Vivemos num tempo em que a informação circula à velocidade da luz. As redes sociais democratizaram o acesso ao conhecimento, mas também amplificaram o ruído. Entre opiniões e notícias falsas, o espaço público tornou-se um terreno fértil para a desinformação, cujo custo é real – emocional, financeiro e, em última instância, da própria saúde individual e coletiva.
Onde existe desconhecimento, existe insegurança. Perante o incerto, o nosso cérebro apressa-se a preencher os espaços em branco com narrativas intuitivas e, muitas vezes, incorretas. É assim que surgem mitos e teorias da conspiração que prometem clareza absoluta num mundo complexo. O antídoto para este fenómeno não é mais barulho, é falar com mais conhecimento, transparência e Ciência.
Mas para isso é preciso, antes de tudo, percebermos o que a Ciência é – e o que não é. A Ciência não é uma opinião, um dogma ou uma verdade imutável. É precisamente quando a tratamos como certeza absoluta ou quando a descartamos como mera crença, que abrimos espaço para a polarização.
Afinal, o que é a Ciência? É o conhecimento obtido através do método científico – um processo racional que começa na observação, passa pela formulação de uma hipótese, exige um teste rigoroso e uma análise e interpretação dos dados. No dia a dia, todos fazemos parte da primeira metade deste processo: observamos e criamos teorias para interpretar o que vemos. O que geralmente nos falta é a objetividade de testar e analisar resultados antes de concluir e extrapolar.
Esta é a grande diferença entre uma opinião baseada na experiência pessoal – válida, mas subjetiva – e o conhecimento científico, que foi testado de forma estruturada para poder ser generalizado. Anos de investigação são, por vezes, destruídos num minuto nas redes sociais com base em opiniões rápidas e pouco informadas.
A Ciência avança porque pode ser testada e refutada, é um puzzle que ganha forma à medida que juntamos peças de diferentes contextos. Ainda assim, a Ciência não é perfeita, porque é feita por pessoas reais dentro de sistemas imperfeitos. Existem pressões, falhas de financiamento e uma avaliação muitas vezes centrada na quantidade e não no impacto. Reconhecer estas limitações não deve minar a confiança, mas, sim, humanizar o processo. Apesar das falhas, continua a ser a melhor ferramenta que temos para tomar decisões informadas, mas precisa de chegar às pessoas de forma clara e contextualizada.
Aqui surge um problema, os cientistas falam sobretudo uns com os outros, em jargão técnico, e pouco com a sociedade. Nem todos os investigadores têm vocação ou tempo para comunicar com o público não especialista enquanto gerem projetos e burocracias. Não é sustentável esperar que o façam apenas por “amor à Ciência”.
Comunicar Ciência deve ser reconhecido como um trabalho especializado. Exige compreender as nuances dos dados e saber traduzir o complexo sem o distorcer. Os comunicadores de Ciência funcionam como a interface entre os cientistas e o público geral e têm a capacidade de pegar no conhecimento fechado em artigos técnicos e transformá-lo em informação útil, capaz de educar, orientar decisões, influenciar políticas, moldar comportamentos e até salvar vidas.
Esta ponte funciona nos dois sentidos, não se trata apenas de transmitir dados, mas de dialogar, ouvir as preocupações das pessoas e adaptar o discurso à sua realidade. Não precisamos que todos saibam interpretar estudos complexos, mas precisamos que todos compreendam como o conhecimento é produzido para que possam confiar nos seus intermediários.
Sem comunicação, a Ciência perde impacto, o conhecimento, as vacinas e os tratamentos ficam a “apanhar pó” nas prateleiras académicas. Por isso, é urgente valorizar e profissionalizar a comunicação de Ciência – formar, apoiar e reconhecer quem sabe traduzir, contextualizar e explicar sem distorcer nem simplificar em excesso. Dar palco a quem constrói pontes em vez de muros. Num mundo onde o palco nunca fica vazio, alguém terá sempre o microfone. A pergunta é: quem queremos que fale?
Beatriz Subtil
Comunicadora de Ciência e Doutorada em Ciências Biomédicas
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.