Portugal orgulha-se de ser um país solidário, assente em valores de justiça social e respeito pela dignidade humana. No entanto, basta olhar com atenção para a realidade de milhares de idosos para perceber que ainda estamos muito longe de cumprir esse ideal. O envelhecimento da população constitui um dos maiores desafios demográficos do século XXI, mas continua a não ocupar o lugar central que merece no debate político e nas prioridades governativas.
A esperança média de vida aumentou significativamente nas últimas décadas. Vivemos mais anos, é verdade. Mas viver mais não significa, necessariamente, viver melhor. Para muitos portugueses, envelhecer tornou-se sinónimo de dificuldades económicas, isolamento social e abandono. Uma realidade silenciosa que raramente ocupa as primeiras páginas dos jornais, mas que se repete diariamente em cidades, vilas e aldeias de norte a sul do País.
Depois de uma vida inteira de trabalho, de descontos para a Segurança Social, de sacrifícios pessoais e familiares e de um contributo decisivo para o desenvolvimento do País, muitos reformados sobrevivem hoje com pensões que mal chegam para pagar as despesas essenciais. O aumento do custo de vida, da alimentação, da energia, dos medicamentos e da habitação reduziu drasticamente o poder de compra de quem já vivia com poucos recursos. Para demasiados idosos, o fim do mês transforma-se num exercício permanente de renúncia, comprar medicamentos ou aquecer a casa, fazer uma refeição completa ou pagar uma fatura.
É difícil aceitar que pessoas que trabalharam durante quarenta ou cinquenta anos terminem a sua vida ativa confrontadas com tamanha insegurança financeira. A pobreza na velhice não pode ser encarada como uma inevitabilidade. É, acima de tudo, o reflexo das escolhas políticas que um país faz ao longo do tempo.
Mas se as dificuldades económicas são preocupantes, existe uma realidade igualmente dramática que nem sempre é visível, a solidão. O isolamento social tornou-se uma das maiores ameaças ao bem-estar físico e psicológico da população idosa. São milhares aqueles que vivem sozinhos, que passam dias sem conversar com alguém, sem receber uma visita ou um simples telefonema. Muitos perderam o cônjuge, outros viram os filhos emigrar ou viver longe, e há ainda aqueles cujas redes familiares praticamente desapareceram.
A solidão mata lentamente. Não deixa marcas evidentes, mas corrói a autoestima, agrava problemas de saúde mental, aumenta o risco de depressão e acelera o declínio físico e cognitivo. Nenhuma sociedade pode considerar-se verdadeiramente desenvolvida quando permite que tantos dos seus cidadãos envelheçam mergulhados no silêncio e na indiferença.
Mais doloroso ainda é o abandono. Existem idosos internados em hospitais ou instituições durante semanas porque ninguém os vai buscar. Outros vivem completamente entregues a si próprios, dependentes da boa vontade de vizinhos, voluntários ou instituições particulares de solidariedade social. Em muitos casos, não se trata apenas de falta de recursos, trata-se de ausência de uma rede de apoio capaz de garantir que ninguém seja deixado para trás.
Naturalmente, seria injusto atribuir toda a responsabilidade às famílias. A sociedade mudou profundamente. As exigências profissionais, a mobilidade geográfica, a diminuição da dimensão das famílias e o envelhecimento simultâneo de várias gerações dificultam a capacidade de acompanhamento dos familiares mais velhos. É precisamente por isso que o Estado deve assumir um papel mais ativo, criando respostas adequadas para uma realidade que tende a agravar-se nas próximas décadas.
A classe política precisa de colocar os idosos no centro das políticas públicas e não apenas no centro dos discursos ocasionais. É urgente reforçar as pensões mais baixas, garantir um acesso mais rápido aos cuidados de saúde, reduzir as listas de espera, expandir os serviços de apoio domiciliário, apoiar os cuidadores informais e promover programas de combate ao isolamento através das autarquias, das instituições sociais e das comunidades locais.
Importa igualmente investir no envelhecimento ativo, criando oportunidades para que os idosos continuem a participar na vida cultural, social e cívica das suas comunidades. Envelhecer não significa deixar de ter um papel na sociedade. Pelo contrário, significa colocar ao serviço das novas gerações um património único de experiência, conhecimento e memória coletiva.
Mas este desafio não pertence apenas aos governantes. Também interpela cada um de nós. Quantas vezes adiamos uma visita aos nossos pais ou avós? Quantas vezes ignoramos o vizinho idoso que vive sozinho? Pequenos gestos de proximidade podem fazer uma diferença enorme na vida de quem apenas espera companhia, atenção e respeito.
Portugal deve muito à geração que hoje envelhece. Foi essa geração que trabalhou, construiu escolas, hospitais, empresas, estradas e instituições, que educou filhos e netos, que ajudou a consolidar a democracia e o Estado Social. Não merece terminar a sua vida entre a pobreza, a solidão ou o esquecimento.
A dignidade dos idosos não pode depender da sorte, da condição económica ou da existência de familiares próximos. Deve ser um compromisso coletivo e uma prioridade nacional. Porque um país que abandona quem lhe deu tanto acaba, inevitavelmente, por perder uma parte da sua própria humanidade.
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