Comecei o dia com os rituais do costume: descafeinado forte, computador ligado e o silêncio q.b. para fingir que o mundo lá fora faz sentido. Mas daquela vez o anúncio de emprego era diferente. Não procurava um engenheiro ou um diretor de marketing. Procurava-se o “chefe” de todos nós – o mais alto cargo do Estado. E a pergunta bateu-me com a força de um debate televisivo em horário nobre: se o Presidente da República fosse recrutado como um comum mortal, algum dos candidatos passava do período de experiência?
Na psicologia organizacional, sabemos que escolher líderes pelo “cheiro” ou por mero palpite dá sempre asneira. E sai muitíssimo caro! Mas na política, o “olhómetro” parece ser o método científico oficial. A ciência diz-nos que devíamos usar testes cognitivos e entrevistas comportamentais, a nossa realidade diz-nos que basta um cartaz com um sorriso retocado e uma promessa vaga de salvar a Pátria.
Passei a manhã a desenhar o processo. Primeiro, o descritivo de funções. O que se pede? Alguém que saiba representar o Estado sem trocar os protocolos, que mantenha a calma quando o governo decide implodir e que não use o poder de veto como quem faz “birra” nas redes sociais. Não é poesia constitucional, é apenas o básico para não descarrilarmos o comboio.
Seguir-se-iam os testes psicotécnicos. Raciocínio lógico e abstrato – essencial para ler leis escritas em “jurisdiquês” arcaico sem entrar em curto-circuito cerebral. Depois, a tomada de decisão ética. Um caso prático: “O País está a arder (literalmente ou metaforicamente), o que faz primeiro: telefona ao primeiro-ministro ou tira uma selfie com os bombeiros?” Não é uma utopia, tudo isto se mede. Pena que não se pratique.
Na personalidade, o terreno torna-se pantanoso. Não procuramos a santidade, mas convém evitar quem incorpore todo o manual das psicopatologias. A História recente da política internacional tem mostrado como os dirigentes com traços narcisistas podem transformar os seus cargos em extensões do próprio umbigo – um risco à escala global. Baixa tolerância à crítica? Traços paranoides que transformam o Palácio de Belém num espelho distorcido? Sinais de alerta. Não queremos líderes que confundam o interesse nacional com um ringue de boxe pessoal. Riscos que não se resolvem com uma carta de despedimento, mas com cinco anos de agonia.
Ao final da tarde, olhei para a lista de candidatos finalistas e senti uma vontade súbita de me benzer. Raro era o candidato que vestia a verdadeira camisola da Pátria. “Meus senhores, recebemos currículos a mais e competências a menos. Podemos aumentar o número de assinaturas necessárias? É que isto é para a Presidência da República, não para o porta-voz do clube da sueca, não desfazendo.”
Agora, nesta segunda volta de nervos à flor da pele, a variável mágica chama-se regulação emocional. O País está polarizado, a ansiedade coletiva bate recordes, e o que temos? Candidatos que parecem mais preocupados em ganhar discussões de comadres do que em governar o silêncio. Um Presidente não tem de ser espalhafatoso nem de carregar no botão “contra os canhões marchar, marchar” só porque acordou com os pés de fora. Precisamos de previsibilidade, não de malabarismo.
Ao final do dia, desliguei o computador e fechei o caderno com uma certeza amarga: continuamos a aceitar para o cargo mais alto do País critérios de seleção que nem uma pequena retrosaria aceitaria para rececionista. Votar é recrutar. A questão é que, no dia da entrevista final, o júri somos dez milhões – e metade de nós ainda está a tentar perceber se o candidato é mesmo um bom profissional ou se apenas aparece muitas vezes na televisão. Que vença o melhor, ou aquele cujos defeitos consigamos suportar sem precisar de terapia de grupo durante cinco anos.
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