A sida infetou cerca de 47 000 pessoas no nosso país desde 1985, tendo sido diagnosticados 1093 novos casos em 2013. A taxa é de cerca de 10,5 infeções por 1000 habitantes. Apesar das possibilidades de tratamento e controlo, o HIV foi responsável por 226 mortes no ano de 2013. Há doentes silenciosos: cerca de 25 mil pessoas em Portugal podem estar infetadas pelo vírus sem saberem. Portugal destaca-se pela negativa por continuar a ter diagnósticos tardios. O número de pessoas infetadas, mas não diagnosticadas, é assustador. Sabemos duas coisas: a erradicação da infeção pelo HIV pela terapêutica antirretroviral ainda não é atingida; no entanto, existe um número crescente de fármacos que reduzem a mortalidade e morbilidade associadas ao HIV. Assim, iniciando terapêutica, não há uma sentença de morte, há uma doença crónica, com a qual se tem uma vida relativamente normal, com mobilidade, trabalho, vida amorosa, vida social, expectativas, uma vida, mas com estigma.
É preocupante verificar um retrocesso, quando sabemos que a taxa de infeção por HIV no que toca a novos casos surge em pessoas com comportamentos heterossexuais e em faixas etárias muito jovens (17-18 anos). A mesma informação é-nos dada por quem trabalha no terreno com casos de “homens que têm sexo com homens”.
Há fatores essenciais a ter em conta: 1) a evolução da doença para crónica gerou uma descontração comportamental; 2) a sensibilização, a relação de quem se testa com quem testa, implica uma rede de proximidade que dê confiança a quem procura ajuda. Muitos dos médicos de família não estão preparados para lidar com a sexualidade gay, com a explicitação verbal e descomplexada da sexualidade entre homens ou de sexo entre mulheres, porque ainda estão formatados para a relação homem/mulher.
Daí serem tão importantes os centros de proximidade, como é o caso do CheckpointLX, “um centro de base comunitária, dirigido aos homens que têm sexo com homens (HSH), para o rastreio anónimo, confidencial e gratuito do vírus da imunodeficiência humana (HIV) e outras infeções sexualmente transmissíveis (IST), aconselhamento sexual e referenciação aos cuidados de saúde. Toda a equipa é constituída por técnicos HSH” ler toda a informação sobre este centro aqui http://www.checkpointlx.com/. É um dos centros de rastreio do GAT (www.gatportugal.org).
Hoje é tempo de se iniciar uma discussão séria sobre a PrEP. É essencial ler na íntegra o texto da autoria dos responsáveis pelo CheckpointLX com o título Queremos PrEP em Portugal: (http://dezanove.pt/queremos-prep-emportugal-857728) PrEP significa Profilaxia pré-Exposição e consiste na toma de um medicamento, um antirretroviral (usado para tratar pessoas que vivem com HIV), para prevenir a infeção em pessoas negativas. Como se pode ler no link que reproduzi, estamos perante uma estratégia de prevenção que tem uma eficácia perto dos 100%.
Em Portugal, as novas infeções por HIV entre Homens que têm sexo com Homens (HSH) tem vindo a aumentar. De acordo com dados do CheckpointLX e do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), a incidência do HIV nos HSH é de 3.36 em cada 100, por cada ano. Em Lisboa, a cada ano que passa, mais de 3 em cada 100 HSH infetam-se de novo. Para além disso, 80% dos HSH não infetados são elegíveis e poderiam beneficiar da PrEP, o que simultaneamente significa que 80% dos HSH têm um risco elevado de se infetarem. Em 2014, num estudo efetuado junto de HSH, 2/3 mostraram-se interessados em utilizar PrEP como estratégia de prevenção. O uso do preservativo não controlou a infeção por HIV em Portugal é a nossa realidade: a PrEP vem ajudá-lo na sua tarefa. A PrEP não é para todos – é dirigida a pessoas de risco elevado e também uma escolha individual.
Tenho uma coisa por segura. Este é um tempo político. A PrEP, em linguagem não médica, uma vacina, é política, é luta política e é decisão política. Foi assim nos anos oitenta. Será assim agora.