O meu amigo e companheiro de trincheira cinéfila, Jorge Leitão Ramos, escreveu esta semana na revista Expresso sobre o fim do cinema. Eu, com todo o respeito e uma pitada de provocação, prefiro falar do fim da crítica de cinema tal como a conhecemos. Não do cinema. Nem sequer da crítica. Mas do monopólio da crítica. Porque, vejamos: hoje toda a gente quer ser crítico de cinema. E pior: toda a gente pode ser. O culpado? Ou o salvador? Chama-se agora Letterboxd, mas estende-se também a muitos sites e blogues de cinema.
Durante décadas, a crítica vivia nos jornais, nas revistas, nos suplementos culturais. Havia meia dúzia de nomes que “faziam opinião” e que quase “vendiam bilhetes de cinema”, fosse pela positiva, fosse pela negativa: os bola-preta, às vezes, vendiam tantos bilhetes como os cinco estrelas. O público lia, concordava, discordava, mas respeitava. O crítico era uma espécie de padre laico do gosto cinematográfico: tinha acesso antecipado aos visionamentos privados em sala, escrevia com autoridade e raramente era contestado. Ou era pelos distribuidores. Conta-se que uma velha lenda da distribuição nacional, depois de um visionamento de imprensa, se aproximou de um crítico que estava com cara de poucos amigos e lhe disse: “Pode dizer mal à vontade do filme, mas já agora ponha uma fotografia bem grande.”
Agora? Agora as estreias de cinema são tantas todas as semanas que, às vezes, até vemos filmes em casa através de links, e o crítico profissional é apenas mais uma conta no meio de 26 milhões de utilizadores, fora o resto que anda pela net.
Só no Letterboxd são 26 milhões de utilizadores. Em 2020 eram 1,7 milhões. Em 2026 já ultrapassaram os 26 milhões. E continuam a crescer como se fosse uma saga da Marvel no seu auge, antes da fadiga das sequelas.
No Letterboxd, por exemplo, um miúdo de 17 anos começa por dar cinco estrelas a La La Land – Melodia de Amor (2016), de Damien Chazelle, e, poucos meses depois, descobre Harakiri (1962), de Masaki Kobayashi. Quantos de vocês viram este filme? E o miúdo escreve nos comentários que talvez ainda não esteja preparado para ele. Promete voltar daqui a uns anos. E volta. Isto não é ignorância. Isto é formação cinéfila em tempo real. É bonito, assustador, mas também é democrático.
Enquanto isso, os jornais fecham páginas de cultura. As redações emagrecem. A crítica profissional torna-se freelance, precária, comprimida em 3.000 caracteres e num título SEO-friendly. Mas no Letterboxd, um utilizador qualquer pode escrever 2.500 palavras sobre Sátántangó (1994), do recém-falecido Béla Tarr, analisando segundos de cada plano, e ter leitores atentos. O que mudou? Mudou tudo.
O Rotten Tomatoes, outro site bastante popular e referido em muitas “críticas de cinema” para optimizar o SEO, transformou-se também numa ferramenta de marketing. “100% Fresh” estampado nos cartazes. Não deixa de ser estranho como uma percentagem pode decidir bilheteiras. Mas o Letterboxd é outra coisa, mais sofisticada. É uma colmeia caótica, irónica, apaixonada. Ali convivem Moonlight, Pulp Fiction e até um qualquer obscuro drama polaco que ninguém encontra no streaming. Ali há listas de “filmes onde alguém joga basquetebol inesperadamente”. E, curiosamente, funcionam como porta de entrada para obras que nunca passariam no radar do grande público. Há crítica séria? Há. Mas também há muita porcaria. Há piadas e “bocas” de uma linha? Também. Há jornalismo gonzo teórico, emocional e pouco objectivo e há “vibes enormes”. E é aqui que entra o embaraço e o grande incómodo.
Quando um utilizador resume Dois Homens e um Destino (Butch Cassidy and the Sundance Kid), com Paul Newman e Robert Redford, a “vibração é sempre enorme”, metade da crítica dita responsável espuma. Quando alguém escreve que Música no Coração (The Sound of Music) merece duas estrelas, o mundo arde. Mas essa fricção é a própria essência da cinefilia: discutir à saída do cinema, indignar-se, rir, exagerar.
A crítica deixou de ser vertical. Tornou-se horizontal. E isso dói a quem cresceu numa lógica de autoridade. Mas atenção: não é o fim da crítica. É apenas o fim do pedestal.
No Letterboxd, os clássicos a preto e branco convivem com animação japonesa, terror experimental e blockbusters. Marie Antoinette, de Sofia Coppola, encontrou ali o amor que lhe faltou na estreia. Jovens espectadores vão ver retrospetivas de Edward Yang (Yi Yi) ou Andrei Tarkovsky (Nostalgia) porque alguém os desafiou num “Criterion Challenge”. Isto pode ser superficial? Às vezes. É também competitivo? As estatísticas de “quantos filmes viste este ano” criam ansiedade. Mas, acima de tudo, torna-se contagiante.
A geração que cresceu a deslizar no YouTube e agora no TikTok está, paradoxalmente, a ver A Cura (1997), de Kiyoshi Kurosawa, ou a descobrir as repetições melancólicas do realizador coreano Hong Sang-soo (A Romancista e o Seu Filme), também ainda graças à crítica que sobra. E isso devia interessar aos estúdios mais do que qualquer algoritmo ou a opinião de um “influencer”. O cinema também não está a morrer. Está a deslocar-se.
Quando Batalha Após Batalha, de Paul Thomas Anderson, passa em 70mm e alguém sai da sala com vontade de discutir o filme às duas da manhã, essa discussão já não precisa de um suplemento cultural. Precisa simplesmente de Wi-Fi.
E há outro detalhe fundamental que importa referir: o Letterboxd é também estranhamente “old school”. Não há mensagens privadas, botão de “não gosto” ou algoritmos a premiar a indignação tóxica. Há perfis personalizados, listas, seguidores. Lembra um pouco a internet do início dos anos 2000, ou seja, mais comunidades do que tribos.
O que me leva à pergunta inevitável: e nós, críticos profissionais, fazemos o quê? Choramos o fim da autoridade? Ou entramos na conversa?
Richard Brody, o conceituado crítico da The New Yorker, diz que a crítica de cinema está melhor do que nunca porque há mais gente a escrever com paixão. Talvez tenha razão. Talvez o problema não seja a abundância de vozes, mas a nossa incapacidade de aceitar que já não somos os únicos microfones.
O futuro dos filmes não vive apenas nas salas IMAX ou nas salas de cinema dos multiplex, nem nas estratégias de marketing das majors. Vive na excitação genuína. Na descoberta inesperada, às vezes em pequenas salas com verdadeira curadoria e programação cuidada e criteriosa: nos miúdos que começam com comédias de adolescente ou musicais docinhos como La La Land e acabam a analisar o desmantelamento do mito do samurai.
O cinema sobreviverá? Claro que sim. A crítica de cinema sobreviverá? Também. Mas não será como era antes. Será mais partilhada, fragmentada, mais caótica. Menos solene. Talvez menos elegante. Mas mais viva.
E, no fundo, se o cinema sempre foi uma arte coletiva — realizadores, atores, técnicos, público — talvez a crítica também estivesse destinada a tornar-se coletiva.
Não é o fim da crítica. É o fim de uma certa exclusividade. E isso, para quem ama verdadeiramente o cinema, pode ser a melhor notícia dos últimos anos.