Hoje, amanhã ou para a semana, Trump está por tudo. Só quer fechar um acordo com o Irão — que não passa de uma base para futuros entendimentos — para tentar sair da trapalhada em que se meteu. Israel não abranda, o Irão faz tudo para protelar, o Paquistão e o Bahrain desdobram-se em viagens diplomáticas, e a última ideia é que as partes poderão assinar um documento virtual.
E memorando significa precisamente isso: uma nota de entendimento ou de lembrança. As partes aceitam negociar nos próximos 60 dias e só depois poderá surgir algo de concreto. Mas se não conseguem entender-se com um memorando, será que alguma vez conseguirão celebrar um acordo vinculativo? E que de especial tem este entendimento mínimo? Pouco: a garantia da navegabilidade do Estreito de Ormuz e o levantamento do bloqueio aos portos iranianos. Se haverá levantamento de sanções e devolução de fundos congelados, ninguém o sabe. Cada parte conta a sua própria fábula.
E tudo, ou quase tudo, começou com aquilo que, para já, não vai acontecer: um acordo para o Irão entregar o urânio enriquecido a 60%, o patamar mais difícil de atingir. Falta apenas uma pequena parte do trabalho para alcançar o grau militar — acima dos 90% —, algo que pode ser conseguido em dias ou semanas. Trump, na sua visão simplista, parece acreditar que este urânio está em estado sólido e disperso pelo terreno bombardeado. Será que ainda ninguém lhe explicou que, nesta fase de enriquecimento, o urânio se encontra sob a forma de gás (hexafluoreto de urânio), armazenado em recipientes próprios? E que pode estar distribuído por diversas localizações?
Em teoria, os iranianos, com acesso a alguns centrifugadores de alta velocidade, já poderiam ter atingido o grau militar nestes meses de confusão. Agora tudo se pretende resolver com um memorando, que seria também a parte mais fácil de alcançar numa negociação. Trata-se da fase inicial, em que as partes manifestam a intenção de resolver os seus diferendos. Mas será praticamente impossível de concretizar em 60 dias. Ou, eventualmente, em 60 meses. Ou nunca!
Nota Final: Por vontade própria e aqui, na Visão digital, decidi que esta seria a minha última coluna das Linhas Direitas. Agradeço a todos o acolhimento, em particular às duas direções da revista que autorizaram e à editora desta versão digital. Obrigado! Encontramo-nos no Bluesky e no Substack!
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