“Projecto Global”, de Ivo M. Ferreira, estreado a 23 de abril nas salas de cinema, está a cair numa zona de nervo exposto. Se calhar, ainda bem, porque finalmente pega num tema que continua a incomodar Portugal e recusa tratá-lo com pinças, como já o disse no texto que escrevi sobre a estreia do filme. Por isso, não é surpresa ver extremarem-se posições: para uns, trata-se de um thriller político raro no cinema português, corajoso, ambíguo, anti-violência e mais interessado em perceber como certas pessoas escorregam para a clandestinidade armada do que em distribuir santinhos e demónios de cartolina; para outros, é um objeto moralmente falhado, porque acompanha demasiado de perto os operacionais das FP-25, torna as vítimas quase invisíveis e, ao fazê-lo, corre o risco de suavizar o peso histórico e ético dos crimes.
A questão séria não é escolher uma trincheira por reflexo. É perceber o que há de verdadeiro no desconforto de cada um. Porque, neste caso, há mesmo qualquer coisa a defender de um lado e qualquer coisa a escutar do outro. E só vale a pena falar e escrever sobre “Projecto Global” se for para tentar fazer justiça a essa tensão, sem a transformar nem numa absolvição sentimental das FP-25, nem num tribunal moral onde o cinema passa a ter de funcionar como acórdão.
A primeira coisa a pôr em ordem é a cronologia. A violência política na democracia portuguesa não começou com as FP-25. Isso é um facto histórico e convém dizê-lo, porque há sempre alguém pronto a fingir o contrário, conforme lhe convém ideologicamente. Logo após o 25 de Abril, sobretudo entre 1975 e 1976, Portugal conheceu a violência organizada da direita e da extrema-direita, através de redes como o MDLP e o ELP, ligadas ao universo spinolista, a setores salazaristas e a franjas do aparelho repressivo do antigo regime. O Verão Quente de 1975 não foi só um delírio poético de cartazes e comícios: teve bombas, atentados, sabotagem, terror e mortos. O assassinato do padre Maximino Barbosa de Sousa, o Padre Max, e de Maria de Lurdes Correia, em abril de 1976, continua a ser um dos episódios mais negros dessa violência, com o MDLP repetidamente apontado como responsável. Recorde-se que o MDLP surgiu no Verão Quente de 1975 e participou em várias ações de terrorismo antes de suspender a sua atividade em 1976; é-lhe explicitamente atribuído o atentado que matou o Padre Max e a jovem que seguia com ele.
Só depois, já em 1980, surgem as FP-25. E surgem num contexto diferente: já depois do 25 de Novembro, já depois da estabilização possível da democracia parlamentar, já depois de a revolução ter perdido o seu descontrolo militar e o seu impulso insurreccional de rua. As FP-25 aparecem com outra narrativa de legitimidade: a de que a revolução foi roubada, domesticada, parlamentarizada, traída, e de que a luta armada podia continuar a ser uma forma legítima de corrigir o rumo da História. Entre 1980 e 1987, a organização foi responsável por uma campanha de assaltos, atentados, explosivos, baleamentos e mortes. As fontes divergem no número total de vítimas fatais, mas as referências públicas apontam para pelo menos 14 mortes diretamente atribuídas às FP-25, além da morte de operacionais em ações da organização.
Isto importa por uma razão muito simples: sem esta cronologia, a discussão moral ficaria viciada logo à partida. Se alguém sugere que lembrar o MDLP e o ELP serve para desculpar as FP-25, está a fazer batota histórica. E, se alguém usa a existência da violência de direita para diluir a responsabilidade da violência de extrema-esquerda, está a fazer batota moral. O que existiu foi uma sucessão de traumas num país a sair aos tropeções de uma ditadura de 40 anos, onde setores diferentes, em momentos diferentes, acharam que a História se podia continuar a escrever com bombas. A diferença está nos contextos, nas genealogias, nas legitimidades invocadas e nas estruturas. Mas a realidade central não muda: numa democracia, a luta armada não é heroísmo; é falência moral e política.
É precisamente neste terreno que o filme “Projecto Global” entra. E entra com um gesto que, do ponto de vista cinematográfico, é forte e arriscado: em vez de fazer da história das FP-25 uma aula, um dossiê ou um tribunal, o filme prefere seguir um conjunto de personagens por dentro, ou quase por dentro, mostrando a sua desorientação, os seus afetos, a sua clandestinidade, a sua adrenalina e a lenta erosão da bússola moral. O próprio Ivo M. Ferreira disse, em entrevistas recentes, que “Projecto Global” é “um filme absolutamente pacifista” e que tem “muita dificuldade em compreender a violência num contexto democrático”. Também disse isto, que é uma frase importante para perceber o dispositivo moral do filme: “Quando o cinema reduz tudo a bons e maus, acabou. Deixa de me interessar.”
Ora, aqui pode começar o tal mal-entendido. Há quem leia esta recusa do maniqueísmo como maturidade artística. E há quem a leia como fuga ao julgamento. Os dois impulsos são compreensíveis. Do ponto de vista do cinema, Ivo M. Ferreira tem razão: um filme que só distribui etiquetas morais tende a secar. Torna-se ilustração ideológica. Não pensa, sentencia. E “Projecto Global”, goste-se mais ou menos dele, não é um filme de sentença. Quer entrar naquela zona pantanosa onde pessoas aparentemente normais, muitas vezes até talentosas, afetivas e politicamente mobilizadas, se deixam envolver por uma espiral de clandestinidade e violência. Quer filmar a passagem do idealismo à ação armada, do coletivo à seita, da convicção à deriva. Nessa medida, a ambiguidade do filme não é indecisão; é método. É a forma que o realizador encontrou para tentar perceber o processo interior e relacional de uma queda.
Mas há um limite, e esse limite é o sofrimento real do outro lado. E é aqui que a crítica mais dura ao filme ganha peso. Quando um filho de uma vítima escreve sobre “Projecto Global” e diz que a obra lhe parece uma narrativa cheia de ambiguidades, o que está verdadeiramente a dizer é outra coisa: que o filme acompanha demasiado a humanidade dos operacionais e quase não acompanha a humanidade das vítimas. Que a violência aparece, sim, mas muitas vezes desligada da persistência concreta dos seus efeitos. Que os mortos, os feridos, as famílias, os sobreviventes, os órfãos, as viúvas, os filhos que cresceram com o pai abatido à porta de casa ou dentro de uma caravana de um feira profissional não têm no filme uma visibilidade equivalente à complexidade psicológica e emocional daqueles que pegaram nas armas. Essa crítica não é descartável. Não é reação histérica. É um problema moral real e razoável.
Porque um filme pode ser pacifista na intenção e, ainda assim, produzir um efeito de desequilíbrio ético pela forma como escolhe olhar. E, em “Projecto Global”, há uma escolha clara de ponto de vista. O filme não é a história total das FP-25. Não é o mapa completo do terror. Não é um dossiê das vítimas. Não é uma desmontagem estrutural da cadeia de comando, do papel de Otelo Saraiva de Carvalho, de Pedro Goulart, de Mouta Liz, das relações com a FUP, da estratégia política, da cobertura e da logística. O filme escolhe outra coisa: a experiência interior e próxima de um pequeno núcleo de personagens. Essa é a sua força artística. E é, ao mesmo tempo, a origem da sua mais legítima vulnerabilidade moral e parcial. Talvez tudo isto surja mais amplificado e bem explicado na série de televisão de seis episódios que a RTP vai transmitir ainda este ano, e essa é, de facto, uma “insuficiência” do filme de quase duas horas e meia de duração talvez demasiado fragmentadas. O enredo torna-se por vezes um pouco incompreensível. Não se percebe muito bem como é que este grupo começa as suas ações, não se entendem claramente os objetivos da organização terrorista, nem sequer a forma como acaba, deixa tudo um bocadinho em suspenso. Para um filme com esta duração, era fundamental sentir-se talvez um fio condutor mais bem estruturado, que está claramente ausente. Vamos ver o que vai dar a série de televisão.
Porém, quem diz que o filme branqueia as FP-25 está, a meu ver, a exagerar. Compreende-se, mas está a exagerar. “Projecto Global” não transforma os operacionais em libertadores luminosos, não faz apologia da luta armada, não converte atentados em atos purificadores da História. Mostra, pelo contrário, a desorientação, a precariedade, a clandestinidade, o medo, o improviso, a adrenalina, o desgaste, a perda de rumo. Mostra pessoas enredadas numa lógica que já não controlam e numa política que já se transformou em mecanismo de destruição e até de auto-destruição pessoal. Nesse sentido, o filme está muito mais perto de um retrato da corrosão do que de uma celebração da causa. E a própria frase do realizador sobre a violência ser incompatível com a democracia coloca-o claramente num campo anti-armado.
Mas quem diz que o filme não vai suficientemente longe na condenação e na visibilidade das vítimas também tem parte da razão. Porque a omissão relativa das consequências, a pouca atenção aos mortos concretos, a escassa inscrição do sofrimento de quem levou com os tiros, as bombas e as vinganças, produz um efeito inevitável: o espectador passa muito mais tempo com a angústia moral dos operacionais do que com a dor irreparável de quem ficou do outro lado. E isso, mesmo sem apologia nem branqueamento deliberado, atenua a perceção da assimetria ética fundamental. Em terrorismo, não estamos perante um mero conflito de sensibilidades. Estamos perante pessoas que escolheram usar a força armada numa democracia em construção, matando, ferindo e aterrorizando.
Talvez a formulação mais justa seja esta: “Projecto Global” não branqueia as FP-25 de forma programática, mas corre o risco de as suavizar parcialmente pela estrutura do seu olhar. Não porque as absolva, mas porque acompanha mais a sua humanidade do que a devastação concreta que deixaram. E isso, para um familiar de uma vítima, não é um detalhe de teoria estética. É uma ferida aberta.
A isto junta-se uma camada decisiva: a raiz íntima do filme. Ivo M. Ferreira não chega a este tema como académico neutro nem como cronista exterior. Chega por biografia. Nasceu em 1975. Cresceu entre A Comuna e O Bando, onde os pais, Carmen Marques — viva e ainda ativa em O Bando — e Cândido Ferreira — falecido em 2021 — eram atores e figuras centrais de um meio artístico, comunitário e politicamente vivo. Ele próprio, o Ivo M. Ferreira, contou que saía da escola e ia para a Comuna, um espaço onde o teatro era também lugar de encontros, debates e circulação de pessoas. O Bando, fundado em 1974, nasceu desse caldo de criação, militância cultural e vida coletiva. E nesse mesmo universo cruzava-se também Natércia Campos — falecida em 2006 —, figura ligada ao grupo e mais tarde associada, condenada e depois absolvida no processo das FP-25. O realizador recorda-se da sua prisão quando era criança. E percebe-se, portanto, que “Projecto Global” nasce também desse choque: o momento em que uma “tia” do teatro — amiga dos pais — passa a coexistir, no imaginário de uma criança, com a figura da terrorista dos jornais. É uma ferida de infância transformada em cinema. E isso explica muita coisa. Não desculpa, mas explica.
Daí a figura de Rosa, interpretada por Jani Zhao, ter tanta força simbólica no filme. Rosa não é uma pessoa documentada a régua e esquadro; é uma condensação crítica de várias correntes, memórias e ecos: atriz, mãe, militante, mulher em clandestinidade, corpo afetivo e corpo político, síntese de uma geração e de um impasse. A própria Jani Zhao tem insistido na preparação feita com investigação, trabalho com o historiador Francisco Bairrão Ruivo, conversas e uma residência imersiva no Alentejo. Isso ajuda a perceber que o filme não nasceu do improviso nem da vontade de escandalizar. Houve pesquisa séria. Houve vontade de entrar num tabu. E houve também a consciência de que esse tabu é difícil de filmar sem cair na armadilha da santificação ou da simplificação. O problema é que entre evitar a simplificação e evitar a insuficiência moral vai uma distância perigosa.
Em suma, “Projecto Global” é um filme contra a violência armada? Sim, no essencial, é. O realizador disse-o, e a dramaturgia da desorientação, do desgaste e da perda de bússola aponta nesse sentido.
É um filme que branqueia as FP-25? Não no sentido forte da palavra. Não as celebra, não as justifica, não as transforma em heróis revolucionários.
Pode, ainda assim, ser sentido por algumas vítimas e familiares como um filme eticamente insuficiente? Pode. E compreende-se porquê. Porque a ambiguidade estética, quando não é acompanhada por uma presença mais forte das consequências, pode parecer um luxo moral de quem olha para o terrorismo sobretudo como matéria dramática e não como desastre biográfico.
A posição ideológica do filme parece-me, portanto, esta: não é conivente com a luta armada, mas é radicalmente interessado na zona cinzenta que a precede e acompanha. E essa escolha é, ao mesmo tempo, o seu maior mérito artístico e a sua principal fonte de contestação legítima. O filme observa mais do que julga. E há quem ache isso indispensável ao cinema. E há quem ache isso insuficiente perante o sangue real. Talvez os dois tenham razão, cada um em parte.
O que não me parece sério é exigir ao filme que seja apenas uma sentença, um memorial ou um panfleto inverso. Nem me parece sério fingir que a dor das vítimas é um ruído inconveniente para a teoria da ambiguidade. A discussão adulta faz-se no meio. “Projecto Global” obriga-nos a olhar para uma parte da História portuguesa que continua mal resolvida e a lembrar duas coisas ao mesmo tempo: que a violência terrorista em Portugal teve mais do que uma cor ideológica e que, quando chegou a vez das FP-25, já não havia nenhuma desculpa revolucionária plausível para transformar a democracia em alvo armado. Entre essas duas verdades vive a tensão do filme.
E talvez seja esse o seu lugar exato: não o de absolver, nem o de sentenciar, mas o de expor uma deriva. O problema é que, quando se expõe uma deriva destas, convém que a culpa não morra solteira e que os mortos não desapareçam do enquadramento. Se “Projecto Global” falha, falha mais aí do que noutro sítio. Não por estar do lado dos criminosos, mas por nem sempre pôr o espectador suficientemente do lado da devastação que eles deixaram. Ainda assim, o filme toca numa verdade desconfortável: as democracias não se protegem escondendo os seus traumas, e o cinema não serve só para ilustrar consensos. Serve também para abrir feridas. A condição é que, ao fazê-lo, não nos peça para esquecer quem continuou a sangrar depois de a sessão acabar.
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