Desde a invenção da Imprensa que cada grande inovação tecnológica é acompanhada por previsões sobre o futuro da educação. A rádio, a televisão, os computadores, a internet e as plataformas digitais foram sucessivamente apresentados como instrumentos capazes de revolucionar a aprendizagem e, em alguns casos, de tornar menos necessária a presença dos professores.
A emergência da Inteligência Artificial reativou essas expectativas. Pela primeira vez, dispomos de sistemas capazes de produzir textos coerentes, responder a perguntas complexas, sintetizar informação, traduzir documentos, elaborar relatórios ou gerar imagens de grande sofisticação. Muitas das tarefas intelectuais que durante séculos associámos exclusivamente aos seres humanos passaram a poder ser realizadas por máquinas.
Perante esta transformação, a pergunta surge quase inevitavelmente: continuaremos a precisar dos professores?
A questão é legítima. Mas talvez revele uma compreensão demasiado limitada daquilo que significa educar.
Se a função principal dos professores fosse apenas transmitir informação, então os livros teriam tornado a sua presença dispensável. Se consistisse apenas em disponibilizar conhecimentos, as bibliotecas e, mais tarde, a internet teriam substituído as escolas. E se ensinar significasse simplesmente fornecer respostas corretas, a IA poderia efetivamente assumir uma parte substancial desse trabalho.
Mas a educação nunca foi apenas isso.
A tendência para reduzir a educação à transmissão de conteúdos ou ao desenvolvimento de competências mensuráveis tornou-se particularmente forte nas últimas décadas. Os sistemas educativos passaram a ser avaliados através de indicadores de desempenho, resultados comparáveis e metas de aprendizagem. Embora esses instrumentos tenham utilidade, contribuíram frequentemente para obscurecer uma questão mais fundamental: qual é a natureza da relação educativa?
A resposta exige que olhemos para a educação não apenas como um processo de aprendizagem, mas como um fenómeno profundamente humano e intergeracional.
Hannah Arendt escreveu que a educação é o ponto em que decidimos se amamos suficientemente o mundo para assumirmos responsabilidade por ele e se amamos suficientemente as crianças para as preparar para a tarefa de o renovar. A formulação continua a ser extraordinariamente atual. Cada geração recebe um mundo que não criou e tem a responsabilidade de o transmitir aos que chegam. A educação é uma das instituições através das quais essa transmissão se torna possível.
É precisamente aqui que a IA nos obriga a repensar algumas das nossas certezas.
As máquinas podem processar informação. Podem reconhecer padrões. Podem produzir respostas plausíveis e, em muitos casos, surpreendentemente sofisticadas. Mas não podem assumir responsabilidade por uma criança ou por um jovem. Não podem responder pelo modo como alguém se torna membro de uma comunidade humana. Não podem acolher os recém-chegados num mundo comum.
Aquilo que a IA não consegue reproduzir não é apenas uma competência. É uma relação.
A relação pedagógica não constitui um simples enquadramento afetivo da aprendizagem. É uma condição fundamental da formação humana. É nela que se constrói a confiança necessária para aprender. É nela que os conhecimentos adquirem significado. É nela que os mais novos descobrem que pertencem a uma História, a uma cultura e a uma comunidade que os antecedem.
Aprender envolve certamente informação. Mas envolve também reconhecimento, responsabilidade e diálogo. Envolve o encontro com alguém que representa o mundo e que, ao mesmo tempo, desafia o aprendiz a encontrar o seu próprio lugar nesse mundo.
Nenhuma plataforma digital consegue substituir inteiramente essa experiência.
Pelo contrário. Quanto mais avançadas se tornam as tecnologias capazes de produzir informação, mais evidente se torna a importância das relações através das quais essa informação ganha sentido.
Talvez por isso uma das propostas mais interessantes surgidas nos últimos anos tenha vindo da maior organização mundial de sindicatos dos professores, a Internacional da Educação. A proposta é simultaneamente simples e provocadora: reconhecer a relação entre professor e aluno como Património Mundial da Humanidade.
À primeira vista, a ideia pode parecer excessiva. Estamos habituados a associar o Património da Humanidade a monumentos, cidades históricas, obras de arte ou paisagens naturais. Contudo, uma reflexão mais atenta revela a profundidade da proposta.
A Humanidade não preserva apenas objetos. Preserva também práticas, tradições e formas de relação que considera essenciais para a sua continuidade. Existem bens materiais que merecem proteção. Mas existem igualmente bens relacionais sem os quais nenhuma sociedade conseguiria sobreviver.
A relação pedagógica é um desses bens.

É através dela que os conhecimentos são transmitidos de geração em geração. É através dela que as crianças e os jovens aprendem a interpretar o mundo, a dialogar com os outros, a reconhecer limites e a assumir responsabilidades. É através dela que cada sociedade se renova sem perder a memória de si própria.
A proposta da Internacional da Educação adquire um significado ainda mais relevante na era da Inteligência Artificial.
Durante muito tempo, o progresso tecnológico foi pensado sobretudo em termos de substituição. Procurávamos identificar quais as tarefas humanas que poderiam ser automatizadas. Hoje, perante sistemas capazes de realizar operações intelectuais cada vez mais sofisticadas, talvez seja mais importante colocar uma pergunta diferente: que realidades humanas merecem ser preservadas precisamente porque não podem ser automatizadas?
A relação entre professor e aluno pertence a essa categoria.
Não porque seja um vestígio do passado, mas porque continua a desempenhar uma função insubstituível. Ela constitui uma das formas através das quais as sociedades transmitem conhecimento, constroem confiança entre gerações e mantêm vivo o sentido de um mundo comum.
A Inteligência Artificial transformará inevitavelmente a educação. Criará possibilidades de acesso ao conhecimento, novas formas de organização da aprendizagem e novos desafios éticos e políticos. Ignorar essas transformações seria um erro.
Mas seria igualmente um erro concluir que o futuro da educação depende sobretudo da sofisticação das tecnologias que utilizamos. O seu futuro dependerá da nossa capacidade para preservar aquilo que torna a educação uma experiência humana.
Talvez o verdadeiro legado da revolução da Inteligência Artificial não seja a substituição dos professores. Talvez seja a redescoberta daquilo que eles representam.
Não apenas especialistas em conteúdos ou facilitadores de aprendizagens, mas mediadores de uma relação através da qual cada geração acolhe a seguinte e lhe transmite um mundo comum.
E essa relação, mais do que qualquer tecnologia, pode muito bem ser um dos patrimónios mais valiosos da Humanidade.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.