“Não ligo nada ao Natal!” é um slogan publicitário lançado nesta quadra do ano por uma operadora de telecomunicações. Não sei quem o concebeu mas roça quase a genialidade. Nos vários vídeos da campanha os indivíduos que afirmam desvalorizar a época natalícia surgem depois empenhadíssimos em vivê-la nalguma das suas dimensões, revelando assim uma discrepância entre o que dizem e o que sentem e fazem, como se o Natal fosse uma espécie de íman inevitável.
Claro que por detrás disto está o espectro do interesse comercial. Mas acredito que há mesmo quem não tenha prazer na época ou não goste mesmo do Natal.
Eu, que gosto do Natal, faço um esforço para compreender quem fala e sente assim, até por que todos sabemos que há muitas razões para que a quadra natalícia se revista de sombras em consequência das vicissitudes e deceções da vida.
Há episódios que podem muito bem cobrir de nuvens negras uma pessoa nesta altura. Por exemplo, uma perda recente, seja ela um luto ou um divórcio ou a quebra duma relação, um desemprego que acabou de acontecer, um diagnóstico de saúde complicado e recente, uma desilusão forte, um desastre financeiro iminente, um despejo de casa, uma traição. Motivos não faltam.
Outras vezes é a memória de um ente querido que faleceu na véspera ou no dia de Natal do ano anterior, ou a primeira vez que se realiza a Consoada com uma cadeira vazia. Conheci uma pessoa que foi despedida na véspera de Natal, e outra cujo tio apareceu morto no rio justamente na manhã do dia de Natal.
Visto que o Natal é entendido muitas vezes como uma reunião anual da família, as lembranças tristes que ainda pesam emocionalmente acabam por perturbar o momento.
Mas talvez seja este o problema. É que a génese do Natal não deve ser confundida com o seu folclore ou as suas consequências. Se o sentido da quadra é apenas comer e beber, reunir a família, fazer compras e trocar presentes, porque não fazer isso noutra altura qualquer do ano?
Alguns ainda acham que se trata duma época tonta, de alegria artificial, de fraternidade plástica, de fantasias como o Pai Natal, de faz-de-conta que está tudo bem e o mundo é maravilhoso, nem que seja por causa das crianças.
Depois ainda há quem conheça o sentido do Natal mas não tenha fé e por isso tudo lhe parece descabido e apenas entra no jogo por causa dos miúdos. Mas para quem tem fé e conhece o verdadeiro sentido do Natal as coisas são diferentes.
Jesus, o Filho de Deus, veio a este mundo a fim de anunciar a vinda do seu reino, um reino espiritual, de justiça, paz e alegria. O tempo de Advento culmina justamente no Natal, que marca a entrada do Menino-Deus na história dos homens, trazendo salvação à humanidade e a esperança da vida eterna na presença de Deus.
Este facto nada tem que ver com o folclore natalício e a cultura da época, mas sim com o amor sacrificial de Deus expresso na entrega do Seu Filho a uma humanidade perdida nas trevas e a tropeçar constantemente nos seus próprios pés. De resto isso é bem visível hoje na mortandade da Ucrânia, Faixa de Gaza, Nigéria, Sudão, Norte de Moçambique e um pouco por todo este desvairado mundo que não cessa de se cobrir de sangue inocente.
É por isso que a mensagem de paz do Natal é cada vez mais actual, segundo o evangelista Lucas: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens” (2:14). Portanto, não distorçam o que foi dito. O propósito divino não é que haja paz entre os homens “de boa vontade”, como alguns afirmam. Não. O que foi dito é que haja “boa vontade entre os homens”. Todos eles, sem qualquer exceção.
Eu cá ligo muito ao Natal!
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