Os discos carregam para o futuro – ou, vamos mais longe, para a eternidade – uma imagem, uma identidade visual, independente dos formatos em que se nos revelam. Os Velvet Underground são tanto a voz de Nico e Lou Reed sobre instrumentais repetitivos, austeros e viciantes como uma banana amarela sobre um fundo branco. Ao Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band tanto associamos o Lucy in the Sky with Diamonds como os momentos que passámos a esmiuçar aquela capa colorida à procura de rostos conhecidos. Os Nirvana serão sempre, além de tudo o resto, um bebé debaixo de água, em tons de azul.
Mas os livros das nossas vidas, esses, desdobram-se em mil imagens. Aquelas, só nossas, que visualizámos quando os lemos e, quase sempre, a capa da edição que nos calhou em sorte. O Outono em Pequim, de Boris Vian, será sempre para mim um volume preto e amarelo, com um ar lido e vivido.
Não passa pela cabeça de nenhuma editora musical reeditar o Sgt Peppers… e pôr na capa uma cabine telefónica londrina com os quatro beatles lá dentro; ou reeditar o Nevermind e substituir o tal bebé pela cara do Kurt Cobain, a ver se vende mais. Mas passa pela cabeça de milhares de editoras de livros em todo o mundo inventar novas capas para velhos livros. Os resultados podem ser desastrosos.
Lembro-me bem de, em 1992, com 20 anos, (mentira: não me lembrava nada do ano mais fui ver ao livro) ir com amigos à cave da Livraria Barata onde estava o escritor sueco Lars Gustafsson a apresentar o seu romance A Morte de um Apicultor para uma sala quase vazia, onde o nosso juvenil entusiasmo contrastava com o ar rotineiro dos protagonistas do costume. Houve conversa, perguntas, elogios, autógrafos («For Pedro with best wishes, Lars Gustafsson»). A história daquele professor Lars Lennart Westin que foi deixando tudo para trás (profissão, mulher, saúde, os outros…) e nos é revelada em fragmentos encontrados em cadernos (o Caderno Amarelo, o Caderno Azul, o Caderno Rasgado) tinha-nos entusiasmado. Volto hoje a essas páginas, de que mal me lembro, e reconheço-as; afinal ainda cá estão dentro, é isso que acontece com os livros que nos marcam.
A Morte de um Apicultor voltou por estes dias às livrarias portuguesas, numa edição nova (da Marcador). Não consigo reconhecê-lo ali, naquela capa. Aquela flor, aquela abelha, aquelas letrinhas pretensiosas parecem-me quase uma traição. O livro não destoa nas estantes de putativos best-sellers que cada vez mais parecem imitar-se uns aos outros, para dar segurança, talvez, a quem os consome e imediatamente identifica: romance histórico sobre reis e rainhas, romântico para chorar, fantástico para ser transformado em série de televisão (e curiosamente, aí sim, mutas vezes com capas universais, como nos discos). Mas aquela abelha, aquela flor, não pertencem ali. Aquele livro não é aquela capa. Era como se me aparecesse à frente um Outono em Pequim, que tanto me divertiu e encantou também por nunca falar nem de outono nem de Pequim, com folhinhas amarelas e vermelhas caídas na praça de Tiananmen. Ou uma pêra num disco dos Velvet.
Senhores designers gráficos, tenham cuidado, podem estar a desfigurar um ente querido.
