Não quero um PR em cuja palavra não possa confiar minimamente. Diz que nunca criará um partido a partir de Belém. Ainda em 2021 dizia, categoricamente, que “a democracia não precisa de militares”, e que lhe dessem uma corda para se enforcar se alguma vez fosse concorrer à Presidência… e depois mudou de ideias.
Não quero um PR reativo e não proativo. Por mais que disfarce, a verdade é que a resistência política de Marcelo à sua pessoa contribuiu, porventura de forma decisiva, para a decisão de se candidatar a Belém. Ele próprio o confessou publicamente nas entrelinhas.
Não quero um PR autoritário. A forma como lidou com os marinheiros do Mondego chamando-os à formatura para os repreender publicamente, como quem repreende um grupo de gaiatos, à frente das câmaras de televisão, apenas para compor a imagem do homem forte, à boa maneira militarista e populista, não augura nada de bom.
Não quero um PR que não seja confiável. O processo disciplinar que a Marinha moveu aos militares estava inquinado e por isso correu mal. Gouveia e Melo contornou as regras e partiu para uma punição de caráter vingativo.
Não quero um PR militar. Seria a menorização da nossa democracia e do regime civil em que vivemos desde a revisão constitucional de 1982, que acabou com a tutela militar do Conselho da Revolução. De resto, a figura tem suscitado sempre um servilismo mediático que tem tanto de irritante como de incompreensível e discriminatório. Não há comentador nem jornalista que não se refira a Gouveia e Melo como o “senhor almirante”, enquanto os outros candidatos são Marques Mendes, António José Seguro, André Ventura, etc.
Não quero um PR que seja um catavento ideológico. Depois de ir almoçar às escondidas com André Ventura, na mira de conquistar o apoio do Chega, e depois de perceber que o líder da extrema-direita não ia partilhar tal protagonismo com ele (nem com ninguém, como se sabe!), agora virou o leme para a esquerda, na tentativa de ir à segunda volta, a ponto de passar a reivindicar como modelo a figura de Mário Soares que já não está cá para se pronunciar, mas deve ter dado voltas no túmulo.
Não quero um PR que se insira numa narrativa mitológica. O sucesso do programa das vacinas não se deve a um homem só, nem de longe. Foi o chefe do Estado-Maior da Armada à época que o nomeou para coordenar uma equipa que desenvolveu essa missão. É bom lembrar que ele mesmo atribuiu o sucesso da campanha de vacinação a todo o povo português.
Não quero um PR messiânico. Detesto figuras messiânicas, salvadores da pátria, sejam eles Ventura, Gouveia e Melo ou qualquer outro. A velha pecha lusa configurada historicamente em D. Sebastião volta a atacar.
Não quero um PR da aparência em vez da essência. Enquanto responsável terá mandado pintar os navios atracados no Alfeite só de um dos lados, aquele que dava para o cais, a fim de impressionar o então chefe do estado-maior numa visita à base naval. Isto diz tudo sobre a pessoa.
Não quero um PR excessivamente nervoso. Segundo titulava o Jornal de Negócios, Gouveia e Melo referia-se à polémica levantada pelo Expresso, desta forma: “Fiquei danado com o título do artigo” (destaque nosso). Quem se exalta assim tanto com uma notícia da imprensa livre, provavelmente estará a um passo de a querer amordaçar se e quando chegar ao poder, que é o sonho de todos os ditadores.
Parece-me, portanto, existir um conjunto de boas razões para não votar em Gouveia e Melo para a Presidência da República. As viúvas do salazarismo, os populistas e quem não se dá ao trabalho de pensar e de aprender com a História, acharão que estou profundamente errado e que vale a pena levar Gouveia e Melo a Belém em ombros, pois “o País precisa é de um tipo teso que ponha isto tudo na ordem”. O problema é que Ventura diz o mesmo, e se calhar com mais convicção e impacto.
Mas enquanto os portugueses não tomarem em mãos o seu destino, não intervirem cívica e politicamente de forma interessada, informada e ativa, continuando a descansar passivamente no pessoal político que aparece, a sua vida dificilmente melhora.
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