Intimidade. A nossa e a dos que nos são próximos. Tão preciosa. Orgulha-nos sermos íntimos dos nossos filhos, dos amigos. Um sinal de distinção, uma relação madura, onde se tem o privilégio de partilhar alegrias e dificuldades. Um espaço mental, mas também físico. A intimidade da nossa casa, do nosso quarto.
E ora, na era das plataformas, material de “conteúdos”. Get ready with me, qualquer coisa como entra no meu quarto, na minha casa de banho e vê-me a vestir-me, a pentear-me, a maquilhar-me para ir a uma festa, a um concerto ou até à escola. Partilho contigo a roupa de que gosto, as marcas que adoro, os cremes que não dispenso, o que estou a sentir e a pensar. Convidados a participar na intimidade das novas estrelas do século XXI, os influencers.
Luís XIV, o Rei Sol, também partilhava com a corte o seu levantar e o seu deitar. Uns quantos, distinguidos com tal honra, eram admitidos aos aposentos do rei e assistiam ao seu acordar, a ser lavado (apenas as mãos e a face… o banho era considerado perigoso para a saúde), penteado, barbeado, vestido e inclusive a usar o bacio. O ritual era um instrumento de poder, estabelecia uma hierarquia dentro da corte. Indicava quem, naquele momento, beneficiava do favor do rei.
Também hoje a intimidade tem valor patrimonial. Mil visualizações no YouTube geram entre dez e 30 euros. É uma corrida para gerar conteúdos, ganhar seguidores, e, assim, estabelecer parcerias com marcas. Ofertas em dinheiro e produtos. Para alguns, é muito lucrativo e estão dispostos a sacrificar a sua intimidade e a dos filhos em prol de aumentar a sua rede de seguidores. Partilham-se birras, intervenções cirúrgicas, a primeira menstruação, acidentes. A criança como “conteúdo”. Alguns assumem o papel com grande mestria, “miniadultos” com rotinas de tratamento facial aos 7 ou 8 anos de idade… outros ainda mais pequenos. Dançam, desfilam… partilham com o seguidor a sua “ternura”.
A lei proíbe o trabalho infantil. Regula o trabalho como ator e modelo, mas o fenómeno dos kid influencers ainda lhe escapa.
Nos Estados Unidos da América (sempre na crista da onda…) surgem os primeiros processos judiciais de filhos contra os pais, que expuseram a sua infância na net. A luta por eliminar registos, a dor causada pelas mensagens recebidas e lidas por crianças e jovens sem maturidade para gerir a exposição pública e os abusos que muitas vezes lhe estão associados. O stresse de verem os detalhes da sua vida expostos online, de uma nota escolar à primeira depilação patrocinada por uma marca.
Também surgem as primeiras tentativas de regular a partilha dos lucros com os filhos menores, obrigando, no caso do estado da Califórnia, a depositar num trust (uma conta dedicada) 15% dos lucros gerados, quando a criança participa em, pelo menos, 30% do conteúdo (valor a que a criança poderá aceder aos 18 anos). Intuitivamente, censuramos estes pais, como censuramos os pais do Michael Jackson ou do Macaulay Culkin (o Kevin do Sozinho em Casa), mas, todos os Natais, revimos o Sozinho em Casa… Parecemos incapazes de resistir ao encanto dos miúdos, mesmo sabendo que, entre o fascínio da fama e os efeitos que ela tem a longo prazo nas crianças, é difícil encontrar o equilíbrio.
Se, afinal, já todos concordamos que as redes sociais são especialmente perniciosas para os menores de 16 anos, como aceitar com ligeireza que o conteúdo das mesmas sejam garotos pequenos, sem quaisquer direitos nem salvaguardas? Importa, por isso, estabelecer limites legais que protejam a criança do nosso fascínio.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.