Chega o verão e, com ele, chegam também as fotografias de férias. A ponderação a que obrigava um rolo nas máquinas fotográficas do passado é agora substituída pelo conforto das câmaras integradas no nosso smartphone.
Praias, aeroportos, hotéis, jantares ao pôr do sol, paisagens de sonho. Em poucos segundos, tudo pode ser captado por uma câmara e partilhado com dezenas, centenas ou até milhares de pessoas. E, na verdade, não há nada de errado nisso. As redes sociais fazem parte da nossa forma de comunicar, guardar memórias e partilhar momentos importantes com familiares e amigos.
O problema é que, muitas vezes, acreditamos estar apenas a partilhar recordações quando, na realidade, podemos estar a partilhar muito mais. Uma fotografia tirada no aeroporto pode revelar que acabámos de iniciar uma viagem. Uma publicação junto à piscina de um resort pode indicar que estamos longe de casa. Uma sequência de stories ao longo de vários dias pode mostrar onde estamos, quanto tempo vamos ficar e até quando regressaremos.
Na verdade, o problema não está na fotografia. Está no comportamento que a fotografia revela.
E essa diferença é mais importante do que parece. A maioria das pessoas associa a cibersegurança a hackers maliciosos sentados em frente a vários monitores. No entanto, muitos ataques começam de forma muito mais simples: com informação disponível publicamente.
Antes de existir uma mensagem suspeita, um telefonema fraudulento ou uma tentativa de phishing, existe normalmente uma fase de reconhecimento em que o criminoso se limita a observar. Os atacantes recolhem informação, analisam comportamentos, identificam rotinas e procuram detalhes que lhes permitam construir ataques mais credíveis.
É aqui que o excesso de partilha pode transformar-se num problema. Uma única fotografia dificilmente representa um risco significativo. O problema surge quando várias publicações começam a contar uma história completa.
Imaginemos o cenário seguinte: uma fotografia no aeroporto, um vídeo na praia, uma publicação no restaurante, uma selfie à entrada do hotel e um comentário sobre os quinze dias de férias. Separadamente, parecem momentos banais. Juntos, podem revelar muito mais do que imaginamos. Podem indicar que a casa está vazia. Podem mostrar hábitos familiares. Podem expor rotinas. Podem até fornecer informação útil para futuras tentativas de engenharia social.
Os cibercriminosos sabem algo que muitos utilizadores ainda ignoram: quanto mais informação tiverem sobre uma pessoa, mais fácil será criar uma fraude convincente. Se souberem onde trabalha, onde está de férias, quem faz parte da sua família ou quais são os seus interesses, terão mais ferramentas para construir mensagens aparentemente legítimas.
É precisamente por isso que muitos ataques atuais parecem tão credíveis. Já não estamos perante mensagens genéricas enviadas a milhares de pessoas. Cada vez mais encontramos tentativas de fraude personalizadas, construídas com base na informação que nós próprios disponibilizamos online.
Mas, curiosamente, o problema não está apenas naquilo que publicamos. Está também na frequência com que o fazemos. Vivemos numa cultura de partilha permanente. Existe quase uma pressão para mostrar onde estamos, o que fazemos e o que estamos a viver naquele exato momento. Talvez valha a pena fazer uma pergunta simples antes de carregar no botão de publicar:
Quem precisa realmente de saber que estou aqui, agora?
A resposta nem sempre é tão evidente quanto parece. Isto não significa que devemos deixar de publicar fotografias ou abandonar as redes sociais. Tal como acontece em muitas áreas da segurança, o objetivo não é viver com medo. O objetivo é tomar decisões mais conscientes.
Pequenas mudanças podem fazer uma grande diferença. Rever as definições de privacidade. Limitar quem pode ver as publicações. Evitar partilhar localizações em tempo real. Desativar a localização quando não é necessária. Guardar algumas fotografias para publicar depois do regresso. São medidas simples, mas que reduzem significativamente a quantidade de informação disponível para quem a possa utilizar com más intenções.
As férias devem ser um momento de descanso. Mas a nossa atenção não deve entrar totalmente em modo de férias. Porque, no mundo digital, o atacante não precisa de invadir um sistema. Muitas vezes, basta observar o que publicamos.
As férias passam. As fotografias ficam. A informação também.
E, no mundo digital, segurança não é técnica. É humana.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.