Não me lembro da maneira como soube que estava nos finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura. Alguns meses antes, soube por email que o meu romance fazia parte de uma primeira seleção. Fiquei agradado mas não pensei muito nisso, a matemática desaconselhava ilusões. Mas, depois, entre dez finalistas, quando tentei não pensar, falhei.
Essa dificuldade de me abstrair foi alimentada por tudo o que aceitei fazer: compareci no aeroporto à hora do voo que me pagaram para São Paulo, instalei-me no hotel com os outros finalistas e, à hora marcada, estava na receção, lavado, barbeado e penteado, à espera da carrinha que nos havia de levar à cerimónia. Era uma dessas carrinhas de nove lugares. Coubemos todos porque alguns dos finalistas moravam em São Paulo e iam pelos seus meios. A mistura de perfumes era ligeiramente enjoativa. No trânsito, falou-se de qualquer assunto aleatório, que não tocasse em opiniões acerca de quem poderia ganhar o prémio.
Fomos os primeiros a chegar a um lugar com arquitetura e plantas exóticas, onde empregados fardados recebiam instruções sobre como deveriam servir canapés em tabuleiros. As mesas estavam a ser postas. Uma mulher com auscultadores e microfone ficou aliviada por já termos chegado, menos um problema para ela. A estrearmos roupas muito diferentes daquelas que vestimos todos os dias, esperámos uma hora até que chegassem os primeiros convidados.
Os jornalistas não eram poucos e distinguiam-se com facilidade. Havia jornalistas de suplementos literários e de revistas sociais, a uns falava-se de uma maneira, a outros falava-se de outra. Essa ginástica não era difícil porque eles próprios falavam de formas diferentes. Havia os jornalistas da televisão, que nos apontavam um holofote aos olhos e que chamavam todas as atenções, e havia os outros, que nos escondiam num canto, onde sussurrávamos para um gravador.
Além disso, com um cálice na mão, tive conversas que nunca mais recordarei em toda a minha vida. Em rodas de pessoas de simpatia extrema, respondi a perguntas, partilhei risos ralos e agradeci os votos de boa sorte e as palavras daqueles que me agarravam no braço e diziam só para eu ouvir: acredito que você vai ganhar.
Não é fácil contradizer o otimismo dos brasileiros.
Então, senhoras e senhores, chegou o momento de anunciar os premiados. Um altifalante pediu silêncio. Disseram o nome do terceiro premiado e não era eu. Disseram o nome do segundo e não era eu. Disseram o nome do primeiro e não era eu.
Os jornalistas lançaram-se sobre o primeiro, transformaram-no num novelo de gente. Era sempre possível saber onde estava, levava essa confusão para onde ia. E foi como se uma luz se tivesse apagado sobre a cabeça dos que não ganharam. De repente, as pessoas deixaram de querer falar connosco. Se lhes dizíamos alguma coisa, não respondiam; se lhes sorríamos como antes, não sorriam de volta. Aos poucos, como se nos reconhecêssemos entre uma multidão de desconhecidos, os que não ganharam foram-se juntando. Quando pedíamos uma bebida, os empregados viravam-nos as costas. Éramos invisíveis.
Voltei ao hotel na primeira carrinha. As avenidas, o elevador, o corredor alcatifado, cheguei ao quarto, descalcei os sapatos apertados e fui para a varanda. Estava a mais de vinte andares de altura. Então, de repente, as luzes de São Paulo apagaram-se todas. A cidade desapareceu. Esse apagão não é uma conveniência metafórica, foi noticiado por toda a imprensa brasileira no dia seguinte. Para mim, naquela hora, foi um descanso que senti merecer.
Quem sou hoje olha para quem eu era nesse tempo e encontra-lhe enormes defeitos. Achando que tentava sobreviver, cometi muitos erros. Talvez aqueles com que não me voltei a cruzar acreditem que ainda sou o mesmo. Talvez a vida me dê oportunidade de me redimir perante esses olhares. Ou não, talvez a única redenção possível seja aquela que, em consciência, for capaz de dar a mim próprio.
Uma coisa é certa: se tivesse ganho esse prémio, não estava agora aqui. E eu gosto muito de estar aqui. O bom e o mau constroem-me todos os dias. Não se trata de uma desculpa de quem perdeu. A vida não aceita desculpas.