Uma questão que norteia esta discussão sobre a violência é encontrar o verdadeiro culpado: é o indivíduo ou a sociedade? O sujeito age seguindo as suas pulsões, comandadas essencialmente por fatores bio-fisiológico-psicológicos ou, ao contrário, age de acordo com as normas sociais, culturais e religiosas estabelecidas pela sociedade? Ou haverá uma combinação entre estes dois fatores?
Uma primeira tarefa laboriosa é a própria definição de violência. Esta pode ser definida como toda e qualquer forma de privação de direitos, individuais e coletivos. É uma ação que gera, de maneira intencional, danos físicos ou intimidação moral ao indivíduo e/ou ao grupo. Pode implicar traumas, danos psíquico-psicológicos ou até mesmo a morte; é nesta linha que o conhecido filósofo Michel Foucault define violência – como o resultado visível da destruição do “outro”.
Entre os inúmeros tipos de violência que existem, gostaria de destacar os predominantes e com maior dano no indivíduo (quase sempre a mulher) e na sociedade:
1. Doméstica. Segundo a filósofa Hannah Arendt, a casa (espaço privado) é idealizada como (o) lugar privilegiado de proteção, acolhimento, segurança, aconchego e amor. No entanto, o espaço doméstico é o locus por excelência da violência – torna-se um espaço de risco, de traumas e até mesmo de morte.
2. Psicológica. Há uma ideia generalizada de que a violência só se caracteriza por agressões físicas (visíveis), mas também existe a (invisível) violência psicológica, que causa um enorme trauma individual. É um processo de silenciamento, que mina a autoestima, destrói o ego, a personalidade; manifesta-se por meio de ofensas morais e humilhação, chacota sobre o corpo, atitudes e comportamentos considerados fora do “padrão”. Essa ação de violência provoca medo, pânico e temor, traduzidos na privação da liberdade, impotência e perda de autonomia como pessoa.
3. Gênero-sexual. É definida como insinuação, tentativa e ato sexual por meio da coerção e violência física. As consequências incluem problemas de saúde, física e mental-psicológica, gravidezes indesejadas e infeções sexualmente transmissíveis.
4. Virtual/online (cyberbullying). A internet é a grande responsável por esta forma de violência, com forte incidência entre jovens-adolescentes. Esta é caracterizada pela utilização da internet e das redes sociais para enviar, partilhar, reproduzir e divulgar mensagens de texto, fotos e vídeos, com o propósito de perseguir, assustar, insultar, humilhar, envergonhar, difamar, provocar danos morais ou financeiros e causar constrangimentos à pessoa visada (a vítima). No âmbito sexual (a big issue), predominam as seguintes formas: a) sexting – mensagens escritas de conteúdo sexual; b) sextortion – chantagem, ameaça de publicar informação pessoal e conteúdo de caráter sexual, como forma de extorsão financeira ou exigir favores sexuais da vítima; c) grooming – processo de manipulação em que um adulto estabelece uma relação de confiança com uma criança ou adolescente, com a intenção de obter favores sexuais; d) revenge porn – após o fim de uma relação amorosa, e com fortíssima incidência nas mulheres, ocorre a partilha, divulgação ou publicação de imagens ou vídeos íntimos, com o objetivo de humilhar, chantagear ou vingar-se da ex. Esta prática constitui uma grave violação da privacidade, da intimidade e da dignidade da vítima, causando-lhe sérios danos psicológicos-emocionais e sociais.
Dada a impossibilidade de esgotar aqui uma problemática tão complexa, esta reflexão buscou apenas discutir e alertar para um fenómeno social que, presente em nossa sociedade, causa graves danos pessoais e coletivos. O tema exige atenção constante e debates pedagógicos, exigindo, sobretudo, o compromisso de todos de não praticar nenhuma forma de violência sobre o outro.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.