É necessário fazermos uma reflexão ainda maior do que aquela que fizemos noutras comemorações do 25 de Abril. Nos dias de hoje, encontramo-nos numa espiral de degradação das condições de vida e receio que tal não seja apenas uma sensação, mas sim uma realidade.
Berros, murros, piropos, bocas e propostas dúbias. É isto que se faz ouvir no parlamento hoje em dia. Quando tive o prazer de ouvir um plenário, em 2019, as coisas eram bastante diferentes.
Agora, as regras do jogo mudaram e, atualmente, a política vive do entretenimento. A história da democracia portuguesa, de que tanto nos orgulhamos desde o 25 de Abril de 1974, aparece agora mais fragilizada e fragmentada, de um modo que parece cada vez mais irreparável.
Valores que antes dávamos por garantidos tornam-se agora postos em causa, nomeadamente, o direito à habitação, o direito à saúde, a defesa dos direitos humanos, o combate à corrupção e até o direito a uma educação isenta. Apesar do descontentamento da população, parece não existirem quaisquer soluções. Quase como se quem nos governa não o estivesse a fazer em prol do bem-estar dos portugueses.
Com a falta de mediação da comunicação social, posição à qual fomos habituados durante grande parte da democracia portuguesa, os políticos tornaram-se entertainers. Aquilo que o entertainer mais procura é atenção e, enquanto vivermos numa sociedade que recompensa atenção com credibilidade, não teremos políticos dignos de confiança.
Neste 25 de Abril de 2026, cerca de 52 anos depois da eclosão da revolução dos cravos, sentimos mais mágoa e um maior receio. Seja porque a comemoração da Constituição é alvo de chacota, seja porque a transparência no que toca ao poder político começa a deixar de existir, seja porque está a tornar-se insustentável viver no nosso próprio país, tanto a nível económico como a nível social.
Enquanto cidadãos, se não responsabilizarmos o poder político e não tivermos uma voz ativa na tomada das decisões, a situação terá tendência para ficar mais débil e insustentável.
Tal como muitos jovens da Geração Z, que representam o futuro deste país, vejo-me confrontado com um futuro quase inexistente, onde conquistar as metas que os meus pais e os meus avós conquistaram parece impossível. Ainda assim, apesar de tudo, dizem-nos que está tudo bem.
Este 25 de Abril, para qualquer jovem, o sentimento de protesto estará mais presente. Não por convicções políticas, não por capricho, mas porque nos faz relembrar do nosso poder, da nossa empatia pelo próximo, assim como, da importância da liberdade.
Durante anos, tanto eu como muitos jovens não compreendíamos o porquê da importância desta data comemorativa. Afinal, em 1974 não estávamos lá. Hoje, se for preciso, lutaremos tanto quanto os corajosos que lá estiveram.
Não deixaremos de lutar por uma vida melhor, e isso deve ser sempre exaltado.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.