Poucos de nós estranhamos quando ouvimos os nossos pais perguntar como se instala uma aplicação, como se envia uma fotografia pelo WhatsApp ou porque é que o telemóvel está a pedir uma palavra-passe. No entanto, quantas vezes respondemos com um nada simpático “já te expliquei isso” ou “dá cá, eu faço”? Provavelmente mais vezes do que gostaríamos de admitir.
A nossa sociedade fez uma migração quase total para o digital. Tarefas simples como consultar uma conta bancária, marcar uma consulta ou comunicar com serviços públicos passam, cada vez mais, por um ecrã.
A verdade é que, para muitas pessoas mais velhas, esta transformação aconteceu a uma velocidade difícil de acompanhar. Não por serem incapazes de aprender, mas porque passaram grande parte da vida num mundo em que a confiança se construía de forma diferente.
Hoje, uma mensagem pode parecer ter sido enviada pelo banco sem o ter sido. Uma chamada pode apresentar um número conhecido e não ser de quem esperamos. Um pedido de ajuda, aparentemente inocente, pode esconder uma tentativa de burla. E nasce daqui uma questão importante: estamos realmente a ajudar os nossos pais a navegar neste mundo digital?
Pensemos na segurança digital das pessoas mais velhas. O que nos vem imediatamente à cabeça é aquilo que, na nossa perspetiva, não sabem fazer: reconhecer determinadas mensagens, compreender algumas notificações ou distinguir uma página verdadeira de uma falsa.
Agora partilho uma ideia: será justo reduzir o problema à falta de conhecimentos? Mesmo nós, que utilizamos tecnologia diariamente, podemos ter dificuldade em identificar tentativas de fraude e tomar decisões precipitadas. A diferença pode estar na experiência, na familiaridade com determinadas ferramentas e, sobretudo, na confiança para pedir ajuda.
Imagine uma pessoa que recebe uma mensagem a informar que existe um problema com a sua conta bancária. Preocupada, segue as instruções e só mais tarde percebe que foi enganada.
O que acontecerá a seguir? Se a nossa primeira reação for “como é que foste cair nisso?”, talvez essa pessoa pense duas vezes antes de voltar a contar-nos que recebeu uma mensagem suspeita. E é aqui que surge um problema que nenhuma aplicação de segurança consegue resolver sozinha. O receio de julgamento alheio pode ser tão perigoso como a própria fraude.
Pode não parecer, mas existe uma diferença entre ajudar alguém a utilizar tecnologia e retirar-lhe a possibilidade de aprender. É também uma questão de pedagogia. Quando pegamos no telemóvel dos nossos pais e resolvemos um problema em segundos, facilitamos aquele momento. Mas será que os estamos a preparar para a próxima dificuldade? Quase de certeza que não.
A segurança digital também se constrói com autonomia, explicações simples e espaço para errar sem constrangimento. Assim, em vez de dizer “não carregues em nada”, podemos explicar por que motivo determinadas mensagens merecem atenção especial. Em vez de responder “isso é uma burla”, podemos mostrar os sinais que nos levaram a essa afirmação.
O objetivo não é transformar os nossos pais em especialistas de cibersegurança. É ajudá-los a reconhecer quando devem parar, confirmar e pedir uma segunda opinião. Afinal, a confiança começa em casa. Uma dúvida que pareça básica para nós pode ser importante para quem a coloca. Responder sem impaciência ajuda a manter aberta a comunicação.
Perante um pedido inesperado de dinheiro em nome de um familiar, confirmar através de um contacto conhecido antes de agir. Pedidos de códigos, palavras-passe, transferências imediatas ou instalação de aplicações desconhecidas devem justificar uma pausa. Se alguém carregar numa ligação suspeita ou partilhar informação, o mais importante é pedir ajuda rapidamente. Esconder o sucedido pode agravar as consequências.
Estas medidas não exigem conhecimentos técnicos avançados. Dependem muito mais da relação que construímos com as pessoas que queremos ajudar. A autonomia deve estar sempre presente. Ajudar a proteger não significa controlar conversas, consultar mensagens privadas ou tomar decisões sem consentimento.
A vergonha não pode ser mais forte do que a confiança. No entanto, existe uma contradição na forma como lidamos com a segurança digital. Aconselhamos os nossos pais a pedir ajuda, mas nem sempre mostramos disponibilidade para os ouvir. Pedimos que tenham cuidado, mas nem sempre explicamos o que isso significa. E, claro, esperamos que reconheçam ameaças que também nós nem sempre conseguimos identificar.
A proteção digital das pessoas mais velhas não deve partir da ideia de que são frágeis ou incapazes. Na verdade, todos somos vulneráveis e podemos precisar de apoio perante situações desconhecidas.
Os nossos pais ensinaram-nos muitas coisas sem esperar que acertássemos à primeira. E os meus continuam a ensinar-me. Deixo aqui uma ideia para refletirmos: talvez esteja na altura de aplicarmos a mesma paciência quando os papéis se invertem.
Porque a segurança dos nossos pais não depende apenas das palavras-passe que utilizam ou das aplicações que instalam. Depende também de saberem que, quando tiverem uma dúvida ou cometerem um erro, podem contar connosco. A melhor proteção não é impedir que alguém erre. É garantir que não tem medo de pedir ajuda.
Segurança não é técnica. É humana.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.