Dos filmes militantes do PREC às estreias recentes de “Revolução (Sem) Sangue”, “Portugueses” e agora de “Projecto Global”, o 25 de Abril continua a ser uma ferida luminosa no cinema português: gloriosa, contraditória e muito menos pacífica do que a lenda gosta de contar.
O 25 de Abril tem sido uma das grandes matérias-primas do cinema português. Não apenas como acontecimento histórico, mas como momento de transformação visual, emocional e simbólica. Foi uma explosão de imagens. Um terramoto de vozes, corpos, ruas, gestos e memórias. Durante algum tempo, pareceu que toda a gente queria filmar tudo: os tanques, os cravos, os soldados, as varandas, as fábricas ocupadas, os camponeses em assembleia, as mulheres a falar de trabalho e de vida, os bairros, os presos libertados, as contradições, a confusão e a euforia. O País abriu-se e o cinema, que durante tanto tempo vivera comprimido pela censura, saiu para a rua com uma fome quase física de ver e registar.
Durante alguns anos, o cinema português acreditou mesmo que podia não apenas fixar a História, mas participar nela. Era uma ideia bonita, romântica e, ao mesmo tempo, arriscada. Mas houve esse momento, e é mais do que justo reconhecê-lo, já que o cinema de Abril tentou também refundar-se a si próprio: pôs em causa a figura do autor, aproximou-se da televisão, experimentou novas formas de organização cooperativa, desceu à rua, foi ao campo, foi ao encontro das comunidades e dos conflitos concretos do país. A Cinequipa, a Cinequanon, o Grupo Zero e outras estruturas de produção pareciam anunciar não apenas um novo cinema dentro do cinema novo português, mas também uma nova forma de produzir imagens e de olhar para o país.
Soa grandioso. E foi. Também foi caótico, desigual, por vezes hoje visto como muito datado e, em não poucos casos, cinematograficamente frágil. Convém dizê-lo, porque falar do cinema da Revolução tende demasiadas vezes a cair na veneração automática. Nem tudo o que se filmou no PREC era bom cinema só porque vinha embrulhado em urgência histórica. Há por ali muito panfleto, muita voz off convicta, muito didatismo, muita imagem tratada como ilustração de uma ideia prévia. Por vezes, o povo surgia menos como realidade complexa do que como figura enquadrada por uma pedagogia demasiado segura de si. Falava-se em nome dele, explicava-se o que sentia, traduzia-se a sua luta, organizava-se a sua dor, tudo com uma confiança que hoje tanto pode impressionar como cansar.
Mas seria redutor ficarmos por aí, porque, no meio dessa febre revolucionária, houve filmes grandes, grandes a sério, desses que ainda hoje respiram sem precisar de muletas comemorativas. As Armas e o Povo (1975), filme coletivo realizado pelo Colectivo de Trabalhadores da Actividade Cinematográfica, reunindo vários realizadores portugueses como Acácio de Almeida, Eduardo Geada, Fernando Lopes e Fernando Matos Silva, entre outros, e até o brasileiro Glauber Rocha, continua a ter o choque da inscrição imediata da revolução no próprio ato de filmar. Torre Bela (1975), do cineasta alemão Thomas Harlan, referência incontornável dos tempos conturbados vividos depois do 25 de Abril e, muito em particular, da Reforma Agrária — cujo valor histórico e simbólico voltou esta semana a ser tema de um ciclo na Cinemateca com o sugestivo título “A enxada é de toda a gente” — mantém uma energia bruta e uma liberdade rara. Brandos Costumes (1974), de Alberto Seixas Santos, desmonta a família portuguesa e mostra como a opressão também vivia dentro de casa, à mesa, nos gestos e nos silêncios. Bom Povo Português (1980), de Rui Simões, percebeu cedo que as revoluções não acabam necessariamente em apoteose; acabam muitas vezes em melancolia, ambiguidade e ressaca. E Gestos e Fragmentos (1982), novamente de Alberto Seixas Santos, continua a ser um objeto precioso para pensar o pós-25 de Abril, convidando-nos a repensar as narrativas de que se faz a história coletiva. É talvez aquele filme raro que não quer confortar ninguém. Quer pensar. E isso basta para o manter vivo e actual.
Talvez o mais curioso seja que parte dos melhores filmes sobre Abril não nasceu no auge do entusiasmo revolucionário, mas já na fase em que a espuma começava a baixar. Como se a revolução, para ser realmente pensada, precisasse primeiro de deixar de ser vivida em estado febril. Como se filmar o acontecimento fosse uma coisa e compreendê-lo fosse outra. E talvez seja mesmo assim. Há momentos em que a urgência produz documentos. A reflexão, essa, costuma chegar mais tarde.
O que o cinema de Abril fez de melhor não foi apenas filmar o povo em movimento. Foi perceber, nalguns casos, que o povo real não coincide com a imagem simplificada que tantas vezes se fabrica dele. É por isso que a outra linha fundamental desse cinema, menos panfletária e mais funda, é a que procurou o país nas suas margens, nos seus rituais, na sua espessura antropológica, nas tradições, nas máscaras, nas vozes, na terra, nos fantasmas mais antigos do que a própria revolução. Filmes como Trás-os-Montes (1976), de António Reis e Margarida Cordeiro, Máscaras (1976), de Noémia Delgado, Nós por Cá Todos Bem (1978), de Fernando Lopes, Terra de Abril (1977), de Philippe Costantini e Anna Glogowski — dois dos muitos estrangeiros que filmaram em Portugal após o 25 de Abril —, ou mesmo Terra Fria (1992), de António Campos, baseado na obra de Ferreira de Castro, perceberam uma coisa decisiva: mudar um tempo histórico não é automaticamente mudar uma imaginação. E talvez por isso valha mais a pena procurar um país nos seus restos, nos seus mitos, nos seus gestos e nos seus silêncios do que numa leitura demasiado apressada da atualidade.
Dito isto, seria cómodo tratar tudo isto como uma bela relíquia de cinemateca, um assunto para investigadores, programadores e cinéfilos persistentes. Felizmente, Abril continua a regressar ao cinema português, e isso é um bom sinal: significa que ainda não foi arrumado definitivamente numa memória decorativa. Em 2024, Revolução (Sem) Sangue, de Rui Pedro Sousa, tocou no ponto mais incómodo da narrativa pacificada e lembrou aquilo que muitas vezes se suaviza: no 25 de Abril também houve mortos. A PIDE disparou sobre a multidão na Rua António Maria Cardoso e houve cinco vítimas mortais: quatro manifestantes foram alvejados e um agente da PIDE em fuga, triturado pela multidão em fúria. O filme, independentemente do juízo estético que cada um lhe faça, tem o mérito de recentrar essa ferida e de lembrar que a liberdade não chegou em estado puro e imaculado.
Depois, em 2025, Portugueses, de Vicente Alves do Ó, propôs outra via, menos frontal e mais sentimental, menos virada para o confronto e mais para a reencenação identitária. Um musical em torno da liberdade, da memória e da ideia de país é, por definição, uma aposta delicada. Mas o seu aparecimento é revelador: cinquenta anos depois, Abril continua suficientemente vivo para ser cantado, reinterpretado, dramatizado, transformado em memória coral. Já não é o cinema da urgência; é o cinema da herança, da revisitação, da tentativa de perceber o que ficou dentro de nós.
E agora surge Projecto Global, de Ivo M. Ferreira, que desloca o olhar para uma zona ainda mais desconfortável da memória portuguesa: a violência política no pós-Revolução, as FP-25, as fraturas ideológicas, a ressaca de um país que passou depressa demais da utopia à desilusão, da pureza revolucionária ao nevoeiro moral. Ao pegar nesse material explosivo, o filme vem lembrar que o pós-25 de Abril não foi apenas festa, conquista e libertação. Foi também sombra, trauma, radicalização e impasse. E isso, por si só, já basta para o tornar relevante.
Talvez seja esse o ponto. O 25 de Abril continua a existir no cinema português porque continua a existir como memória em aberto. Não apenas como glória, mas como matéria de dúvida, de reinterpretação, de confronto entre mito e realidade, entre celebração e inquietação. A ideia de uma “revolução sem sangue” é bela, eficaz, quase perfeita na sua força simbólica. Mas o cinema tem precisamente a virtude de estragar as versões demasiado limpas da História. De devolver espessura ao que a memória transforma em decoração.
É por isso que rever os filmes de Abril, antigos e novos, não é um luxo cinéfilo. É quase um dever de memória, para que a memória não se apague. É uma forma de voltar às imagens que tentaram fixar um país em mutação. Imagens febris, imperfeitas, contraditórias, por vezes panfletárias, por vezes geniais. Imagens que não servem apenas para recordar a revolução, mas para perguntar o que ficou dela no olhar, na sensibilidade e na imaginação portuguesa.
No fundo, o grande tema destes filmes todos, dos clássicos do PREC aos regressos recentes, não é apenas a revolução. É a forma como o cinema português foi tentando olhar para a liberdade, para a mudança, para a memória e para os fantasmas que sobrevivem a todas as datas históricas. E o cinema, quando é bom, faz-nos esse favor raro: obriga-nos a ver melhor. Ver os mortos, os vencidos, os entusiasmados, os ingénuos, os rostos anónimos, os silêncios e as falhas da memória. Ver a História sem verniz. E isso, por vezes, já basta para nos deixar a pensar.
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