“Nós vendemos personalidade, não vendemos pornografia”. A frase está num guião que foi parar às mãos de uma amiga através de um anúncio de trabalho. A empresa oferece mais de 10 mil euros por mês a quem se queira fazer passar por celebridades nos chats da OnlyFans, uma plataforma que é uma espécie de Instagram erótico onde se paga para aceder aos conteúdos daqueles que seguimos. Dito assim, parece tentador, mas quando a minha amiga começou a perceber o que significava ficar no lugar das que dão a sua imagem mas não querem perder tempo a alimentar relações virtuais, rapidamente desistiu da ideia. “Acho que ia fritar da cabeça”, disse-me enquanto tomávamos um café e ela me punha a par deste maravilhoso mundo novo da prostituição emocional virtual.
Explicaram-lhe que ia ter de tirar notas sobre as conversas que tinha com cada um dos clientes e tinha de estudar a fundo cada uma das personalidades que ia substituir nestes chats. Não podia haver qualquer erro que denunciasse o logro. É suposto quem paga acreditar que está a falar com as modelos, atrizes e cantoras que recebem (muito) dinheiro para partilhar imagens de partes do seu corpo ou vídeos de teor sexual.
O guião apresenta os princípios básicos deste trabalho: “Concentra-te em construir relações, não só em vender”; “conhece o teu cliente”, “os clientes gastam mais quando estão excitados ou emocionalmente ligados”. E as estratégias base: “começa por os conhecer”, “constrói uma ligação emocional”, “deixa-os iniciar os tópicos sexuais”, “vende gradualmente, aumenta a excitação até eles pediram por mais”.
O objetivo, explica-se, é tentar vender um mínimo de 100 dólares por minuto. Para isso, nota a empresa, é importante “não ser robótico, tratá-los como alguém que se está a conhecer” e, claro, “tirar notas detalhadas sobre os clientes para dar continuidade”. A importância da “continuidade” é apontada várias vezes neste guião sobre como atrair e enredar homens numa teia emocional que os faça gastar o mais possível para manter um contacto virtual com alguém que nem sequer é quem eles pensam que é.
Depois de uma rápida pesquisa, a minha amiga ficou a saber que há cada vez mais empresas a recrutar pessoas com um nível elevado de inglês para estas tarefas. Num dos sites, explica-se que o trabalho começa com duas a quatro semanas não pagas de uma espécie de estágio, onde se tem uma formação sobre “chatting psychology” para se aprender a “trocar mensagens de teor sexual com um subscritor e compreender a psicologia do subscritor” destes conteúdos.
Em vários destes casos, estas agências pedem, além do inglês fluente, qualificações em psicologia, comunicação e marketing para, como resume a minha amiga, “representar as celebridades influencers que não querem queimar o cérebro a falar com pessoas”.
Por momentos, hesitou sobre se deveria ou não aceitar o trabalho. A ideia de poder trabalhar à noite para poder passar mais tempo com o filho de dia era tentadora. A renda está cada vez mais cara. E, para quem trabalha na área da comunicação, é cada vez mais difícil encontrar trabalho, muito menos com níveis de rendimento como este.
Afinal, era só fazer conversa com homens que nunca teria de conhecer e que também nunca saberiam quem é. Mas, quando começou a pensar melhor, a minha amiga percebeu que ela era também a mercadoria, mesmo que não fosse seu o corpo a ser exibido, mesmo que estivesse a fingir ser quem não era. E até a ideia de que este trabalho a poderia deixar mais disponível para acompanhar o filho começou, à medida que pensava mais no assunto, a parecer enganadora. Ia ter de estar disponível muitas horas por dia para tentar envolver emocionalmente estranhos, garantindo que não se esquecia de nada importante, que não os confundia e que não era apanhada em falso.
Imagino que muito em breve estes trabalhos de social media chatter se tornem completamente obsoletos. À medida que a Inteligência Artificial avança, é fácil imaginar que deixarão de ser precisas pessoas para enganar quem segue estes perfis.
Até lá, esta nova profissão desenvolve-se na economia da atenção em que vivemos. As pessoas são a mercadoria. O seu tempo, os seus dados, a sua imagem. Somos explorados e exploradores, apanhados num scroll infinito, que nos deixa viciados, desligados do mundo e cada vez mais sozinhos. Tão sozinhos, que isso nos torna ainda mais dependentes desse mundo virtual e artificial.
E toda esta vida virtual, que cada vez mais toma conta do que somos e fazemos, acontece em plataformas treinadas para nos manter ligados, capazes de prever o que vamos querer ou fazer a seguir, por causa dos dados que lhes fornecemos, e com regras que não temos maneira de controlar ou sequer escrutinar.
Não tenho nenhuma certeza sobre qual será a melhor forma de lidar com tudo isto. Mas há uma coisa que intuo: estamos a lidar com quem sabe tudo de nós, é bom começarmos a perceber como estas coisas funcionam.
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