Eu nunca tinha estado com uma mulher. Eu nunca tinha estado. Ainda não tinha tido tempo de ser, na vida, nas horas, noutros lugares que não ao lado de minha mãe, a quem ajudava, na casa, na lavoura, cuidando dos irmãos e dos rebanhos, aprendendo com obediência mas sem paixão o ofício de meu pai, agora doente, e fechando a taberna todos os dias. Cumpria os meus deveres como se não houvesse outra maneira de conduzir os dias. Nunca tinha aprendido a ler ou a escrever. Não conhecia os princípios da música ou da pintura, nem sonhava com a existência de uma matemática, detentora dos segredos do universo, números muito maiores do que os usados em trocas nos mercados. Fui ensinado a temer qualquer ideia abstrata, a dirigir-me com calma e com a devida subserviência a qualquer desconhecido que aparecesse vestido com tecidos ricos e a concentrar-me em evitar a fome e a morte.
Raramente dirigia a palavra a quem não fosse da família, próximo ou distante, pessoa ou animal, até àquela fatídica noite de dois de maio em que cumpri o meu desejo mais reprimido.
Todos diziam que ela era pessoa maldita. Uma bruxa que andava sempre de botins para esconder os pés de cabra. Uma puta que se vendia aos franceses a troco de ganchos de prata e lenços de seda do Oriente que trazia sempre a cobrir os ombros. Mas eu tinha a certeza de que ela era a pessoa mais sábia e mais bonita que já conhecera em toda a minha vida. Poderia passar noites a fio a ouvi-la sem me cansar.
Aquela maja de cabelos grisalhos, que fumava charutos de Cuba como se fosse um mercador, cantava como se fosse um anjo e lia o futuro na palma da mão a quem lhe oferecesse um litro de licor, contava sobre os hábitos, a língua e a revolução de um país onde tinha vivido como cortesã em tempos idos, um país onde acreditavam que todos eram iguais, irmãos e livres. E eu queria visitar esse país, um dia moraria lá. Com ela. Aquela maja disse-me, certa vez, para não me iludir:
− São as nossas vidas duríssimas que sustentam a vida, o entretenimento e a leitura dos reis e da nobreza. São os nossos corpos de mulheres pobres que alimentam o prazer que os mais ricos não podem ter com as suas mulheres porque as amordaçam e espartilham até perderem por elas o fascínio.
Eu nem sempre percebia o que a maja dizia, nem nunca lhe dirigia a palavra, mas sempre que estava sozinha, fazia-lhe companhia até casa, de noite, depois de fechar a taberna, e desejava-lhe bom dia todas as manhãs quando passava pela sua porta e lhe deixava uma jarra de leite de burra que ela comprava à minha mãe. Todas as noites jurava para mim mesmo que iria aprender a ler e a escrever, custasse o que custasse, só para lhe dedicar os mais belos poemas, provando-lhe assim que poderíamos ser iguais na arte do romance e belos, mais do que fraternos, na nossa relação, apesar da diferença de idade.
Esta maja, com quem eu sonhava durante todos os momentos livres que tinha, convidara-me para a sua cama esta madrugada. Não por dinheiro, como vi o meu tio e o meu avô fazerem, não por interesse ou poder, como faziam os senhores de uniforme que entravam e saíam de sua casa a qualquer hora do dia ou da noite, nem para a perdoar, como me contava ela que lhe dizia o padre. Convidara-me apenas porque gostava da minha companhia.
− Eu, Xavier de la Fuente, 16 anos, interesso à mulher mais bonita, mais inteligente e mais sábia que conheço neste mundo.
A emoção do encontro foi tão grande que nada aconteceu. Ao primeiro gesto, adormeci, feliz, no abraço dela, para acordar em sobressalto com os gritos na rua e as chamas a entrarem pelo quarto adentro. Já não a tinha a meu lado na cama, apenas o seu lenço vermelho permanecia sobre os lençóis. Um lenço que ela garantia ter recebido de um general estrangeiro muito influente, que tinha feito uma grande revolução lá no tal país que acreditava na fraternidade e na liberdade, o país para onde nos mudaremos e viveremos juntos, um dia, longe destes arrabaldes madrilenos. Gritei por ela mas não a encontrei em casa.
Descalço e apenas com umas calças vestidas, saltei pela janela do quarto, e encontrei a cidade em chamas, invadida por soldados mamelucos a cavalo, de tochas erguidas, incendiando palheiros e celeiros. Duvidei por momentos se estaria acordado. Não me lembrava de ter adormecido e não sei se o amor, quando cumprido com uma maja nos pode levar ao inferno, como uma vez me avisara a minha tia-avó.
Voltei a gritar por ela nas ruas, procurei-a, alheio à revolta e ao horror que se desenrolava nas ruas. As portas das casas estavam escancaradas e eu entrei numa delas, e depois noutra, e ainda noutra. Vi rebanhos a fugir sem pastor que os orientasse, vi mulheres a correr com filhos ao colo, vi um cavalo a cair sobre um camponês, um mameluco a cortar uma perna a um meu vizinho, três vultos de volta de uma mulher que lutava para se livrar deles e que só podia ser ela, a minha maja.
Agi sem pensar. É sabido que quando o coração decide bater muito alto ensurdece a razão. Encontrei um machado. Em tronco nu e sem sapatos, dirigi-me de machado na mão na direção da mulher e dos três soldados que a violavam, pisando a terra quente e o feno queimado. À medida que me aproximava, reparei que um dos homens não era um soldado mas uma ave negra gigante que bicava o fígado da minha mulher, enquanto os outros a tentavam devorar. Quando ergui os braços para deixar cair o machado nas costas daquele monstro alado, uma escuridão abateu-se sobre mim.
Acordei deitado numa carroça com o corpo dorido, de mãos atadas atrás das costas, o lenço vermelho dela à minha cintura, uma camisa branca vestida e umas botas dois tamanhos acima do meu número calçadas.
− Eram de um morto − explicou-me um homem mais velho sentado a meu lado.
Fui empurrado à força para fora da carroça por dois homens de uniforme que me puseram nesta fila com centenas de outros homens no monte do Príncipe Pio. Uma mulher repara nas minhas costas ensanguentadas, empresta-me o seu manto negro e cobre-me. Olho à volta, ainda atordoado e consigo ver lá ao fundo uma igreja dourada. E ao lado da igreja, um palácio faustoso como nos contos que ela me lia ao final do dia. À minha frente um homem iluminado, de camisa branca, só pode ser Cristo. A luz que dele emana é tão forte que tenho de tapar os olhos por um momento. A dor que sinto no peito provocada pela ausência dela é tão lancinante que ultrapassa a dor das minhas feridas mas também me tolda o discernimento.
− Estarei no paraíso? Ou no inferno? Poderão ambos ser o mesmo lugar? Poderemos reencontrar-nos aqui?
Ela costumava dizer-me que o amor é um jogo onde se ganha quando se é derrotado e se perde sempre que se vence sem poesia ou com dinheiro. Acabo de ser empurrado para a fila da frente com mais sete companheiros.
Ainda oiço:
− Viva Espanha! Guerra aos assassinos!
E depois um disparo. Sinto o peito a arder. Uma dor que nunca tinha sentido antes e que me faz perder todos os outros sentidos e todas as outras dores.
Tenho a certeza.
− Encontrei o amor
Pré-publicação de um excerto do livro Hoje, 3 de Maio, um romance escrito a partir do quadro Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808 – Um retrato de quem fuzila e de quem é fuzilado numa Europa que permanece, até hoje, presa num tempo de guerra. Editorial Caminho