O Dia Nacional da Energia, celebrado a 29 de maio, é a oportunidade ideal para refletirmos com seriedade sobre a forma como produzimos, consumimos e encaramos a energia em Portugal. Mas estará o nosso país preparado para a transição energética, ou continua a optar por soluções pouco ambiciosas?
Sejamos francos: nenhum governo consegue mostrar o que vale num só ano – e este até conseguiu mostrar-se bem ativo durante o seu curto mandato.
Pois vejamos: no que diz respeito ao setor energético, especificamente, várias foram as medidas positivas, que se refletem, inclusive, no Orçamento de Estado em vigor, como o reforço do investimento no Ministério do Ambiente – com um aumento de 14,3% em relação a 2024 –, a revisão do Roteiro para a Neutralidade Carbónica e o aumento da meta de energias renováveis para 51% até 2030.
Contudo, estas ações permanecem conservadoras, além de não estarem a ser implementadas com a urgência necessária. Agora que vamos ter novo governo, é tempo de tirar mais ideias do papel, de ir mais além, de promover a coesão política, também na área da Energia.
O apagão nacional de 28 de abril demonstrou, de forma crua, a vulnerabilidade do nosso sistema energético. Um país moderno não pode depender de infraestruturas desatualizadas nem da ausência de mecanismos de monitorização preventiva. A fragilidade da nossa rede é um risco real — não apenas técnico, mas também económico e social. Portugal precisa de uma rede verdadeiramente inteligente, capaz de antecipar falhas, integrar dados em tempo real e reagir com autonomia.
Para isso, é essencial acelerar a digitalização do setor energético. A aposta em smart grids, modelos preditivos baseados em dados e inteligência artificial é inadiável. Estes sistemas permitem equilibrar melhor a oferta e a procura, reduzir desperdício e aumentar a resiliência em cenários extremos. Sem essa camada de inteligência, a transição energética fica incompleta.
A digitalização é uma tendência em qualquer área e, no caso da Energia, não é diferente. A inovação tecnológica deve ser o centro das políticas públicas, também ao nível dos edifícios, pois, para a redução do seu consumo energético, podem ser utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial. Neste contexto, a reabilitação do parque edificado português é essencial.
O Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis, por exemplo, foi um bom primeiro passo para combater a pobreza energética, mas acabou por não ter a abrangência desejada, pelo que incentivos mais robustos e uma estrutura que permita ações rápidas, principalmente nas zonas mais vulneráveis, podem ser uma boa solução.
No entanto, a implementação desta medida por toda a população exige que uma outra seja aplicada – a aposta em literacia energética moderna e acessível, que capacite os cidadãos a compreender o impacto do seu consumo no ambiente, de forma a sensibilizar para escolhas mais conscientes e para um maior envolvimento com a temática da transição energética.
Por outro lado, a descentralização da produção de energia deve fazer parte do leque de estratégias a implementar, para facilitar não apenas o autoconsumo, mas também a criação de comunidades energéticas com capacidade de gestão e sistemas de armazenamento local. Estes modelos aproximam os cidadãos da produção energética, aumentam a resiliência das redes e promovem a justiça social.
Perante a preocupação crescente com as alterações climáticas e a finitude de recursos, é fundamental investir mais nas áreas do ambiente e energia. Por isso, mais do que nunca, o governo deve olhar para esta reeleição como uma nova oportunidade para fazer mais e melhor neste campo, quando existe um novo sentido de urgência no País. O tempo da transição energética é agora.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.