e outro para mulheres, como não há um para pretos e outro para brancos: “Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito.” (1 Coríntios 12:13).
Além de que S. Paulo alertou para o facto de que em Cristo caíram todas as barreiras culturais de separação entre seres humanos, como a do nível social, da tradição religiosa ou do género: “Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gálatas 3:28). E reforça: “Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo, e em todos.” (Colossenses 3:11).
O frei Bento Domingues cita o grande historiador judeu, Flávio Josefo, nas Antiguidades Judaicas, quando afirma, por duas vezes: “o testemunho das mulheres não deve ser aceite por causa da fragilidade e presunção do seu sexo.” E noutra passagem repete o conceito: “das mulheres não se pode aceitar nada como certo, por causa da ligeireza e temeridade do seu sexo.”
Na verdade, uma mulher em posição de poder ou autoridade ainda incomoda muita gente. Já era tempo de colocar os dois pés no mundo de hoje. E isto também vale para o espetro religioso. Como dizia o outro, habituem-se.
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