A crise da habitação, a fragilidade dos serviços públicos, falta de professores, falta de médicos, a crise inflacionária… São tantos os problemas deste país, que me parece ridículo o foco constante e preocupante com a comunidade LGBT.
Na primavera de 2026, a Assembleia da República aprovou projetos de lei propostos pelo PSD, Chega e CDS-PP que alteram as regras sobre a identidade de género nas escolas e que proíbem expressamente o hastear da bandeira LGBT+, ou de qualquer outro movimento social e político, em edifícios públicos.
Felizmente, António José Seguro, Presidente da República, vetou entretanto este diploma, devolvendo-o ao Parlamento por considerar que esta proibição colocava no mesmo plano causas humanitárias e posições político-partidárias.
Ainda assim, a própria aprovação inicial destas medidas exige, impreterivelmente, uma reflexão da nossa parte.
Sejamos sinceros, já algum de nós foi impactado negativamente pelo hastear de uma bandeira colorida? Já vos feriu os olhos? Ou já alguém vos obrigou a mudar de género? Como é óbvio, não. Isto não é um problema real nem relevante para o dia a dia dos portugueses. Na verdade, o verdadeiro problema surge quando os direitos e a liberdade de toda esta comunidade deixam de ser respeitados e são colocados em causa por quem nos dá voz a todos. Aí sim, estamos mal!
Um partido criado logo após o 25 de Abril para fundar e guiar a nossa democracia, e que deveria defender os direitos de todos, o respeito pelas minorias e, acima de tudo, a liberdade de expressão, falha miseravelmente quando cede à pressão para proibir símbolos e restringir direitos de identidade. Ao alinhar nesta lógica, afasta-se da matriz de tolerância e falha na defesa da pluralidade, esquecendo que a liberdade de expressão serve, precisamente, para garantir que as vozes e as lutas das minorias não são silenciadas ou apagadas do mapa.
Proibir uma bandeira no espaço público não resolve nenhuma das crises estruturais do País, mas retira oxigénio à liberdade de expressão e à segurança de quem já tem de lutar todos os dias para ser respeitado. Quando escolhemos esconder a diversidade em vez de a proteger, estamos a sinalizar a exclusão, a normalizar o preconceito, a silenciar a história e a criar uma ilusão de que vivemos numa sociedade utopicamente monolítica…
No fundo, esta questão ultrapassa partidos e debates ideológicos. Trata-se de humanismo. Trata-se da capacidade de reconhecermos a dignidade de cada pessoa e de compreendermos que todos merecem viver com respeito, segurança e liberdade. Uma sociedade verdadeiramente humana não mede o valor dos seus cidadãos pela sua orientação sexual, identidade de género, origem ou crenças. Pelo contrário, é avaliada pela forma como trata aqueles que são diferentes ou pertencem a grupos minoritários. Defender os direitos e a visibilidade de uma comunidade não retira direitos a ninguém, apenas garante que mais pessoas possam viver plenamente e sem medo. Ao esquecermos este princípio, deixamos de ver pessoas e passamos a ver apenas rótulos. E é precisamente aí que uma sociedade começa a perder aquilo que tem de mais valioso: o seu lado humano.
Não criemos distrações, não esqueçamos os reais problemas, aqueles que assolam quem escolhe Portugal todos os dias. Lutemos por um Portugal livre, por um país onde todos se sentem livres para serem quem são, em vez de criarmos mais uma gaiola no mundo.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.