Quando pensamos em trabalhadores surge-nos, muitas vezes, uma multidão sem rosto que se levanta nas dores do corpo e se deita no cansaço de uma rotina que não se esgota nunca: o trabalho sai-lhe das mãos, que, depois, se abrem àquilo que este, eventualmente, lhes der em troca. Apesar disso, ser trabalhador é um conceito mutável, que, à boleia da conveniência dos tempos, ora foi mais isto, ora foi, logo depois, mais aquilo.
Ser trabalhador, em traços gerais, pode, até mesmo, partir de variados motivos: necessidade, realização, sobrevivência, propósito ou apenas a longa tentativa humana de encontrar um lugar no mundo. Porém, mesmo com essa elasticidade conceptual que o termo mostra, ser trabalhador, no concreto, não pode é ser aquilo que o mais recente estudo do Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis veio mostrar que tem sido: exaustão emocional, sofrimento psicológico e uma estranha sensação de alívio sempre que o trabalho acontece longe dos trabalhadores.
Entre tarefas, agendamentos, deslocações, formações, avaliações e tudo o mais que caiba na longa mecanização dos dias que parecem trazer sempre outro, há uma verdade simples que o mundo do trabalho tem deixado escapar: antes de tudo, o trabalhador é uma pessoa.
Repare-se que, quando um estudo como o supra referido, nos mostra que os trabalhadores estão menos preparados para desafios, menos aptos para gerir conflitos e, atenção agora, menos capazes de discutir, o alarme não soa tão só para o mundo laboral, mas, isso sim, para outra coisa de que poucas vezes se fala com verdadeira intenção: a democracia.
Com efeito, sempre que um trabalhador não consegue ouvir sem interpretar o que ouve como ameaça, sempre que não consegue discutir sem transformar divergência em hostilidade ou, até, coexistir no espaço público do trabalho sem se esconder numa lógica de premeditação emocional, é a própria democracia que se acanha lentamente e, em lugar dela, agiganta-se uma cansada-sociedade que desperdiça o alcance maior da vida democrática: a riqueza humana que apenas o produto das diferenças oferece e que a ausência delas, inevitavelmente, empobrece.
Neste estudo do Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis, em que o trabalhador admite sentir-se melhor quando consegue trabalhar longe do local do trabalho, manifesta-se uma erosão social não do trabalhador enquanto tal, que continua a prestar os préstimos do que tem de prestar, mas de outra coisa mais profunda: a condição inicial que faz do trabalhador o trabalhador que é, ou seja, a pessoa que o próprio tem vindo a deixar de ser.
Sobre isto, justamente, Byung-Chul Han escreveu que a sociedade contemporânea deixou de procurar sujeitos obedientes, como em tempos fez, para procurar, atualmente, sujeitos exaustos, que, em verdade, há que acrescentar à ideia do filósofo sul-coreano, e seguindo o estudo, já não conseguem manter, agora, tampouco, os sujeitos que são. Mas, uma pergunta: será mesmo possível ser-se trabalhador sem manter a pessoalidade que faz do trabalhador a pessoa que é?
Ora, poderá haver várias respostas e, todas elas, terão de concluir que a falta de pessoalidade no trabalhador não desgasta apenas a qualidade do trabalho que este realiza, mas uma coisa muito mais prejudicial: “56% dos trabalhadores, no último mês, sentiu-se incapaz de controlar as coisas que são importantes na sua vida.”
Entenda-se, assim, que este dado revela, precisamente, aquilo que Byung-Chul Han talvez não tenha antecipado por completo: que a sociedade do cansaço já não produz apenas sujeitos exaustos, mas que usa dessa exaustão crónica para inundar qualquer réstia de pessoalidade neles e, assim, mitigar o alçapão onde nos morre a esperança.
O trabalhador, note-se, continua funcional, produtivo e disponível para responder às exigências do mundo laboral, mas torna-se, progressivamente, incapaz de encontrar, no íntimo mais fundo de si, a pessoa que motiva o próprio trabalho. Pouco a pouco, e é o estudo que o sugere, em lugar da pessoa que se é, surge, apenas, uma existência orientada para aquilo que ainda falta fazer e o futuro deixa de ser um horizonte humano de realização para se transformar numa sucessão interminável de exigências alheias, desempenho premeditado e produtividade calculada.
Aqui chegados, o estudo parece revelar que ao mundo do trabalho ainda falta compreender uma coisa essencial: trabalhadores despessoalizados poderão continuar operacionalmente eficazes, mas, dificilmente, a longo prazo, conseguirão elevar o próprio trabalho para lá da simples lógica do desempenho: é o futuro que se rejeita, deste modo, em detrimento de um presente-sempre-amanhã.
Isto porque é precisamente a pessoalidade do trabalhador que transforma o trabalho em algo mais do que mera réplica de fórmulas comuns e, bem assim, é a pessoalidade do trabalhador, dialogante, aplicada e crítica, que pode erguer, por consequência, uma verdadeira possibilidade de construção democrática dentro da própria vida comum.
Resumidamente, é neste ponto que o estudo apresentado pelo Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis se torna crucial de ser trazido ao debate público já que anuncia uma crescente sociedade que radica a normalização da separação entre produtividade e humanidade, entre desempenho e convivência, entre funcionalidade e pessoalidade. E com uma sociedade assim, da instrumentalização do que se é, desaparece a sociedade do que se pode ser, levando com ela uma coisa que todos procuramos – ou devíamos: uma democracia em fila de espera para, finalmente, de uma vez por todas, crescer.
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