
Emmanuel Wino
Soube da notícia como um golpe, uma pancada. Preso num longo voo não acompanhei as breaking news, o desenrolar da tragédia mais ou menos em direto. Liguei o telefone no aeroporto e um SMS dizia-me que “o mundo é um sítio extremamente horrível”, só assim, sem mais. Quando um qualquer site de notícias se iluminou finalmente no ecrã recebi o horror de chofre: “Mais de cem mortos em onda de atentados em Paris”. Difícil de interiorizar.
Ainda em choque, cheguei à parte do concerto «de uma banda americana» no Bataclan e tive curiosidade em perceber de que banda se tratava. Quando soube que eram os Eagles of Death Metal confesso que tive alguma vergonha, perante a enormidade desta tragédia, da viragem dos meus pensamentos: “Bem, a quantidade de mal entendidos que vai haver com o nome deles!”. Mas o cérebro humano é mesmo assim, livre. Hoje, não só não sinto vergonha nenhuma como me parece que há aí uma boa metáfora para (não) entender estes dias.
Como previsto, ouviram-se os maiores disparates nos media (na verdade, o nome da banda, basicamente uma piada, presta-se a isso…): era um concerto de heavy metal, de death metal, de versões metálicas dos Eagles, eram os próprios Eagles de Hotel Calfornia… E não, não era nada disso. Neste colossal e imparável fluxo de dados e informações pós-atentados muito do que se diz é falso, parcial, inexato, mesmo tóxico e desonesto, desinformado, ou simplesmente estúpido. Isso acontece sobretudo na anarquia das redes sociais mas também no espaço supostamente responsável e acima de suspeitas dos media, maiores ou menores. Com a mesma voz séria e aparentemente sábia com que alguém nos diz que os Eagles of Death Metal são uma banda de death metal, muito do que nos é dirigido nestes momentos de excesso de informação confunde, falha, diverge.
É como se rapidamente tivéssemos a urgência de recolher todas as peças de um grande puzzle e a obrigação de o conseguirmos construir, direitinho e sem perder tempo. A questão é que, no meio da cacafonia, nem sequer conseguimos distinguir quais são as peças certas e as erradas, quanto mais juntá-las todas. Se o cowboy George W. Bush não tivesse invadido o Iraque o ISIS não existia? Com a onda de refugiados entraram terroristas na Europa? Os terroristas fazem questão de levar os seus passaportes para a cena do crime? O Islão promove a violência? Será isto uma guerra de religiões? A culpa é dos comerciantes de armas? Do petróleo? Das Cruzadas? Nossa? Dos outros? Dos americanos, dos judeus, dos árabes, dos russos…?
Também eu quero ler, ouvir, tentar perceber melhor, colecionar peças do puzzle. Temos uma tendência natural para, a cada momento, procurarmos desesperadamente um sentido total, um significado para tudo (daí a invenção das religiões). Mas intimamente vou percebendo que essa é uma demanda vã. Eis uma boa explicação para o que aconteceu em Paris: o ser humano é capaz das maiores atrocidades e violências contra os seus semelhantes, pelos mais variados motivos geradores de ódio, desprezo, desejo de vingança. Temos uma história de séculos, milénios, como prova irrefutável. E como alguém disse depois da chacina de janeiro deste ano, no Charlie Hebdo, dizer que os assassinos são “monstros”, “desumanos” ou “dementes” é, basicamente, desresponsabilizá-los e inventar um outro terreno, cenário, quadro de referências, para analisar a situação. Somos todos humanos, eles e nós, nós e eles.
Não há cá sub-humanos nem super-homens. Acreditar nessas categorias, já o sabemos por experiência própria, não leva a bons resultados. Incomodam-me também, por exemplo, todos os que – e foram muitos, agora e em Janeiro passado – vieram rapidamente criticar esta onda de comoção e solidariedade comparando a sua dimensão com a das reações a outros crimes terroristas mais distantes no espaço ou no tempo. Parecem aspirar à existência de um “homem novo” (tenho muito medo de qualquer “homem novo”), espécie de santo ou de máquina, que se emociona da mesma maneira fazendo a contabilidade de vítimas. Sofro mais, e preocupo-me mais, se me falam de seis mortos na Rua do Carmo do que de 16 na capital da Mongólia; lembro-me do cheiro a flores e a cera das velas a arder nas ruas de Paris e dói-me que esses cheiros regressem ali, mais do que me doeu o também abominável massacre de Beirute ou a queda de um avião – devo sentir-me culpado por isso? Não, não creio que deva. Como não me devo sentir culpado por, no meio da tragédia, pensar futilmente nesse estranho nome de banda, Eagles of Death Metal. Somos todos humanos.
Inspirado no grande filósofo Woody Allen, cada vez acredito mais que nada disto faz realmente muito sentido, nada disto tem que fazer muito sentido, nunca perceberemos toda a rede de causas e efeitos que nos trouxeram aqui, a cada dia nosso, humanos na Terra, desordem esférica onde teimamos em tentar encontrar, inventar, uma ordem. Passamos pela superfície do planeta e um dia acaba tudo. Ninguém sabe todas as respostas e, ao mesmo tempo, ao que soa a música dos Eagles of Death Metal (nem o Nuno Rogeiro).
«O mundo é um sítio extremamente horrível». Sim. É também um sítio extremamente maravilhoso. É a vida.