Na década de 1960, no ensaio A Morte do Autor, Roland Barthes definia o texto como um tecido de citações, uma imensa compilação de discursos já existentes na cultura. A unidade do texto não reside, assim, na sua origem, mas no seu destino.
Há, deste modo, textos que não se escrevem, tecem-se. Não avançam em linha reta, não obedecem à lógica da frase que conduz o leitor de um ponto ao outro, expandem-se, repetem-se e enredam-se imprevisivelmente. São fios que se entrecruzam, criam superfícies onde o sentido emerge e se vai construindo no próprio ato de ler. Esta conceção do texto como trama reticular encontra uma nova atualidade no contexto da cultura digital. A leitura deixou de ser exclusivamente linear para se tornar exploratória, relacional e, muitas vezes, interativa. O leitor não é apenas intérprete, é participante e “coautor” ativo.
É neste contexto que a literatura digital surge de forma pontual no documento das Aprendizagens Essenciais relativas ao 12º ano de Português (que esteve em consulta até 28 de abril). Importa reconhecer que o documento revela alguma abertura ao digital, ao sugerir textos multimodais, em articulação interartística, dando conta da ampliação dos contextos de leitura proporcionada pelas tecnologias. A possibilidade de integrar literatura digital no contrato de leitura, bem como de promover recriações multimodais (vídeos, banda desenhada ou mesmo videojogos) revela um entendimento da leitura contemporânea na sua pluralidade. No entanto, essa abertura permanece periférica.
O núcleo da Educação Literária continua centrado predominantemente em obras dos séculos XIX e XX, o que cria uma tensão evidente entre as competências que se poderiam desenvolver (pensamento crítico, leitura não linear, interpretação em contextos complexos) e os textos efetivamente propostos. A literatura digital é reconhecida, mas ainda não plenamente legitimada como objeto de estudo.
Explorar e valorizar
Salette Tavares e Ana Hatherly, ambas representadas na coleção do Centro de Arte Moderna Gulbenkian, ocupam um lugar central na poesia experimental portuguesa. Salette Tavares (1922-1994) desenvolveu uma obra que cruza poesia, artes visuais e reflexão estética, tratando a linguagem como matéria e estrutura. Ana Hatherly (1929-2015), poeta e artista visual, radicalizou a experimentação da escrita, explorando os limites entre legibilidade e desenho.
No documento das Aprendizagens Essenciais, estas autoras surgem integradas na lista de poetas portugueses contemporâneos, com indicação de poemas visuais a trabalhar no âmbito do contrato de leitura. Contudo, esta presença, sendo significativa, é opcional, o que evidencia um reconhecimento que não se traduz numa efetiva valorização na disciplina de Português.

Quando autores contemporâneos desenvolvem poemas interativos, generativos e visuais (como acontece, por exemplo, com Catarina Real, Rui Torres ou Pedro Rodrigues) e podem permanecer ausentes dos programas, a escola demite-se de ensinar literatura do presente.
Não se defende aqui a substituição do cânone, nem o abandono de autores incontornáveis que constituem escolhas irrepreensíveis do documento em consulta pública. Trata-se, antes, de reconhecer que a própria ideia de texto mudou e que, por vezes, os olhos não chegam para vermos o que precisamos de ver, como sugere Pedro Rodrigues no poema visual Exame de Optometria (A Mar, 2024).
Hoje, a literatura pode integrar imagem, som, código e interação; pode igualmente depender das escolhas do leitor, da lógica do algoritmo ou da dinâmica da interface. É neste contexto que se fala de literatura digital, entendida como práticas literárias que utilizam dispositivos digitais na criação e na leitura, explorando plenamente as potencialidades do meio. Não se trata, portanto, de textos ou fragmentos que simplesmente circulam no meio digital, mas de obras concebidas para esse ambiente, cuja materialidade e o funcionamento dependem das suas condições tecnológicas, como tem sido demonstrado no campo da literatura eletrónica e, mais amplamente, das humanidades digitais. Ignorar estas transformações é reduzir a leitura a um modelo que já não corresponde à experiência cultural dos alunos.
Suporte ou transformação
A ausência quase total da Inteligência Artificial acentua este desfasamento. Num momento em que a escrita, a leitura e a própria noção de autoria estão a ser reconfiguradas por sistemas algorítmicos, os conteúdos, em apreciação, continuam a pensar o digital sobretudo como suporte, e não como transformação estrutural da cultura textual e da receção das obras. Formar leitores, no século XXI, implica capacitá-los para interpretar textos gerados ou mediados por IA, compreendendo os seus mecanismos, limites e implicações éticas.
A literatura digital oferece, neste sentido, uma oportunidade inigualável. Não apenas pela sua atualidade, mas pela sua capacidade de envolver os leitores com a materialidade dos média, obrigando-os a tomar decisões, a explorar percursos e a construir sentidos. Pode desenvolver-se criticamente uma prática que articula leitura e criação, análise e experimentação, tradição literária e inovação.
Assim como a poesia visual questionou os limites da linguagem e as páginas de papel, a literatura digital prolonga esse movimento num ambiente tecnológico. A passagem, aparentemente disruptiva, é, na verdade, uma continuidade das transformações da literatura ao longo dos séculos, sempre sensível ao suporte, ao modo de leitura e ao papel do leitor.
Tendo em conta que a Inteligência Artificial já participa nos processos de escrita, a questão torna-se inevitável: que leitores queremos formar? Os que são apenas capazes de reconhecer estruturas conhecidas e repetidas ou sujeitos críticos preparados para interpretar, selecionar e construir sentidos em ambientes instáveis e em constante transformação? A resposta dependerá da capacidade de reconhecer a importância de desenvolver competências essenciais que permitam questionar um património literário, também ele digital.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.