No desenvolvimento de software, existe um conjunto de cinco princípios fundamentais que devemos seguir e são muitas vezes referidos através da mnemónica inglesa que agrega as primeiras letras de cada um deles. Nasce assim o conceito de SOLID. Cada uma representa uma boa prática de programação; por exemplo, o S vem de “Single Responsibility” – da responsabilidade única de uma interface; o O de Open/Closed – que indica que as entidades devem ser abertas para extensão, mas fechadas para modificação, e adiante. Gostava agora de chamar à atenção para o facto de três destes princípios serem creditados a Robert C. Martin e outro a Bertrand Meyer. Curiosamente, o único princípio ao qual foi atribuído o nome do autor foi formulado por uma mulher: Barbara Liskov, cientista de computação que criou o Princípio da Substituição de Liskov – o L, na nossa mnemónica.
Para marcar o Dia da Mulher, queria trazer alguns contos de mulheres maravilhosas na ciência e tecnologia das quais a maioria das pessoas ainda não ouviu falar, apesar de ter sido feito um filme para Hollywood, “Hidden Figures” que toca, entre outros tópicos, no papel essencial que algumas mulheres tiveram para o sucesso da NASA.
Era uma vez – algures antes de 1880 – uma menina chamada Annie Cannon que adorava astronomia. Em vez de ser encaminhada para seguir o rebanho e “ser uma boa esposa e mãe”, a sua mãe encorajou-a a estudar ciência. Em 1884, licenciou-se em Física no Wellesley College, no Massachusetts, e foi contratada para trabalhar como assistente do diretor do Observatório do Harvard College. Tornou-se o primeiro membro da Harvard Computers, uma equipa exclusivamente feminina que analisava os dados que os astrónomos (homens) obtinham, utilizando os telescópios. O seu trabalho de estudo e identificação de padrões nos espectros das estrelas foi publicado em 1901 sob a forma de um catálogo de estrelas. Vinte anos mais tarde, a União Astronómica Internacional formalizou o sistema de Annie como a classificação estelar a ser utilizada na categorização das estrelas. Apesar deste grande reconhecimento do seu trabalho, Annie e as outras mulheres tiveram de suportar opiniões como “estás fora do teu lugar” e “o teu trabalho devia ser ser dona de casa”, para além de receberem salários mais baixos do que os dos seus colegas homens.
A Harvard Computers não é a única equipa de mulheres reunida para fazer “trabalhos chatos” em contextos científicos. Em 1950, começaram a ser utilizados computadores na NASA, mas os engenheiros e cientistas do sexo masculino não confiavam nas máquinas e preferiam que os cálculos fossem efetuados por um humano. Nesse sentido, foram contratadas mulheres para as tarefas em mãos e a primeira foi Barbara Canright, em 1939. Mas há um limite para o que uma só pessoa pode calcular e, como tal, foram contratadas mais mulheres para ajudar. Uma delas teve a ideia de contratar recém-licenciadas de universidades vizinhas, o que se revelou ser a oportunidade de que algumas mulheres precisavam para prosseguirem as suas carreiras científicas.
Uma dessas mulheres cuja história vale a pena destacar é Barbara Paulson. Foi ela que efetuou os cálculos que permitiram aos EUA lançar o seu primeiro satélite na corrida espacial contra a União Soviética. Depois disso, ficou grávida do seu primeiro filho. Nos anos 60, havia uma regra na NASA que obrigava as mulheres a demitirem-se se ficassem grávidas. Felizmente, a supervisora de Barbara – Helen Ling – tinha a política de readmitir as suas colegas após o parto, sempre que estivessem prontas para voltar ao trabalho. Graças a este acordo de licença de maternidade, Barbara pôde regressar à NASA e calcular trajectórias para as sondas Mariner que foram enviadas para Vénus e Marte.
Quando os computadores foram considerados fiáveis, estas mulheres (e as que se seguiram) continuaram a dar grandes contributos para a indústria aeroespacial. Helen Ling continuou a programar e o seu futuro software viria a executar tarefas como o mapeamento da superfície da Terra, o estudo de Marte a partir da órbita e a análise de todo o céu noturno em comprimentos de onda infravermelhos. Barbara Paulson passou a trabalhar no programa Viking, determinando a forma de chegar à superfície de Marte. Também fez cálculos para as duas naves espaciais Voyager, uma das quais está agora muito, muito… longe de casa.
Há tantas mulheres que deram contributos incríveis para os domínios da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, e podemos celebrá-las todos os anos a 11 de fevereiro – o Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência, para além de no Dia da Mulher, em que celebramos todas as carreiras, todos os percursos na sociedade que devem ser relembrados.
Tal como outros dias internacionais, o Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência é promovido pelas Nações Unidas para educar o público sobre temas de interesse. Nesta data, o objetivo é promover o acesso e a participação plena e igualitária das mulheres e raparigas na ciência. As estatísticas recolhidas pela ONU mostram que a desigualdade salarial ainda é visível em 2024: “As mulheres recebem normalmente bolsas de investigação científicas mais pequenas do que os seus colegas homens e, embora representem 33,3% de todos os investigadores, apenas 12% dos membros das academias científicas nacionais são mulheres”.
Mas o que deve realmente chamar a atenção da sociedade é o seguinte: “Apesar da escassez de competências na maioria dos domínios tecnológicos que impulsionam a Quarta Revolução Industrial, as mulheres continuam a representar apenas 28% dos licenciados em engenharia e 40% dos licenciados em ciências da computação e informática”, e “Em domínios de ponta como a inteligência artificial, apenas um em cada cinco profissionais (22%) é mulher.” (fonte: 70+ Women In Technology Statistics (2024)).
Como podemos fazer com que mais raparigas se interessem pela ciência? Como podemos ajudá-las a tornarem-se mulheres na tecnologia? O que é que nós – como indivíduos, como famílias – podemos fazer? Podemos contar as histórias de mulheres na ciência, que tiveram papéis importantes para a sua promoção, e também participar com os nossos filhos em atividades de lazer que promovam o conhecimento científico, tais como levá-los ao Planetário, a museus e exposições da ciência e promover programas extra-curriculares que despertem a sua curiosidade.
O que é que nós – enquanto empresas – podemos fazer? Podemos capacitar e contratar mulheres que se formaram recentemente em áreas tecnológicas e podemos liderar pelo exemplo. No final de janeiro de 2024, a empresa onde trabalho – Volkswagen Digital Solutions – tinha 26% de mulheres a trabalhar em equipas de produto, aliás, 28% se incluirmos as equipas centrais e a gestão. Já na direção de engenharia da Tech Unit onde trabalho – Software Development Center – são 57%. O que é que todos nós podemos fazer? Promover e celebrar as nossas colegas mulheres no setor da tecnologia. Festejar as conquistas de cada uma, independentemente de tratar-se de um prémio Nobel, de um artigo publicado numa revista com revisão por pares ou de ser oradora principal numa conferência.
Neste artigo, em particular, quero celebrar as minhas companheiras de viagem no mundo da Ciência e Tecnologia. Recordemos os seus nomes e histórias, e que sirvam de inspiração para sociedade de hoje! Feliz Dia Internacional da Mulher.
Como Barbara Liskov disse uma vez: “Que possamos fazer o que amamos e amar o que fazemos”.
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