
Não há dia que passe sem consultar a meteorologia no telemóvel e são vários os lugares que tenho fixados: Nagoya; Lisboa; Ericeira e Tokoname (onde costumamos fazer praia). Volta e meia acrescento mais um ou outro mas estes bastam para me fazer sentir que não há verão mais ranhoso que o do Japão.
Ou se calhar até há. Em Londres, por exemplo, tenho uma amiga que se descabela pois em pleno agosto anda de collants e chapéu de chuva em riste.
Pronto, há sítios piores, mas aqui o calor é sufocante, pegajoso e também tem chovido e trovejado a rodos. Hoje está a passar o tufão Noru, o 5º de 2017, e veremos as repercussões que nos trará.
É debaixo desta humidade que as maiores ninjas se proliferam: as melgas! A melga japonesa não é uma melga qualquer, ataca de igual modo de dia e de noite, é silenciosa (não há cá o Bzzzzzz da melga portuguesa nos ouvidos), é pequena, de patas às riscas, e tão depressa a vemos como se evapora. As babas que nos deixa não têm explicação, nem no tamanho nem na comichão!
Talvez por este motivo todas as habitações tenham, nas janelas, redes à prova de melga.
Há pouco mais de 1 ano, quando andámos a ver casas para nos mudarmos, fomos visitar um apartamento num oitavo andar. Uma das particularidades das casas japonesas são as janelas pequenas e as varandas cobertas que impedem que a luz do sol entre directamente. Outra característica são os quartos tradicionais com o chão em tatami, onde se usam futons na vez das camas. Esta casa tinha tudo isso e ainda uma mais-valia dada em primeira-mão pelo senhor da Imobiliária, é que a partir do 7° andar as melgas já não conseguem subir.
Tivéssemos ido para lá e estávamos safos!
Entomologia afora, há por esta altura uma praga de cigarras por todos os jardins da cidade. São grandes e fazem um barulho ensurdecedor, ao que dizem ser o seu canto. Estima-se que haja 350 espécies de cigarras em todo o território japonês.
À mesma velocidade que nascem também morrem e é comum espetarem-se nas janelas que afinal são à prova de qualquer bicheza.
No outro dia estava na sala com a minha filha e de repente vemos um vulto e ouvimos um ‘POC’ no vidro. Diz ela entusiasmada: “Piu-piu?!”, e eu “Não, filha, era uma cigarra kamikaze”.
No verão, um dos hobbies das crianças é apanhar insectos nos jardins. Munidos de casinhas de plástico e redes de caça, divertem-se a apanhar cigarras e procuram um dos mais desejados besouros, o Kabutomushi (Kabuto é a palavra japonesa para capacete samurai) ou besouro rinoceronte. Este besouro é o Rei dos insectos e é conhecido pela sua força e poder. Quem encontra um acredita que é sinónimo de sorte. A sua popularidade tem crescido ao longo dos anos pela sua presença em animes, jogos, filmes e publicidade. Em Tóquio chegam a ser feitos torneios de boxe com os pobres bichos.
São considerados bons animais de estimação pois ocupam pouco espaço, não requerem grandes cuidados e podem ser deixados sozinhos por longos períodos de tempo.
Retomando a meteorologia e uma vez que está calor, vamos até à praia. Lá não há melgas mas há aves de rapina a sobrevoar o areal.
Estava eu sentada à beira-mar, a saborear uma sanduíche de atum feita em casa, quando vejo uma coisa grande e peluda a rasar-me o ombro e a caçar-me o pão, deixando-me a sós com o papel que a segurava. Apanhei um valente susto e, mais tarde, fiquei a saber que é prática comum as aves roubarem comida com extrema perícia. É que nem me tocou!

Aves também há muitas mas em forma de bóia, nas águas do mar e das piscinas. Pelo que sei, a moda dos flamingos cor-de-rosa e dos cisnes brancos já chegou a Portugal, ao lado das pizzas e dos donuts flutuantes. Se queremos ser trendy dizem que temos de seguir as tendências de moda mundiais. Eu por agora divirto-me mais com as modas dos outros. Aprecio os desfiles de biquinis a fazer pandã com as amigas ou os burkinis refrescantes, as crianças de coletes salva-vidas vestidos para irem dar um mergulho (com a bóia) na piscina, saltos da prancha para a água arbitrados pelo nadador-salvador, e flamingos, unicórnios e ostras recheados de banhistas de óculos de sol, argolas até aos ombros, maquilhagens perfeitas e capas de telemóvel impermeáveis ao pescoço para registarem os momentos em alto mar.
Irreverentes? Somos nós, que damos mergulhos “à golfinho” sem tapar o nariz, que nadamos e vibramos com as ondas sem medo, que continuamos a sentir que a vida simples não precisa de produção fotográfica.
visto de fora
• Dias sem ir a Portugal… 91
• Nas notícias por aqui… Está a passar pelo território japonês o tufão nº5 de 2017, considerada a tempestade mais forte deste ano. O Noru formou-se há mais de duas semanas no Pacífico, ganhou força e começou a dirigir-se para o Japão. Uma das características deste tufão é que se movimenta lentamente e faz com que as chuvas e as rajadas de vento demorem mais tempo a passar. A aproximação à ilha principal levou à evacuação de milhares de pessoas e foram cancelados mais de 400 voos. Há actualizações do seu trajecto ao minuto.
• Sabia que por cá… está a decorrer o período de escalada do monte mais bonito do mundo, o Fuji san. Iniciou em julho e este ano encerra a 10 de setembro. Tenho a ambição de o escalar enquanto aqui estiver pois acredito ser uma experiência única na vida.
Mais informações aqui http://www.fujisan-climb.jp/en/season/index.html
• Um número surpreendente: 200 iénes é quanto custa um buraco na areia feito com o berbequim para colocarmos o chapéu de sol. (