Em Amesterdão e noutras cidades europeias surgiu uma iniciativa maravilhosa. O “clube offline” que organiza encontros regulares de pessoas que se juntam para todo o tipo de atividades − leitura, escrita e jogos ou jantares − com apenas uma condição: telemóveis desligados. É tão simples quanto isso, criar um espaço comunitário onde todos possam conectar-se de forma espontânea.
O ato de desligar tornou-se uma necessidade real. Gastamos horas a ver a nossa atenção devorada pelos algoritmos de inúmeras aplicações que passamos o dia a abrir e fechar. Dou por mim a pensar quando foi a última vez que li 50 páginas seguidas sem sentir o impulso de estender a mão em direção ao telemóvel, para verificar as mais recentes notificações. Por acaso, lembro-me exatamente desse dia. Foi a 28 de abril de 2025, mais conhecido como o dia do “apagão”, com todas as redes de comunicação mortas.
Ao contrário de muitos jovens que querem trazer de volta um passado que nunca conheceram, faço parte da geração que ainda vivenciou a era analógica. Hoje, é inevitável a nostalgia quando irrompem memórias de uma vida em que o tempo parecia passar mais devagar. Dependíamos do telefone fixo para comunicações, tirávamos fotografias com máquinas analógicas, e cumpríamos o ritual de levar os rolos a uma loja para serem revelados. Mesmo sem telefones, era raro perdermo-nos uns dos outros. Os nossos pais não tinham forma de saber o que fazíamos grande parte do tempo. Ainda hoje não fazem ideia dos sítios em que andámos e com quem andámos. Líamos e ouvíamos música nos tempos livres, enviávamos cartas e postais escritos à mão para os amigos e eles respondiam-nos de volta.
Éramos adolescentes quando recebemos o primeiro telemóvel, mas não era uma tecnologia que alterasse grandemente as nossas rotinas. Comunicávamos através das mensagens escritas e dos toques de telefone (sem atendermos as chamadas). Permitiu-nos ter mais privacidade, coisa rara entre jovens. Quando as primeiras plataformas digitais surgiram em massa, não havia qualquer questão sobre se deveríamos seguir ou não esse caminho. Não havia reflexão acerca dos possíveis perigos, e assim tornámo-nos as primeiras cobaias digitais de um novo mundo em expansão.
Cerca de 20 anos depois, vários governos europeus avançam, ou planeiam avançar, com a proibição das redes sociais a menores de 16 anos, sendo a Grécia o país mais recente a impor restrições aos jovens, invocando o argumento de que causa efeitos adversos na saúde mental e emocional das crianças. Em Portugal também se tem discutido a necessidade de impor uma maior regulação, em particular nas comunidades escolares.
Chegámos aos dias de hoje com uma enorme dependência digital, transversal a todas as gerações, e que nos deixa cada vez mais saturados. Perdemos o entusiasmo perante os scrolls infinitos que nos ativam a dopamina. Não surpreendem iniciativas como os “clubes offline” que incentivam a socialização e nos permitem reconectar com atividades humanas básicas. De certa forma, estes clubes não representam apenas um sentimento nostálgico pelo passado, ou uma tentativa de escapismo, mas são também uma forma de resistência a um modelo de vida que nos deixa cada vez mais isolados. Já não sentimos tanta tolerância pela presença dos outros, e por isso importa fazer escolhas conscientes para reconquistar esse espaço social que foi perdido. Teremos de reinventar o modo como estabelecemos ligações, e isso é mais urgente do que nunca, face à nova geração de modelos de linguagem (IA) que quer tornar-nos ainda mais dependentes do mundo digital.
Estamos a proteger as crianças e os adolescentes, mas os adultos não precisam de menos proteção. Num mundo que lucra com a nossa atenção fragmentada, a concentração tornou-se um ato de resistência. Reivindiquemos o direito ao aborrecimento, à contemplação e ao silêncio. Que este movimento possa crescer em comunidade, sem notificações. Porque, no fundo, o que queremos não é fugir da tecnologia. É reaprender a habitar o mundo com os outros, sem intermediários, no único tempo que verdadeiramente nos pertence.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.