Acima das Caraíbas, a milhas da Carolina do Norte, as Bermudas tornaram-se famosas pelo folclore por trás do Triângulo com Porto Rico e Miami.
A ilha é vítima de muitos equívocos. As Bermudas não estão no mar das Caraíbas, mas no Oceano Atlântico. Não é uma única ilha, mas uma cadeia de mais de cem.
É inquestionável que as Bermudas são uma combinação vibrante e fascinante das culturas africana, inglesa, jamaicana e portuguesa. Muitos dos bermudenses são descendentes de sobreviventes de naufrágios. O Sea Venture, que se afundou em 1609, deu início à história das Bermudas. Desde então, mais de trezentos outros navios sofreram um destino semelhante.
Aterramos no Aeroporto de Hamilton. A caixa multibanco pergunta se quero continuar em inglês ou português. Depois do espanto inicial, torna-se fácil compreender que apesar de o inglês ser o idioma principal, o português é amplamente falado aqui.
Seguimos por entre as sinuosas estradas das Bermudas, cercadas por paredes de pedra calcária centenárias. Surgem casas em tons pastel, com os seus telhados brancos em forma de degraus, feitos para recolher a água da chuva. Tudo se afoga na vegetação luxuriante com hibiscos amarelos, rosas, vermelhos e brancos espalhados pela ilha.
Apesar das condições tropicais da ilha, nos almoços de trabalho, colegas vestem gravata, blazer, calções bermuda e meias longas puxadas até ao joelho. As mulheres usam vestidos leves e sapatos altos. Os museus e galerias de arte acrescentam toques de sofisticação urbana.
As Bermudas são uma combinação vibrante e fascinante das culturas africana, inglesa, jamaicana e portuguesa.
Desde a chegada dos portugueses, a cultura portuguesa integrou-se na vida e diversidade das Bermudas.
É Feriado Nacional e comemoramos o 170º aniversário da chegada de imigrantes portugueses nas Bermudas. Os primeiros imigrantes chegaram da Madeira em 1849. Após uma viagem de vinte e um dias, trinta e cinco homens, dezasseis mulheres e sete crianças chegaram às Bermudas. Apesar de os primeiros imigrantes serem da Madeira, a maioria dos imigrantes portugueses viria principalmente dos Açores. Desde então, os bermudenses de herança portuguesa contribuíram para o impressionante desenvolvimento das Bermudas. Associações como o Clube Vasco da Gama sempre facilitaram as interações culturais e promoveram aulas de Português.
A agricultura nas Bermudas está intrinsecamente ligada à vida dos imigrantes portugueses. Muitos descendentes dos primeiros imigrantes, continuam ligados à agricultura. A Feira Agrícola faz parte dessa história, revelando as diferentes culturas e sabores da ilha. No início, a Feira Agrícola era apenas isso – um espaço e tempo para mostrar os diferentes produtos agrícolas das Bermudas. Mas rapidamente evoluiu para se tornar numa celebração da cultura das Bermudas, apresentando horticultura, arte, música e comida.
Aqui, a comida sai do caldeirão das diferentes culturas. A comida dá cheiro, sabor e vida à história das Bermudas. Dos pratos portugueses como a sopa de feijão vermelho aos bolos de peixe mais de tradição inglesa. Lava-se tudo com Rum Swizzle – uma combinação aparentemente simples e refrescante de rum escuro e cerveja de gengibre.
Depois da Páscoa, vamos para as ruas de Hamilton, celebrar o Senhor Santo Cristo dos Milagres. Influenciada pela procissão nos Açores, saímos depois da missa na Catedral de Santa Teresa, com a estátua de Jesus Cristo ao longo de um tapete de flores por entre as ruas de Hamilton. Segue-se uma celebração de dois dias, incluindo dança folclórica e muita música portuguesa.
E há o Festival Internacional de Gombey que acontece todos os anos em Outubro. Gombey é um tipo tradicional de dança e música originária da África Ocidental. Como forma de contar histórias, a dança Gombey combina influências africanas, inglesas, americanas e das Caraíbas. Evoluiu nessa diversidade, para se tornar uma tradição essencialmente bermudense. Os trajes coloridos dos Gombeys são adornados com centenas de lantejoulas, penas de pavão e máscaras coloridas. Na noite de sábado do festival de três dias, as seis tropas de Gombeys reúnem-se para tocar e dançar por entre o som de sinos, assobios e tambores.
O fascínio do Festival é que os Gombeys contam a história das Bermudas.
Em 1505, Bermudez foi o primeiro navegante a descobrir os recifes traiçoeiros das Bermudas. Apesar de sair ileso, outros não tiveram a mesma sorte. Hoje, muitos dos bermudenses são descendentes de sobreviventes de naufrágios. O Sea Venture, que se afundou em 1609, deu início ao desenvolvimento das Bermudas. Desde então, mais de trezentos outros navios sofreram um destino semelhante.
Em 1543, navegadores portugueses naufragaram nos recifes das Bermudas. Isolados numa ilha desabitada, passaram semanas a viver da terra enquanto construíam um novo navio a partir da madeira dos destroços. Antes de trocarem as Bermudas pelo mar, esculpiram as iniciais “RP”, juntamente com a data, numa rocha em Spittal Cost. RP como referência a Rex Portugaliae – o rei de Portugal, com a cruz da Ordem de Cristo Portuguesa. Hoje, a inscrição fundida em bronze é conhecida como Rocha Portuguesa, e lembra os primeiros visitantes conhecidos a passar nas Bermudas.
Mark Twain, ou melhor Samuel Clemens, o visitante mais conhecido das Bermudas, descreveu-as como um paraíso, mas era preciso passar pelo inferno para chegar lá. Clemens descobriu as Bermudas pela primeira vez numa viagem de volta de Jerusalém. As Bermudas deram ao escritor um refúgio da sua existência atormentada no continente. Regressou sete vezes para descobrir que a beleza, o ritmo e o clima eram o remédio que precisava.
A meio dos nossos dias, sinto as Bermudas como Mark Twain: “Você vai para o céu, se quiser. Eu prefiro ficar aqui”.