A 15 de janeiro de 2009, o comandante do voo 1549, amarou com sucesso no rio Hudson, em Nova Iorque, o Airbus A320 da US Airways, em que viajavam 154 pessoas, na sequência da paragem dos dois motores, em resultado da colisão com um bando de gansos. Passageiros e tripulação sobreviveram.
O comandante Chesley Sullenberger ficou para a História como um herói. Clint Eastwood realizou o filme Sully, que adaptou a sua autobiografia. Embora os acidentes de avião em geral permaneçam na nossa memória, dos tripulantes pouco ou nada sabemos. Neste caso, o filme aproximou-nos do protagonista, retratado como um homem confiante nas suas capacidades, mas humilde nas suas ações.
Como em qualquer acidente de avião, seguiu-se um inquérito e as ações do comandante foram escrutinadas com detalhe. Tal significou comparar as suas ações com os simuladores. A dúvida surgiu sobre se a sua opção havia sido a melhor, uma vez que os simuladores indicavam como ação preferencial o retorno ao aeroporto.
Mais recentemente, houve dois acidentes envolvendo aparelhos Boeing 737 MAX, o voo da Lion Air 610 a 29 de outubro de 2018 e o voo da Ethiopian Airlines 302 a 10 de março de 2019. A polémica foi intensa e só mais de cinco anos após os acidentes a Boeing aceitou a responsabilidade, assumindo que a causa foi uma falha no MCAS (o sistema de controlo de voo) e não erro dos pilotos.
Naturalmente, em caso de acidente ansiamos por respostas. Compreender se o erro foi técnico ou humano, se foi um infortúnio isolado ou se existe probabilidade de uma repetição, que cuidados a ter para evitar uma nova tragédia.
Mas ora que os algoritmos progressivamente saem do cockpit e invadem todos os trabalhos, nos sugerem revisões de documentos, diagnósticos e condutas, estaremos, todos nós, à beira de sermos constantemente avaliados por referência a uma máquina, que se apresenta como omnisciente?
Repetimos, nós e os líderes de bigtech, reguladores, comentadores, “o ser humano é central”. “A Inteligência Artificial alucina.” Como se de uma pessoa se tratasse e cada um de nós fosse o médico do sanatório que administra o calmante.
No intermédio, as ferramentas aí estão para sermos mais produtivos. Afinal, é rever as suas sugestões, ajustar, adicionar… e se falharmos… Bem, nesse caso o erro é nosso, que não revimos adequadamente. E é certamente.
Mas lentamente o nosso colega eloquente apresenta-se como indispensável. É rápido, quando não é instantâneo. Dispensamos ou precisamos menos de jovens colegas, que deveriam aprender connosco. Somos avaliados pela nossa capacidade de usar a nova tecnologia e penalizados por resistir à mudança…
Corremos o risco de algo que se apresenta como uma ferramenta silenciosamente nos transformar no bode expiatório do que corre menos bem.
Importa por isso realizar uma discussão sobre o que é o “controlo humano” e definir como avaliar o colaborador quando utiliza a Inteligência Artificial. E se, preferencialmente, tal discussão deveria ser liderada pelos nossos representantes eleitos, a nível nacional e comunitário, a demora expectável impõe que nas empresas esta discussão seja desde já promovida e realizada e sobretudo adaptada ao seu contexto específico, para um ambiente laboral digno e humano.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.