Em 1969, o homem chegou à Lua. Rupert Murdoch preferiu chegar às bancas. Uma viagem durou oito dias; a outra ainda não acabou. Ink, filme de abertura da 83.ª Mostra de Veneza e primeiro título de Danny Boyle em Competição no Lido, regressa ao momento em que a imprensa britânica percebeu que podia contar o mundo, embalá-lo, pôr-lhe um título de cinco palavras e vender a embalagem a milhões. Com 116 minutos de duração o filme, adapta a peça de James Graham, também autor do argumento, e põe Guy Pearce, Jack O’Connell e Claire Foy dentro da redacção onde começou uma revolução que ainda não encontrou botão para desligar.
Murdoch, interpretado por Guy Pearce, compra o decadente The Sun e entrega a direção a Larry Lamb, jornalista do norte de Inglaterra, ferozmente ambicioso, interpretado por Jack O’Connell. A missão parece simples, algo que costuma ser a maneira mais rápida de uma missão se tornar verdadeiramente arriscada: derrotar as vendas do Daily Mirror. Lamb percebe depressa que não o fará oferecendo uma versão ligeiramente melhor do rival. Vai, por isso, dar aos leitores manchetes que gritam, futebol, sexo, crime, celebridades, emoção, indignação, cumplicidade e uma ideia que mudaria o negócio: a circulação é a única sondagem que verdadeiramente interessa.
O algoritmo em papel e formato tabloide
O argumentista James Graham acerta em cheio ao deslocar o centro dramático para o editor-chefe Larry Lamb. Murdoch fornece o dinheiro, o instinto e a fome imperial; Lamb descobre a fórmula. É o operário brilhante e brutal da nova imprensa popular, um homem que conhece a rua, percebe quem compra o jornal e sabe o que é preciso fazer para obrigar alguém a pegar nele e ler.
Danny Boyle reconhece esse impulso porque toda a sua carreira viveu de energia, velocidade, excesso e vício. De Pequenos Homicídios entre Amigos a Trainspotting, de 28 Dias Depois a Quem Quer Ser Bilionário?, Boyle sempre soube que uma imagem tem primeiro de agarrar o espectador antes de começar a interrogá-lo. Ink é sem dúvida o seu filme mais visceralmente boyleano em bastante tempo: a redação funciona como uma máquina de combustão feita de telefones, provas, fotografias, cigarros, berros, relógios, tinta e papel.
O palco ganha no cinema movimento, ruído e suor. A solução mais cómoda seria transformar Rupert Murdoch no Drácula da democracia ocidental. Boyle recusa essa facilidade. Guy Pearce, magnífico depois de O Brutalista, dá-lhe inteligência, charme, frieza e uma curiosidade quase infantil pelo mecanismo do poder. O realizador explicou que não queria reduzi-lo a monstro, porque transformar Murdoch numa aberração isolada permitiria a todos os outros lavar as mãos. E isso também não corresponde à verdade. Estavam lá os empresários, os jornalistas, os leitores, o mercado e a sociedade britânica. Para o melhor e, sobretudo, para o pior. Murdoch encontrou um desejo, mediu-o e construiu uma indústria em cima dele.
Jack O’Connell, depois de Pecadores e do reencontro com Boyle em 28 Anos Depois, fica com o papel mais fascinante do filme e, se quisermos arriscar a palavra, com o de herói tóxico deste sucesso. O seu Larry Lamb acredita genuinamente no jornal popular e despreza a sobranceria de uma Fleet Street cínica que falava demasiadas vezes para si própria. A vontade de dar voz ao leitor acaba, porém, por escorregar para outra coisa: entregar-lhe diariamente aquilo que confirma os seus medos, preconceitos, fantasias e apetites. Meio século depois, basta trocar a rotativa pelo smartphone e a banca pelo feed.
Claire Foy, de O Primeiro Homem na Lua, interpreta Jules Davies, personagem composta a partir de várias mulheres que trabalharam naquele universo esmagadoramente masculino. A sua presença sabota qualquer tentativa de nostalgia. Ink adora o jornalismo de papel — as máquinas, o fecho, a primeira edição acabada de imprimir — sem transformar Fleet Street num convento de santos éticos e deontológicos com carteira profissional de jornalista. Aquela imprensa podia ser brilhante e democrática; também podia ser sexista, impiedosa, voyeurista e manipuladora. Boyle recria o prazer físico da imprensa antiga sem confundir cheiro a tinta com certificado de virtude.
O jornal que descobriu o nosso vício
A grande ironia de Ink é falar de 1969 e soar assustadoramente a 2026. O The Sun de Murdoch e Lamb percebeu, décadas antes de Silicon Valley, que a atenção é moeda, que a emoção fideliza melhor do que a explicação e que a identidade do leitor pode ser convertida em negócio. “Nós” contra “eles”; povo contra elites; futebol como religião; escândalo como adrenalina; política tratada como combate de boxe; mulheres transformadas em mercadoria visual; títulos capazes de substituir argumentos inteiros. Facebook, X, TikTok e os algoritmos limitaram-se a automatizar uma oficina que já trabalhava a tinta e chumbo.
Boyle também resiste à elegia reacionária de um passado imaginário em que todos os jornalistas eram grandes repórteres e todos os jornais serviam a verdade antes do pequeno-almoço ou da primeira caneca de café da manhã. Filma a imprensa como organismo contraditório: necessária e indecente, generosa e predadora, capaz de incomodar poderosos e de esmagar anónimos. A pergunta deixada pelo filme é por isso bastante mais interessante do que “quando começou o mau jornalismo?”. Interessa perceber quando a verdade descobriu que precisava de competir pela atenção e quanto estaria disposta a pagar para ganhar essa corrida.
A escolha de Ink para abrir Veneza ganha, assim, um sentido bastante especial. Nada de mais uma obra solene de prestígio, já embalsamada à nascença para a temporada dos prémios da indústria de cinema. Boyle entra já pela porta da frente com o suspense de um thriller de investigação, nervo, humor negro, suor de redação e história contemporânea disfarçada de arqueologia mediática. Aos 69 anos, o realizador de Trainspotting continua a filmar como se tivesse um editor atrás dele a berrar que faltam três minutos para terminar o filme.
A tinta secou, mas o método ficou
Murdoch ganhou. Lamb ganhou. O The Sun ganhou ao Daily Mirror e chegou aos milhões de exemplares. O jornalismo ficou com uma vitória bastante mais ambígua: pode hoje dar muito menos dinheiro, mas continua a dar uma coisa que vale provavelmente mais: influência. Ink capta o instante em que a imprensa popular descobriu uma potência extraordinária e abriu simultaneamente uma caixa de Pandora que desemboca diretamente no nosso presente. Danny Boyle faz um grande filme sobre jornais e acaba a falar do telemóvel que trazemos no bolso.
A tinta secou há muito. O método continua extraordinariamente fresco. Hoje já nem precisamos de comprar o jornal: ele toca-nos vinte vezes por hora através das notificações, conhece os nossos gostos, contabiliza a nossa raiva, mede o tempo que gastamos perante uma fotografia e sabe exatamente onde carregar para nos irritar. Larry Lamb teria adorado as edições online, as redes sociais e os algoritmos. Rupert Murdoch provavelmente teria até tentado comprá-los.
E Murdoch continua por cá. Tem 95 anos, deixou em 2023 a presidência efetiva da News Corp e da Fox para passar a chairman emeritus, entregando formalmente o comando a Lachlan Murdoch, mas seria precipitado confundir retirada institucional com reforma espiritual. Ainda há poucos dias documentos judiciais revelados nos EUA mostravam que continua interessado na possibilidade de voltar a juntar Fox e News Corp. Murdoch parece ter-se reformado sobretudo no organigrama.
Quanto à sucessão familiar, a realidade decidiu escrever a sua própria série. Depois de anos de guerra entre Rupert e os filhos pelo controlo futuro do império, o acordo alcançado em setembro de 2025 deixou Lachlan com o comando, enquanto Prudence, Elisabeth e James saíram da estrutura mediante indemnizações milionárias. Ou seja, tivemos um patriarca nonagenário, um império mediático, filhos a disputarem a coroa, tribunais, dinheiro aos milhares de milhões, ressentimentos familiares e um herdeiro finalmente escolhido. Parece Succession porque, em parte, é. Jesse Armstrong sempre explicou que Logan Roy não era simplesmente Rupert Murdoch: os seus três grandes modelos foram Murdoch, Sumner Redstone e Robert Maxwell. Mas Murdoch estava desde o princípio no ADN da série. Armstrong chegou, aliás, a escrever anos antes um argumento nunca filmado sobre a própria família Murdoch. A diferença é que Succession acabou ao fim de quatro temporadas. Os Murdoch não. E, como tantas vezes acontece, a realidade dispensou os argumentistas, escreveu uma quinta temporada sozinha e ainda não garantiu que seja a última.
The Sun: de jornal operário a fábrica de manchetes
A árvore genealógica do The Sun começa muito antes de Rupert Murdoch. O seu antepassado directo foi o Daily Herald, nascido em 1912 ligado ao movimento trabalhista e mais tarde ao Trades Union Congress. Chegou a ser um gigante da imprensa popular britânica, mas entrou em declínio e acabou integrado no grupo que, em 1964, lançou o The Sun como broadsheet, destinado a uma nova geração urbana, jovem e ascendente. A experiência falhou. As perdas acumularam-se e o título acabou vendido a Rupert Murdoch.
A 17 de Novembro de 1969 apareceu o novo The Sun: compacto, agressivo, fácil de ler, com Larry Lamb na direcção e uma missão nada modesta: roubar ao Daily Mirror o lugar de jornal popular dominante. Murdoch prometia um jornal vivo, combativo, independente e incapaz de se sentar em cima do muro. Lamb traduziu o manifesto para linguagem de banca: notícias curtas, grandes títulos, desporto, televisão, crime, sexo, celebridades, campanhas e uma intimidade cuidadosamente fabricada com o leitor comum.
A célebre Page 3, que ficaria associada às modelos em topless e se transformaria num dos símbolos mais discutidos do jornal, assumiu essa forma no primeiro aniversário do relançamento, em Novembro de 1970. A provocação não era um acidente: fazia parte do produto. O The Sun aperfeiçoou uma primeira página concebida para berrar da banca, com fotografias dominantes, títulos enormes, linguagem emocional e uma hierarquia gráfica que dezenas de jornais europeus acabariam por imitar.
Os números deram razão comercial a Murdoch e Lamb. Em Maio de 1978, o The Sun ultrapassou o Daily Mirror na circulação semestral e, no mês seguinte, superou os quatro milhões de exemplares. A influência deixou rapidamente de ser apenas editorial. O jornal aproximou-se de Margaret Thatcher no final dos anos 70 e tornou-se actor político de primeira linha; em 1992 chegou a proclamar na primeira página, depois da vitória conservadora de John Major, o célebre “It’s The Sun Wot Won It”. Modéstia nunca fez parte do livro de estilo do jornal. A factura dessa força ficou inscrita em episódios como a vergonhosa cobertura do desastre de Hillsborough, em 1989, que provocou um boicote duradouro em Liverpool e se tornou um dos capítulos mais negros da história do jornal. Décadas depois, a circulação em papel caiu brutalmente, mas a lógica do The Sun sobreviveu ao próprio papel: títulos instantâneos, emoção, conflito, celebridade, simplificação e uma luta feroz pela atenção. Murdoch comprou um jornal em dificuldades. Acabou por ajudar a desenhar uma linguagem que a Internet transformaria numa indústria planetária.