As praças das cidades não nasceram para ser postais ilustrados nem corredores silenciosos para o turismo. Uma praça é o coração vivo da democracia, o lugar onde o povo se junta, convive, festeja e expõe o seu sofrimento.
Quando o Estado falha consecutivamente na resposta ao drama inominável de quem não tem onde morar, a rua passa a ser o último recurso para exigir o cumprimento da Constituição.
Foi isso que aconteceu na Praça D. João I, no Porto, e no Rossio em Lisboa. O povo ocupou o espaço público porque está sufocado.
Um acampamento urbano incomoda a cidade porque esse incómodo é a voz de quem está a sofrer.
Um acampamento não resolve a crise da habitação, apenas lhe dá nome e cara.
A resposta do poder político foi a força bruta. Mandou a polícia avançar sobre manifestantes pacíficos, cívicos e desarmados, carregados de força e coragem.
Cargas com centenas de polícias, de madrugada, com tazers, ameaças com cães e com shotgun com balas de borracha, bastões no corpo, escudos capacetes, luvas e botas com pontas de aço sobre quem está a exigir o direito básico de condições para poder pagar a sua casa.
Reduziu-se um problema social e constitucional à escala menor da “ordem pública”.
Ouvi gente indignada com a tinta na parede que se limpa com água e sabão. Gente, a pedra esfrega-se e fica nova. Não existe é detergente no mundo para limpar o trauma do bastão na corpo ou a humilhação de um povo reprimido pelo próprio Estado.
Este governo está a importar deliberadamente e perigosamente o modelo trazido de fora que não se fica pelo colonialismo imobiliário que entrega os quarteirões ao capital estrangeiro e expulsa quem lá vive. Está a importar também a atuação policial. Ao olharmos para o exemplo da força militarizada do IDF em Israel vemos a lógica de ocupação, de controlo de populações e de repressão sistemática. Os cidadãos deixam de ser protegidos para passarem a ser um alvo a subjugar.
A transposição desta lógica de ocupação e submissão para a relação entre o Estado e quem protesta transforma o espaço público, que deveria ser lugar de cidadania, num território a controlar. Esta deriva autoritária e musculada é a marca histórica dos regimes fascistas.
O poder político teme um protesto pacífico. Sabe que a resistência pacífica une as pessoas, constrói solidariedade e expõe as falhas de quem governa. Por isso, a provocação e a violência podem servir para dividir os manifestantes, empurrá-los para o confronto e fabricar a imagem de um “caos” que depois justifique a repressão.
É uma tática velha de quem usa frases que parecem sair da boca de Salazar, disfarçadas sob uma falsa moralidade de civismo. Instrumentalizam as forças de segurança para transformar um direito constitucional numa batalha contra quem o exerce.
Para afastar a vergonha do próprio privilégio, a classe acomodada prefere agarrar-se aos rótulos. Falam dos piercings, das rastas, do sotaque, do aspeto de quem protesta. Caricaturam a dor alheia para justificarem a sua falta de empatia.
Mas a verdade é que este não é um combate entre cidadãos e agentes da autoridade. É a falência da responsabilidade política de quem governa.
Portugal não é França, nem pode aceitar modelos de repressão importados. Portugal tem a sua própria história de resistência.
Manter o protesto firme, vivo e pacífico nas praças do Porto, de Lisboa e de todo o País é uma forma de resistência contra o autoritarismo. A resposta ao arbítrio não pode ser a violência, porque é a paz que lhes retira o tapete e expõe a cobardia do poder.
A praça pertence ao povo, e a dignidade do povo não se curva perante a farda.
Vamos continuar.
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