Como psicóloga e professora do ensino superior, observo diariamente uma geração que vive uma experiência singular. Embora nunca tenha sido tão fácil estar ligado ao mundo e aceder à informação em tempo real, os jovens enfrentam hoje níveis de incerteza e imprevisibilidade em relação ao futuro que marcam profundamente a forma como pensam, sentem e constroem os seus projetos de vida.
Vivemos hoje num contexto de rápida aceleração tecnológica que está a transformar processos humanos tão básicos como pensar, sentir ou relacionar-se com os outros. Globalmente, e em particular entre os jovens, é cada vez maior a dependência de dispositivos digitais. Um relatório recente da OCDE mostra que 40% a 50% dos estudantes do ensino superior sentem ansiedade quando estão desligados dos seus dispositivos digitais.
O contexto atual é também marcado por uma forte e constante exposição ao conflito, à violência e à crise. Os conflitos armados constituem a sua expressão mais extrema, apontando-se para 40 a 60 conflitos ativos em diferentes regiões do mundo, o maior número desde o final da Segunda Guerra Mundial. Mas a experiência diária dos jovens não se limita às imagens de guerra: os ambientes digitais amplificam e normalizam a agressão, o sofrimento, a exclusão e a discriminação, e garantem exposição constante a crises financeiras, de saúde pública ou climáticas.
Para a maior parte dos jovens, a incerteza deixou de ser um acontecimento excecional para se tornar uma condição permanente.
E quais são os efeitos dessa condição no bem-estar e na saúde mental dos jovens?
Não se trata de uma preocupação abstrata. Estudos recentes, nacionais e internacionais, mostram níveis elevados de ansiedade e sofrimento psicológico em estudantes do ensino superior, que relatam dificuldades em lidar com a pressão académica, e preocupações persistentes e insegurança em relação ao futuro.
Ao lermos estes dados, não devemos entender a ansiedade como sinal de fragilidade individual nem como expressão de uma geração menos resiliente. Em muitos jovens, trata-se de uma reação expectável num contexto de instabilidade e incerteza, amplificado por ambientes digitais que moldam o acesso à informação e a forma como a realidade é percecionada e interpretada.
É aqui que a Psicologia assume um papel central, ajudando a compreender como os jovens podem enfrentar a adversidade, adaptar-se à mudança e desenvolver recursos para preservar o seu bem-estar, mas também contribuindo para a criação de contextos mais seguros, previsíveis e promotores de saúde mental.
Num tempo em que se procuram soluções rápidas para problemas complexos, a Psicologia recorda-nos que o desenvolvimento humano saudável não acontece de forma rápida nem simples. Continua profundamente dependente da qualidade das relações, da capacidade de compreender e regular as emoções e da possibilidade de construir significado perante a incerteza.
Quando tantas coisas parecem incertas, uma certeza permanece: precisamos da Psicologia mais do que nunca.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.